terça-feira, 4 de agosto de 2015

Amanhã são 04 meses

Amanhã fará quatro meses que eu fui ao hospital visitar a minha mãe, pela ultima vez.
Cheguei no horário para visitas no CTI, era 13h, se não me engano, ela estava deitada na cama. Ligada aos aparelhos. Eu tirei uma foto dos medicamentos e enviei por sapp para uma colega me esclarecer sobre o que se tratava.
Mamãe dormia, estava em coma. Minha irmã logo chegou. Estava nervosa, foi procurar alguém do atendimento. Eu fiquei ali, olhando para ela. Verifiquei as feridas, a cirurgia, se os aparelhos estavam conectados direito (como se eu soubesse alguma coisa de medicina). Fiquei contando para ela as coisas da semana, da casa e as providências que eu estava tomando.
A médica havia dito que ela não estava conseguindo dialisar e isso era de fato alarmante. Antes de ir embora a minha irmã falou para ela que estaria lá na semana seguinte. Era domingo, eu segurei na mão da mamãe e falei para ela descansar. Eu disse que se ela quisesse descansar que ela podia. Que não precisava me esperar aparecer durante a semana, que eu não faria mais promessas. Disse para ela algumas coisas que não lembro, mas que me deixam emocionada em pensar aquele momento. Aquele momento em que ela já mexia o braço (início do colapso). Quando saímos dali eu e minha irmã ainda conversamos até eu pegar o ônibus e quando eu cheguei em casa. Uma hora depois da visita eu recebi a ligação me notificando sobre o falecimento.
Não, eu ainda não entreguei o apartamento e nem entrei com o seguro. Sim, eu preciso de ajuda. Mas, não sei como e nem a quem pedir. Sim, eu sei que devia ter me livrado disso. Mas, só me encalacro mais. Tenho a ligeira noção de que menti para ela no leito de morte. Não, eu não estava tomando providencia nenhuma, não eu não queria que ela descansasse se isso significava deixar esse vazio absurdo na minha vida.
Não consigo entender o dia claro, o céu azul ou a lua no alto sem ter ela aqui para contemplar cada segundo desse mundo tão bonito que tanto a encantava. Pois, ela achava tudo maravilhoso enquanto eu sempre achei tudo efêmero e entediante.
Ela era o meu contraponto ela é a minha melhor lembrança. A unica que, realmente, tenho medo de esquecer.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Aforismos aleatórios ou quase isso - A

Adeus - a forma mais antiga de distanciar as pessoas antes da internet.
Amor - é tudo aquilo que a gente sente de bom por nós mesmos e pelo outro.
Ansiedade - acreditar no segundo seguinte e querer que ele aconteça agora.
Ausência - saudade de algo que já esteve aqui.

terça-feira, 23 de junho de 2015

Escondidos

Há pessoas escondidas.
Camufladas por sob a pele, disfarçadas por sob a roupa e desfocadas por atos que nos convencem daquilo que queremos,
Há pessoas que nem notamos. Mas, elas estão ali.
Esses dias um idoso teve seu sonho interrompido e eu fiz nada. Eu permiti que um homem velho tivesse seu sonho interrompido. Eu permiti que um homem velho tivesse seu sonho interrompido.
Eu sorri ao ouvir sua desgraça e eu não fiz nada. Apenas reclamei, apenas reclamei como reclamo agora. Sinto-me tão suja e perversa, tão idiota.
Eu vi um sonho morrer como tantos outros sonhos e deve ser por isso que há pessoas escondidas, pois não conseguem se revelar e sofrer escárnio.
Eu queria poder fazer algo, queria ter o dom para lutar, para ser alguém melhor. Alguém de quem eu mesmo me orgulhasse, mas não tenho mais argumentos para me justificar.
Sou fraca ao contrário do que você vê;
Sou medrosa ao contrário do que você acredita e
falho mesmo no âmago do meu esconderijo.
Estou rota.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Ela sempre volta

São exatas duas semanas.
Parecem anos de tortura, dor e arrependimento.
Ainda não consegui sair desse apartamento.
Ainda estou enterrada aqui. Este é o meu túmulo tumultuado.

A mesa em que digito é a personificação, em objeto, do caos.

Sou caótica. Esta definição não me basta.
Ela nem sequer me representa.

São duas semanas. Duas semanas e eu ainda espero ela voltar.
Ela sempre volta.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Ainda

Ela se foi.

Nada resume e destroça de melhor forma. Foram meses tão tristonhos.
Foram meses tão sofridos. Eram dias tão cruéis, tantas dores, tantas dores.
Suas lágrimas, sua angústia, seu olhar calado, suas rugas.

Foi na tarde de um domingo e choveu tão forte no exato instante que ela se foi. Choveu o restante do dia. Chove em mim, ainda.

Era tão óbvio que alguém, tão assim, não permaneceria neste caos por muito tempo.
Gostaria de segui-la, agora. Mas, não ainda.

Como eu sinto esse vazio. Choro que não sai da face. Olhos que ardem. Desatenção. Solidão. Medo.

Ela era tudo.
Ela se foi.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Você pode me encontrar sentada com um vestido florido, na calçada da praia.
Meus óculos escuros rompem a noite.

Nada a esconder ou escutar.
Ela nem se foi e eu sinto uma saudade enorme do não estar ali.

É uma dor. Um vazio estranho.
Um gosto metálico, uma taça vazia.

Você pode me ver. Estou sentada logo ali
e comigo sentam-se lembranças, memórias
e uma dor tão cheia de lágrimas, tão doída.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Perdidos que estamos sem você

Eu sinto que ela está morrendo.
Não tenho coragem de dizer isso para ela
e então invento planos.

Quando olho naqueles olhos eu vejo tantos sonhos
que esbarraram na cama de um hospital.
Quando vejo aquele rosto, aquela face que não me encara por não saber se eu sou real.
Eu sou real, sim eu sou.

E meus sentimentos estão bagunçados.
Não quero perde-la.
Não posso perde-la.
Que faria da minha vida, que farei (pergunta)

Mas, eu sinto que ela está indo embora.
Sim, eu sinto.

Um filho sempre sabe a hora e eu evito ficar a sós com ela com medo de que seja o derradeiro fim.

Mãe, me perdoa.
Mãe, me perdoa.
Mãe, me perdoa.
Mãe, me perdoa.
Eu sou forte, mas  não o suficiente para te ver morrer.

Mãe, você está dando tempo para a gente se despedir.
Oh! Mãe, não sei se você se lembra que o pai gostava de engraxar sapatos e que você sempre cuidou bem da gente, de todos nós. Mas, mãe eu não consigo suportar ver você sofrer, mãe.
Dói de uma forma que não sei te descrever.


Mãe, me desculpa todas as vezes que não tive presente
todas as vezes em que eu menti ou me omiti.

Só tenho que te pedir perdão,
Mas, você descobriria a sua situação. Não que eu ache que você não saiba e engane-nos para não nos fazer sentir mais perdidos.
Perdidos que estamos sem você, mãe.

Perdidos que estamos sem você.

Chamada não atendida

- Quando eu morrer, você irá ligar.

- Sinceramente, não vou gastar crédito com isso. Você estará morto! Não poderá atender. Se a Morte vir a chamada não atendida e decidir retornar a ligação (pergunta) Não. Portanto, quando você morrer eu não vou ligar. Te ligarei enquanto estivermos vivos; mesmo que não por telefone e quando eu deixar de ligar: não ligue. Terei morrido.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Biscoito da sorte

A frase que vem da sorte diz:
você é sociável e interessante.

Interessante é: que não saio de casa há dias.
Peço comida pelo telefone e pago em dinheiro
na maior parte das vezes. Apesar de, agora, contar moedas.

Nem fui ao mercado.
Nem a farmácia.
Também não fui visitar minha mãe
e nem recepcionar minha irmã.

Há dias que não saio de casa
e a ultima coisa que faço é ser sociável.
Talvez quando acabar o cigarro.
Talvez quando acabar o cigarro.

A frase que vem na minha cabeça
não tem nada a ver com sorte,
não tem nada a ver com nada,
nem é uma frase ainda.



terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Vejo vermes na minha comida, imagino minha boca cheia deles.
Aranhas sobre a minha pele. Vejo as marcas de sua passagem.
Como cheguei aqui não é a pergunta.
O que faço dos meus dias eu não sei direito, eu não sei realmente o que já.
Eu sei que estou diferente, diferente de tudo que eu era.
Então é preciso acreditar na mudança mesmo quando parece que ela não é voluntária.
Eu mudei,
meus limites foram alterados,
eu mudei e agora me vejo nesta encruzilhada

São tantos anos
e eu cheguei até aqui.
Dias tão secos,
tão secos que me encho de líquidos para ver se me liquefaço.
Para saber como que fico, para inventar novos passos, para conter e soltar meu grito.

Hei!
Eu não sei mesmo,
eu não sei como te reconheço, mas me desconheço e nem nomino e denomino até aquilo que eu esqueço
e tudo, e tudo será apenas uma lembrança amarga.


domingo, 11 de janeiro de 2015

O nó e o barbante



Se você der nó no barbante não irá amenizar o nó do seu grito.
Nem permitirá que seu pedido de socorro seja ouvido ou atendido.

Se você der o nó no barbante só estará colando o instante derradeiro na sua memória.
Assim como o nó que não pode ser desfeito, um nó colado, o nó definitivo;
preso no seu grito.
Aquele grito que não foi dado.

O tapa que não foi sentido ou consentido.
O adeus que nunca foi dito
e o medo que nunca parou.

As luzes continuam acesas por toda a noite.
A noite não se faz mais clara por causa disso e tampouco o dia.

As luzes iluminam o nó que você irá dar no barbante.
Há nada que se possa fazer. Algumas coisas, simplesmente, se perdem.
Algumas coisas, simplesmente, são deixadas de lado.

Assim como um barbante com nó.
Aí um dia você está vivendo e decide comprar uma bicicleta.
Dia em que você toma consciência, pelo menos admite, que precisa seguir em frente.
O luto máximo dura dois anos - dizem.
Dura o tempo que você deixar.
O tempo que você precisa.

Se tivesse sido uma guerra.
Se tivesse sido um grande desastre de proporções épicas.
Mas, não foi.
A intensidade que você deveria saber.

Você nem sabe direito como começou.
Você nem sabe se está perto do fim.

Aí um dia você está vivendo e decide comprar uma bicicleta.

Ela não irá te salvar. Nada irá.
É um embuste da mente que te faz acreditar no poder de protelar o inevitável,
que algo está sob seu controle. Não está.
Que alguém virá em seu socorro. Não virá.

Então o que resta a fazer é comprar uma bicicleta.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Vermelho tétrico

Eles me deram bebês de plástico e meus adornos eram de vidro.
Aquilo que eu era estava revestido de carne e falsos eram alguns de meus sorrisos.
Não faltaram mãos que me consolassem, muletas dos infelizes, e não faltaram palavras para que me acalmassem. Pois, nervos extremos eram esperados da fragilidade que me incutiam.

Havia medo pelas paisagens e as vezes parecia que o trânsito fluía para as minhas entranhas que esvaíam em um vermelho tétrico tão amargo como os beijos dos bebês de plástico.

sábado, 3 de janeiro de 2015

Esqueceu o defunto na cama

O defunto na cama.
Ela atendeu quem estava na porta. Deixou entrar. Algumas desculpas trocadas e ela foi se arrumar para sair.
Poderia ter conferido o quarto, mas esqueceu. Esqueceu o defunto na cama.
As visitas ficaram livres pela casa e, como ninguém mencionou o falecido, ela não lembrou do homicídio.
Horas depois ela voltou, olhou para o quarto e encontrou o defunto deitado no mesmo lugar, coberto por aquele lençol fino.
Ela se perguntou como havia esquecido o que tinha feito. Quem diabos vê um corpo na cama e não comenta nada?
Ela se sentiu desconfortável.
"O que farei agora quando encontrar com os meus amigos?"


Mas, não pensou em se livrar do corpo ou se arrependeu de matar. Ela era o tipo de pessoa que esquece um defunto na cama.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Ela se sentia louca

Ela se sentia louca e se perguntava se um louco se questionaria sobre a própria sanidade.
Ela se atrasou e como sempre foi de propósito. Não ela não tinha relógios na maior parte do tempo. Mas, mesmo assim conseguia se guiar pela luz do sol (até no horário de verão ou em fuso horário diferente). Não desenvolveu a habilidade de se guiar pelas estrelas, mas conseguia distinguir o cinturão de Orion. Sim, ela era especial e se sentia louca.
Apressadamente ela desceu do carro e irritou-se com a demora do cliente que estava na recepção. Dois elevadores subiram e desceram enquanto ela esperava o homem velho dizer as mesmas coisas várias vezes, sem ser objetivo em nenhuma delas. A atendente era até rápida quando estava de fato trabalhando. No elevador uma mulher muito bem vestida entrou quase que desfilando e não escolheu nenhum andar; estava passeando e atrapalhando a vida alheia.
Preocupada com o pouco tempo que tinha ela apertou o botão de fechar a porta mais rapidamente e em segundos estava lavando as mãos perto do leito de sua mãe.
O acompanhante da paciente ao lado falava alto e fazia perguntas ao enfermo e ela rebatia como se as perguntas fossem direcionadas para ela. Ela queria que ele morresse logo, se possível, ao invés de ficar importunando um enfermo e assim ficou cada vez mais agitada; o homem demorou muito para ir embora (em torno de uns dez minutos).
Ela bebeu o suco que era da refeição de sua mãe, pois sentia um gosto estranho na boca. O fato de sua mãe estar internada era o motivo pelo qual ela estava naquele hospital. Sua mãe percebeu que algo havia de errado e pediu que ela fosse embora. Ela perguntou para a mãe se ela era tão desagradável quanto o acompanhante da enferma ao lado e sua mãe negou.
Ainda muito nervosa ela saiu do hospital e foi para um restaurante onde a atendente era lenta e preguiçosa e isso quase a enlouqueceu mais.
- Eles zombam de mim. - Disse para si mesmo baixinho.
Os atendentes não entenderam o pedido, demoraram com o troco e depois erraram o pedido o que levou mais tempo ainda. Uma criança tocou um piano que estava escrito proibido e ela quase o fulminou com os olhos. Depois de muito tempo o pedido ficou pronto e quando ela saiu de lá perdeu o ônibus.
Depois de quase uma hora no sol, no ponto de ônibus, com várias pessoas falando, uma sacola plástica suja veio voando e se prendeu em suas pernas.
Mas, o ônibus finalmente surgiu e ela entrou nele e um casal que estava na parada entrou também. Ela sabia que eles iriam sentar atrás dela e começar a tagarelar e eles fizeram exatamente o que ela previu (por mais que o ônibus estivesse vazio). Dentro do ônibus ela começou a comer o lanche e isso a distraiu. Ela desceu do coletivo bebendo o refrigerante e achou que os transeuntes da calçada a chamavam de gorda em pensamento. Ela estava tão irritada que quase surtou quando não achou a chave no bolso da frente e se culpou por ser tão estúpida por não ter deixado as cumbucas de gelo cheias. Pois, tinha sede e a água não deveria estar gelada o suficiente.
Ela entrou no apartamento e de repente ao ver sua gata deitada no sofá ela se sentiu bem. Tomou um banho frio e terminou o lanche que havia começado a comer no caminho de casa. Sentou-se diante do computador e digitou essa história. Ainda assim ela se sentia louca.
Sinto que ela está calma agora.