quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Digrito

A banalização é tudo o que temos e talvez de troco a tal da mediocridade. Vive-se em um tempo de egoísmos e o trunfo maior é nossa própria frivolidade. Nesses tempos tão claros, tempos iluminados que quase agridem a vista, reside o temor, aquele que converte os convictos em frágeis: nosso supremo mal natural; a necessidade de nos depreciarmos.
Mas, não somos humildes e nem escancaramos auto piedade. No passado como agora a nossa figura ostenta a distração, apologia ao inútil, desinteresse e superficialidade.
São muitas palavras – eles dizem.

Sim, mas talvez seja apenas a banalização de tudo e até deste momento em que as letras tomam formas de palavras nesta tela em que digrito.

(Inspirado por leitura de Mario Vargas Llosa)

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Não. Eu não irei hoje.
Já fugi boa parte das semanas.
Escondo-me neste calor.

Não. Eu não tenho desculpas.
Somente não irei.
Vou avisar que ficarei em casa.
Não preciso de desculpas para não ir.
Basta eu não ir.

Amanhã eu irei.
Amanhã é um bom dia.
Posso virar os dias lá com ela.
Amanhã eu irei e fim de papo.

Eu disse isso ontem, eu acho.
Não sei o motivo do botão de autodestruição.
Se o colete é de suicida.

Não. Apesar de estar quente como um forno
eu não irei hoje.

domingo, 28 de dezembro de 2014

Leia as placas.
Elas te dizem o motivo.
Elas te dizem o destino
e elas estão em toda a parte.

Sinta os sinais.
Eles te arrepiam a nuca.
Te deixam a boca seca
e eles são o menor dos seus problemas.

Ouça as advertências.
São elas que te mantém vivo.
Que te assombram
e elas são apenas o que te dizem.

E eles se dizem poderosos,
ditosos, famosos; fitam o horizonte.
Até parece que sabem.
Até parece que possuem.

Porém, são as raízes da intriga que ocultam a verdade
e não será no domingo de verão que ornaras
de santidade a sua vida mesquinha.

Há nada de sacro, feche o livro.
Há nada de puro, tape os ouvidos.
Há nada perfeito, cale-se.
Somos todos matéria e vão.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Distrai-se entre amigos
e olha a própria felicidade.

Ele que era um menino
desperdiçou sua mocidade.
Ele tão pequenino
ele a tua majestade.

Ele que era um menino
viveu na clandestinidade.

Distrai-se e canta aos amigos
odes de amor e saudade
e ele tão pequenino,
ele na imensidade.

Olha ele já se vai.
Ouça o que ele tem,
veja que ele sabe
e ele só quis o teu bem.

Veja e saiba também
que ele sempre te viu
saiba que lá bem além ele
já se perdoou e te perdoou,
meu bem.

O pote

O pote está vazio.
Um dia ele esteve cheio.
Mas, ainda dava para tampar.

Agora ele jaz vazio.
Ele que tem mais vida que a outra vida das cinzas.
Ele que teve tudo, hoje tem nada.
Apenas um pote largado no meio da mesa.

Disputa espaço com um computador e um talco.
Entre a cola e o corretivo.
Tão perto do isqueiro e tão longe do livro.
Lá está ele.
O pote vazio.
Aquele que você conhece.
Aquele que você ajudou a esvaziar.
Aquele que te faz sentir culpa.

Aquele maldito pote vazio.
Ele deveria estar cheio, deveria estar lotado.
Deveria ser usado, utilizado.
Deveria, deveria!

Vejo sua tampa sem rosca.
Memórias do: tivesse que ter sido.
Aqui tuas roupas,
tuas fotos e teu lixo.
Tudo esquecido como um pote vazio.

A sirene do corpo de bombeiros parece que toca (com a orquestra inteira) dentro da minha cabeça. Eles já passaram há tanto tempo, mas parece que o alarme ainda dispara em mim.


No hospital, em Niterói, 24 de dezembro de 2014.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Quem for de frear freia.

Quem for de mediar medeia;
arrear arreia;
remediar remedeia;
de incendiar incendeia
e quem for de odiar odeia.

Quem for de escuridão clareia;
preso na confusão da teia;
em pleno obstáculo mudo,
decifra o futuro inconcluso,
debaixo da lua cheia.

Quem for de esperar anseia
a vida que vem da veia.
Pássaro perdido no mundo em
Céu de verão absurdo.
Permite-se na sua cadeia.

E há quem creia
no boto e na sereia.
Há inspirados por tudo.
Viajantes, vagabundos e moribundos
procurando pela santa ceia.

Se for chantagear chantageia.
Se for pra recear receia.
Se for pra passear passeia.
Somos velhos-nascidos-vencidos,
gritos dos oprimidos,
aquele que em ti permeia.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Sobre a morte de um conhecido

Ele morreu. Ele poderia ter feito qualquer coisa da própria vida que não morrer (como se isso fosse verdade), mas ele morreu.
Estava além do alcance dele. Ele que nem me deu uma chance.
Ele que era tão belo quanto uma pintura.

Tão jovem, tão pálido, tão esquálido, tão mole e agora morto.

Vejo seu corpo perambulando por aí. Tão sem vida. Não tem olhos, são dois buracos negros mirando em minha direção.
Ele se arrasta por minhas memórias. Esforço-me para lembrar alguma ocasião específica.
Sinto saudades dele. Ele parecia ser especial. Profundo demais para a tenra idade.

Está morto.

domingo, 14 de dezembro de 2014

Uma poltrona vazia

Eu quero ser a pessoa que as pessoas querem que eu seja.
Aumento o volume do rádio.
Escondo minhas lágrimas, em verdade deixo a folha em branco vê-las.

Estamos todos sozinhos.
Eu não suporto a mim mesma.
Eu tenho um problema e admito.

O rock está tão alto que é ensurdecedor.
Nunca tive talento para cortar meus pulsos e
nem os de ninguém.
Mas, admito que estou quebrada.
Não é como se eu tivesse vindo com um defeito de fábrica.
Parece que em algum momento eu tive uma falha de funcionamento.

Nada planejado. Apenas um defeito.
Uma rachadura por causa de uma queda, talvez.
Nada muito visível. Mas, está lá.
Mantenha-se perto tempo o suficiente e ouvirá o LP pular.
Vai faltar um pixel na imagem.
A foto estará sem foco.
Algo vai soltar fumaça.

Serei eu; falhando.
É assim que funciono. Com a lâmina deteriorada de uma erro inevitável.
Pior que um disco arranhado.
Uma chave que não abre.
Um livro rabiscado.

Um navio que não parte e não afunda.
Atracada neste porto, nesta morte, há tantos anos que essas lágrimas parecem mais ridículas do que verdadeiramente são.
Do outro lado - você sugere.
Não há ninguém e nada para ninguém lá. Assim como, não há aqui.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

O dia que não fui para Paris

Não esses tiros não são para mim.
Protelo o óbvio.
Quando não pude embarcar para Paris amaldiçoei todos que embarcaram.
Eu sabia que não conseguiria chegar em tempo.
Nem lembro o motivo que me fez comprar a passagem. Quando o navio partiu para Paris
eu ainda me indignei como se em algum momento eu tivesse tido a gentileza de me dar alguma chance. Eu que andava tão perdida, tive um norte.

Mas, era óbvio que eu não embarcaria para Paris.
O passaporte em cima da mesa e a mala pronta no assoalho me determinavam um futuro deprimente:
A realidade.

Hoje eu desfaço a segunda mala da viagem que não fiz.
O dia que eu não fui para Paris.

Este dia foi complicado. Amanheci atrasada, revoltada e meio paquiderme.
Entediada fiz um café tímido e cobrei horários já na primeira hora.
Dei uns dois chiliques antes de confirmar que tinha dinheiro para o taxi, que o restaurante iria preparar um risoto para o meu almoço e que eu conseguiria estar no porto uma hora antes do embarque.

Eu passei a primeira parte do dia organizando agendas tudo para eu poder viajar com tranquilidade. Conferi a hora do vôo e fui esperar o almoço que demorou uma eternidade.
Nesse momento eu já tinha pago o aluguel, comprado uma lanterna, recebido uma encomenda, aceito participar de uma especialização, combinado uma reunião, brigado com uma amiga, ido ao banco e organizado um curso para fazer nas férias. Até então eu não tinha percebido como eu fazia coisas ao longo do dia. Só que eu decidi ir na farmácia. Achei que daria tempo. Fui na farmácia e preenchi a receita errado, disfarcei, mas consegui o medicamento. Voltei para casa, espero a enfermeira chegar para ficar com a minha mãe e quando vi já tinha passado do horário.
Não, ela não atrasou. Eu não marquei com ela. Eu esqueci de marcar com ela.

E foi assim o dia que eu não fui para Paris. Agora, de volta em casa. Desfaço em pedaços as listas dos pedidos dos amigos e ligo para a agência de viagens para cancelar a hospedagem e passagem de retorno no anseio de não ser cobrada.

Fumaça

Você tem medo de se queimar.
Mas, você já está queimado.

Existir significa perecer
e se você foi notado então você
iniciou o processo de auto combustão quase que imediata.
A qualquer momento, a qualquer momento.

Você já está queimado.
Mas, pode escolher se as cicatrizes serão
por ter feito algo
ou por ter feito nada.

Sinto o cheiro da tua fumaça.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Coisas que a pessoa conhece

A pessoa sabe que precisa se levantar.
Mas, mesmo assim esquece-se em uma poltrona da sala.

A pessoa sabe que tem que sair, mas perdoa-se mais uma refeição no quarto.
A pessoa tem consciência de sua situação, mas não consegue lutar contra a própria inércia.
Ela está afogada, submersa em nada e incrédula de si mantém-se estática.

A pessoa sabe que precisa se reinventar e nada melhor que começar com um banho.
Vejo ela despir-se e ligar o chuveiro.
Já é um bom começo para qualquer pessoa.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

O concurso de misses

Ela nunca esteve para perder. Agora, fazem meses e eu posso ver claramente.
Eu não quis sair de casa naquele domingo ensolarado para ir  votar.
Tinha muitas explicações e justificativas que convenceriam os mais incrédulos.
Entretanto, naquela altura, eu não sabia que o jogo já estava definido bem antes de anunciado o resultado.

Quando fui esnobada para concorrer ao concurso de miss determinei que não iria votar em ninguém.
Agora eu vejo como tudo aquilo foi arranjado. O concurso era um arranjo assim como a própria votação. Faziam nos crer que a decisão estava em nossas mãos, mas era mentira; um embuste; uma fraude.
Ela nunca teve concorrentes, apenas figurantes que serviram para distrair o júri e o eleitorado, de uma forma geral.
Claro que eles tinham condições de, por si mesmos, perceberem que ela não reunia todas as qualidades, mas tão igualmente as outras participantes do concurso. Eram todas medianas, para não dizer medíocres.
Ela, a vencedora, só fingiu de forma polida que estava fazendo parte daquela avaliação como objeto a ser questionado.

Ela venceu e eu perdedora ostento o fato de não ter ido votar naquele domingo como a atitude mais heróica que poderiam esperar de mim ou de alguém.
Assim, naquele outubro estranho e reprimido era eleita uma nova mesma miss.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

A velha do bosque

As vezes me sinto como uma velha louca que tem a barriga cheia de vermes.
Balanço no meu caminhar por entre os corredores estreitos do manicômio.
Convivo com outros insanos como eu. Afundo-me.

Quero ser a louca, o louco. Quero tudo deste papel um pouco.
Meio assim. Meio segundo. Meio abstrato.
Meio sem fim.

Assim, meio louca, com essa camisa azul, xadrez.
Mastigo amendoins vencidos.
Ouço os tiros que disparam lá fora.
Aqui dentro estou segura, aqui dentro me segura, aqui estou presa.
Sou prisioneira.

As vezes me sinto como uma velha louca que tem os dentes podres e a cabeça cheia de perseguições.
Abstenho-me de questionamentos. Apenas consigo sobreviver neste isolamento.

Escondo-me na cabana vez ou outra e distraio-me com os selvagens da minha paisagem.
Estou trancada neste ser.