segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Pudor celeste

I

Enigma que amanhece
Veredicto a percorrer com dedos
o gole desfiado

Madeiras crescem como árvores
Lápis ousa e repete aquilo que
de inventado serve

Julga ou encena no
Vazio da boca entorpecida.
Unge em tons
refuta e cresce.


II

Vapor acre solve
o corpo em cruz de nylon

Exuberante combate

Fôlego
Asilo que brilha e rói

Cinzas de giz pedestal
no roto ponteiro afia enquanto
lambem a cor tormenta noite.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Blabla bla

as vezes me faltam palavras
as vezes nem as reconheço
pode chamar do que quiser
pode encontrar os sintomas
e conceituar as minhas limitações

as vezes as palavras são insuficientes para descrever o que sinto
talvez esteja em mim essa insuficiência que inocente as palavras

mas, o glossário
o glossário que reúne as palavras
os diálogos que utilizam as palavras
as descrições... todas as palavras
e até aquelas inventadas
formam um conjunto de legendas

impressões traduzidas para fonemas disponíveis

gostaria de dizer de outra forma
de transbordar para o outro 

talvez, transbordar seja, de fato, a palavra que mais me faz falta.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Rasura de ser vivo

Cansou de fingir
ou de fugir.

Ansioso e hepático
o moribundo arrasta seus dejetos
por entre a turba exultada.
Tanto faz quantos dias lhe restam
tanto faz o que lhe agrada.

Ele transita por entre os ruídos da cidade
apenas 
prossegue esgotando-se.
Parece que carrega o mundo
em caixas empilhadas
e formulários.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Resolve
cansa
esforça
força
forca
tenta
fórceps
bíceps
o gato mexe na caixa de areia
e tudo para.
II
Afunda o rosto na neve
sorve o corpo no gelo dos pulmões
adoece
esquece
aborrece 
insiste
viaja
desiste
retorna
afunda o rosto na neve
escreve
assiste
desenha
conversa
ama
sente

dança
cansa
se entrega
afunda o rosto na neve
o cheiro da neve
o gosto da neve
transpira
alucina
sofre
vomita
Boneco de neve
Bola de neve
desce
esquia
esguia
falece
Afunda o rosto na neve. 
fraqueja 
enlouquece
Afunda o rosto na neve

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Apenas

Minha noite é quase quieta. Quisera eu alguma agitação que não o estalar das telhas e os insetos cantando no mato alto da vizinhança. Essa noite tão particularmente triste. Indiscutível soluça enquanto um carro resolve se anunciar grave: descortinou que há vida lá fora e que logo vai amanhecer esse dia assombrado - que temo; por ser tempo.
Latidos quebram ou entrelaçam esse eco que ressoa na paisagem. Aqui em mim há lembranças contidas e detidas na ânsia egoísta de ser trágico, menos. Apenas.
Calado eu repito a cena; a angústia e o medo de tudo que não está em mim.
Queria o poder que tem a fé das preces. Eu oraria por ti, por mim, por nós, por todos, até por aqueles e sobretudo por aqueles. Tento ouvir mais longe. Aproprio-me dessa "mudez" em que despido confesso a maior das ausências.

5 de abril de 2016 - em memória de Angela Mirati

segunda-feira, 14 de março de 2016

Ausências, desculpas e subterfúgios

Fujo, escondo-me aos olhos vistos.

Coloco uma capa, uma roupa, uma máscara e transito entre os estranhos iguais.
Parabenizo e desculpo-me;

apenas e quando a noite chegar será a preparação para
a reprise da atuação de amanhã, hoje; novamente.