domingo, 28 de setembro de 2014

A estranha do espelho

Não reconheço esta mulher.
Eu que me sinto tão menina.
Eu que ainda vejo brilho nos meus olhos.

Tenho o mesmo rosto arredondado dos meus onze anos.
Eu ouço os mesmos cantores.
Mas, quem é essa mulher que me olha (pergunta)

Com seus trinta e poucos ela é graduada e magoada.
Lembra como se ontem tivesse partido o coração de uma pessoa.
Carrega arrependimentos; vários.
Os cabelos brancos esperam por expansão.
A maquiagem não esconde as cicatrizes.
Quem é essa mulher estranha e louca que me olha de baixo para cima (pergunta)
Ela parece com minha mãe assim como eu.

Como posso ser covarde e deixar isso se perpetuar (pergunta)
Como posso ser tão fingida, tão cínica (pergunta)
Sinto-me tão só, mas sou causa de solidão.

Escolhi a dor; medo; espanto.
Essa que me encara sou eu.
Sou eu pintada de reflexo e não de reflexões.
Fujo da ótica do espelho com bobagens.
De um lado a fumaça sobe, em frente cordas sobre o longo tapete azulado tocam saudades.
Estou tranquila.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Ouvindo a rádio Roquette Pinto

Toca uma música.
Uma modinha que embala de forma agradável como uma pequena caminhada intercalada com pulos e saltinhos.

Rádio é algo magnífico. Alguém disse que iria acabar e quase que acaba por aqui. Ah! A audição, audição que é tão disputada pelos ruídos interiores e exteriores. Somos seres saudosistas do recente. Toca uma composição do João Donato que é linda.
São incríveis as sombras que as lanternas imprimem na parede.

Ouve sobre o trânsito na Praça da Bandeira e também em direção à Zona Norte. O fluxo de veículos é intenso na Radial Oeste, Méier e Lagoa Rodrigo de Freitas. Viera Souto com boas condições.

Apaga as lanternas.
Brevemente, abaixa o volume do rádio; deixe a rua vir para dentro.
Lá fora as crianças brincam de gritar.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Um dia qualquer na semana passada

Daqui a sete dias será a semana que vem e olharei para trás e pensarei nestes dias.
Com uma memória indecente tentarei recordar e saberei de pouco menos do que sei agora.
E na semana que vem eu estarei com os mesmos conflitos, a lacuna de minha alma estará tão aberta quanto agora. Nada será o suficiente para me apaziguar.
Assim, falarei do hoje que já é passado. Rirei de ter jantado a comida velha do refrigerador. Lembrarei com remorso o minuto que ficou para trás. Na memória a ansiedade vigora. Assim vou me esforçar por lembrar o que fazia nesta hora. Mas, provavelmente irei inventar.
Do lado de fora do quarto chamados indistintos, conversas de outras casas, janelas que escutam o rumor que vem das calhas.
Na rua aonde o alarme anuncia a chegada dos carros imaginarei, na calçada, o instante em que meus pés se acostumaram com as pedras portuguesas que tanto me faziam tropeçar.
A memória do dia de hoje será permeada de sons de motocicletas, porta batendo, louça sendo lavada. Um vento frio irá me fazer recordar de um dia qualquer na semana passada.

"Eu só vou gostar de quem gosta de mim"

"Ninguém mais confia em ninguém, sabe?
É cada um por si e sou mais acreditar na sagacidade de um barbante do que minha vida por um estranho."

Ah! Os barbantes, bárbaros, violentos e sagrados.
É difícil confiar. Portanto, eu dou atenção para quem me dá atenção.
Há amigos que, realmente, parecem que são pouco naturais. Como se houvesse uma sorte de benevolência de alguma ou ambas as partes em tolerar o outro. Pode haver, também, aquela sorte de ilusão em se imaginar que dizer para si mesmo as qualidades alheias fará o sol arder mais.

Independente do que diga é quase certo que não seja a pessoa mais indicada para revelar que existem afinidades que nos são impostas pelo o que o outro nos apresenta. Amigos, é pouco natural. Pouco natural é uma espécie de improvável; dificilmente; mais fácil um burro sair voando (já diria a minha vó - que nunca conheci).

Amizade é algo pouco natural. Sente que não está só.
Os amigos, eles piscam, picam e são falantes, ouvintes. São pornográficos, arranham, sorriem ordinários, extraordinários. Estão nos corredores, bares, festas, igrejas, consultórios e salões, em salas de reuniões, escritórios, em covas rasas, ruas, cartas, gavetas e cinzas memoriais. Estão para além da porta, nos hospitais e janelas de manicômios. Bêbados e travessos gritam, de suas celas, alto o próprio nome. São insones, sonolentos, sonâmbulos e despertos, silenciosamente, voltam a dormir.
Amigos só no telefone, interfone, internet, só os de infância e os de cartões de natal. Amigo de feriado, há tanto tempo, parece que sempre nos conhecemos e até parece que te vi ontem. Improvável, camarada, gêmeo e estranho de mim.
Esses são presentes, impertinentes que só querem um minuto diferente e rendem-se a redenção. Libertos, rebentos são os seus questionáveis sorrisos e surpreendentes lágrimas que aguçam alguma expectativa na humanidade em fim.

sábado, 13 de setembro de 2014

Sobre decisões

A decisão mais difícil: contraria nossos interesses;
é a que precisa ser tomada;
urge;
afronta.

A decisão mais difícil: é única e solitária;
não deixa espaços para falhas ou arrependimentos;
alimenta-se da incerteza e da esperança.

A decisão mais difícil torna-se cada vez mais crítica enquanto o ponteiro dos segundos gira no relógio.
É até possível ouvir o tic-tac mesmo quando o guardião do tempo está ausente.

A decisão mais difícil é realizada todos os dias por indivíduos ordinários e extraordinários e, sempre que possível, superada quase que instantaneamente por outra decisão muito mais complexa e perigosa.

Pois, a decisão mais difícil é aquela que depende de cada um de nós.

sábado, 6 de setembro de 2014

A visita que não fiz

Essas explicações me fogem.
São meigas, mas são nulas.

Esse olhar me adapta.
Desvairado simula.

Para os dias tão longínquos
Adesivo o calendário.
Marco o teu regresso
e refresco as sensações com
lembranças do teu gosto.
Aquele que não provei.

Aguardo a ligação do número que não te dei.
Mergulho na branquidão do seu sorriso, este que ria
igual para todos.

Assumo, bato nas portas, procuro-te; procuro-me.
Enganadas as mostardas
passam pela muralha embaçada.
Ah! Esta vontade de te ver mesmo que entre multidões.

Ouço tua voz, neste remorso de não ter ido
te seguir, naquele momento em que eu te sabia pousar
nestes cais abandonado do rio, do meu Rio.