quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Digrito

A banalização é tudo o que temos e talvez de troco a tal da mediocridade. Vive-se em um tempo de egoísmos e o trunfo maior é nossa própria frivolidade. Nesses tempos tão claros, tempos iluminados que quase agridem a vista, reside o temor, aquele que converte os convictos em frágeis: nosso supremo mal natural; a necessidade de nos depreciarmos.
Mas, não somos humildes e nem escancaramos auto piedade. No passado como agora a nossa figura ostenta a distração, apologia ao inútil, desinteresse e superficialidade.
São muitas palavras – eles dizem.

Sim, mas talvez seja apenas a banalização de tudo e até deste momento em que as letras tomam formas de palavras nesta tela em que digrito.

(Inspirado por leitura de Mario Vargas Llosa)

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Não. Eu não irei hoje.
Já fugi boa parte das semanas.
Escondo-me neste calor.

Não. Eu não tenho desculpas.
Somente não irei.
Vou avisar que ficarei em casa.
Não preciso de desculpas para não ir.
Basta eu não ir.

Amanhã eu irei.
Amanhã é um bom dia.
Posso virar os dias lá com ela.
Amanhã eu irei e fim de papo.

Eu disse isso ontem, eu acho.
Não sei o motivo do botão de autodestruição.
Se o colete é de suicida.

Não. Apesar de estar quente como um forno
eu não irei hoje.

domingo, 28 de dezembro de 2014

Leia as placas.
Elas te dizem o motivo.
Elas te dizem o destino
e elas estão em toda a parte.

Sinta os sinais.
Eles te arrepiam a nuca.
Te deixam a boca seca
e eles são o menor dos seus problemas.

Ouça as advertências.
São elas que te mantém vivo.
Que te assombram
e elas são apenas o que te dizem.

E eles se dizem poderosos,
ditosos, famosos; fitam o horizonte.
Até parece que sabem.
Até parece que possuem.

Porém, são as raízes da intriga que ocultam a verdade
e não será no domingo de verão que ornaras
de santidade a sua vida mesquinha.

Há nada de sacro, feche o livro.
Há nada de puro, tape os ouvidos.
Há nada perfeito, cale-se.
Somos todos matéria e vão.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Distrai-se entre amigos
e olha a própria felicidade.

Ele que era um menino
desperdiçou sua mocidade.
Ele tão pequenino
ele a tua majestade.

Ele que era um menino
viveu na clandestinidade.

Distrai-se e canta aos amigos
odes de amor e saudade
e ele tão pequenino,
ele na imensidade.

Olha ele já se vai.
Ouça o que ele tem,
veja que ele sabe
e ele só quis o teu bem.

Veja e saiba também
que ele sempre te viu
saiba que lá bem além ele
já se perdoou e te perdoou,
meu bem.

O pote

O pote está vazio.
Um dia ele esteve cheio.
Mas, ainda dava para tampar.

Agora ele jaz vazio.
Ele que tem mais vida que a outra vida das cinzas.
Ele que teve tudo, hoje tem nada.
Apenas um pote largado no meio da mesa.

Disputa espaço com um computador e um talco.
Entre a cola e o corretivo.
Tão perto do isqueiro e tão longe do livro.
Lá está ele.
O pote vazio.
Aquele que você conhece.
Aquele que você ajudou a esvaziar.
Aquele que te faz sentir culpa.

Aquele maldito pote vazio.
Ele deveria estar cheio, deveria estar lotado.
Deveria ser usado, utilizado.
Deveria, deveria!

Vejo sua tampa sem rosca.
Memórias do: tivesse que ter sido.
Aqui tuas roupas,
tuas fotos e teu lixo.
Tudo esquecido como um pote vazio.

A sirene do corpo de bombeiros parece que toca (com a orquestra inteira) dentro da minha cabeça. Eles já passaram há tanto tempo, mas parece que o alarme ainda dispara em mim.


No hospital, em Niterói, 24 de dezembro de 2014.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Quem for de frear freia.

Quem for de mediar medeia;
arrear arreia;
remediar remedeia;
de incendiar incendeia
e quem for de odiar odeia.

Quem for de escuridão clareia;
preso na confusão da teia;
em pleno obstáculo mudo,
decifra o futuro inconcluso,
debaixo da lua cheia.

Quem for de esperar anseia
a vida que vem da veia.
Pássaro perdido no mundo em
Céu de verão absurdo.
Permite-se na sua cadeia.

E há quem creia
no boto e na sereia.
Há inspirados por tudo.
Viajantes, vagabundos e moribundos
procurando pela santa ceia.

Se for chantagear chantageia.
Se for pra recear receia.
Se for pra passear passeia.
Somos velhos-nascidos-vencidos,
gritos dos oprimidos,
aquele que em ti permeia.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Sobre a morte de um conhecido

Ele morreu. Ele poderia ter feito qualquer coisa da própria vida que não morrer (como se isso fosse verdade), mas ele morreu.
Estava além do alcance dele. Ele que nem me deu uma chance.
Ele que era tão belo quanto uma pintura.

Tão jovem, tão pálido, tão esquálido, tão mole e agora morto.

Vejo seu corpo perambulando por aí. Tão sem vida. Não tem olhos, são dois buracos negros mirando em minha direção.
Ele se arrasta por minhas memórias. Esforço-me para lembrar alguma ocasião específica.
Sinto saudades dele. Ele parecia ser especial. Profundo demais para a tenra idade.

Está morto.

domingo, 14 de dezembro de 2014

Uma poltrona vazia

Eu quero ser a pessoa que as pessoas querem que eu seja.
Aumento o volume do rádio.
Escondo minhas lágrimas, em verdade deixo a folha em branco vê-las.

Estamos todos sozinhos.
Eu não suporto a mim mesma.
Eu tenho um problema e admito.

O rock está tão alto que é ensurdecedor.
Nunca tive talento para cortar meus pulsos e
nem os de ninguém.
Mas, admito que estou quebrada.
Não é como se eu tivesse vindo com um defeito de fábrica.
Parece que em algum momento eu tive uma falha de funcionamento.

Nada planejado. Apenas um defeito.
Uma rachadura por causa de uma queda, talvez.
Nada muito visível. Mas, está lá.
Mantenha-se perto tempo o suficiente e ouvirá o LP pular.
Vai faltar um pixel na imagem.
A foto estará sem foco.
Algo vai soltar fumaça.

Serei eu; falhando.
É assim que funciono. Com a lâmina deteriorada de uma erro inevitável.
Pior que um disco arranhado.
Uma chave que não abre.
Um livro rabiscado.

Um navio que não parte e não afunda.
Atracada neste porto, nesta morte, há tantos anos que essas lágrimas parecem mais ridículas do que verdadeiramente são.
Do outro lado - você sugere.
Não há ninguém e nada para ninguém lá. Assim como, não há aqui.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

O dia que não fui para Paris

Não esses tiros não são para mim.
Protelo o óbvio.
Quando não pude embarcar para Paris amaldiçoei todos que embarcaram.
Eu sabia que não conseguiria chegar em tempo.
Nem lembro o motivo que me fez comprar a passagem. Quando o navio partiu para Paris
eu ainda me indignei como se em algum momento eu tivesse tido a gentileza de me dar alguma chance. Eu que andava tão perdida, tive um norte.

Mas, era óbvio que eu não embarcaria para Paris.
O passaporte em cima da mesa e a mala pronta no assoalho me determinavam um futuro deprimente:
A realidade.

Hoje eu desfaço a segunda mala da viagem que não fiz.
O dia que eu não fui para Paris.

Este dia foi complicado. Amanheci atrasada, revoltada e meio paquiderme.
Entediada fiz um café tímido e cobrei horários já na primeira hora.
Dei uns dois chiliques antes de confirmar que tinha dinheiro para o taxi, que o restaurante iria preparar um risoto para o meu almoço e que eu conseguiria estar no porto uma hora antes do embarque.

Eu passei a primeira parte do dia organizando agendas tudo para eu poder viajar com tranquilidade. Conferi a hora do vôo e fui esperar o almoço que demorou uma eternidade.
Nesse momento eu já tinha pago o aluguel, comprado uma lanterna, recebido uma encomenda, aceito participar de uma especialização, combinado uma reunião, brigado com uma amiga, ido ao banco e organizado um curso para fazer nas férias. Até então eu não tinha percebido como eu fazia coisas ao longo do dia. Só que eu decidi ir na farmácia. Achei que daria tempo. Fui na farmácia e preenchi a receita errado, disfarcei, mas consegui o medicamento. Voltei para casa, espero a enfermeira chegar para ficar com a minha mãe e quando vi já tinha passado do horário.
Não, ela não atrasou. Eu não marquei com ela. Eu esqueci de marcar com ela.

E foi assim o dia que eu não fui para Paris. Agora, de volta em casa. Desfaço em pedaços as listas dos pedidos dos amigos e ligo para a agência de viagens para cancelar a hospedagem e passagem de retorno no anseio de não ser cobrada.

Fumaça

Você tem medo de se queimar.
Mas, você já está queimado.

Existir significa perecer
e se você foi notado então você
iniciou o processo de auto combustão quase que imediata.
A qualquer momento, a qualquer momento.

Você já está queimado.
Mas, pode escolher se as cicatrizes serão
por ter feito algo
ou por ter feito nada.

Sinto o cheiro da tua fumaça.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Coisas que a pessoa conhece

A pessoa sabe que precisa se levantar.
Mas, mesmo assim esquece-se em uma poltrona da sala.

A pessoa sabe que tem que sair, mas perdoa-se mais uma refeição no quarto.
A pessoa tem consciência de sua situação, mas não consegue lutar contra a própria inércia.
Ela está afogada, submersa em nada e incrédula de si mantém-se estática.

A pessoa sabe que precisa se reinventar e nada melhor que começar com um banho.
Vejo ela despir-se e ligar o chuveiro.
Já é um bom começo para qualquer pessoa.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

O concurso de misses

Ela nunca esteve para perder. Agora, fazem meses e eu posso ver claramente.
Eu não quis sair de casa naquele domingo ensolarado para ir  votar.
Tinha muitas explicações e justificativas que convenceriam os mais incrédulos.
Entretanto, naquela altura, eu não sabia que o jogo já estava definido bem antes de anunciado o resultado.

Quando fui esnobada para concorrer ao concurso de miss determinei que não iria votar em ninguém.
Agora eu vejo como tudo aquilo foi arranjado. O concurso era um arranjo assim como a própria votação. Faziam nos crer que a decisão estava em nossas mãos, mas era mentira; um embuste; uma fraude.
Ela nunca teve concorrentes, apenas figurantes que serviram para distrair o júri e o eleitorado, de uma forma geral.
Claro que eles tinham condições de, por si mesmos, perceberem que ela não reunia todas as qualidades, mas tão igualmente as outras participantes do concurso. Eram todas medianas, para não dizer medíocres.
Ela, a vencedora, só fingiu de forma polida que estava fazendo parte daquela avaliação como objeto a ser questionado.

Ela venceu e eu perdedora ostento o fato de não ter ido votar naquele domingo como a atitude mais heróica que poderiam esperar de mim ou de alguém.
Assim, naquele outubro estranho e reprimido era eleita uma nova mesma miss.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

A velha do bosque

As vezes me sinto como uma velha louca que tem a barriga cheia de vermes.
Balanço no meu caminhar por entre os corredores estreitos do manicômio.
Convivo com outros insanos como eu. Afundo-me.

Quero ser a louca, o louco. Quero tudo deste papel um pouco.
Meio assim. Meio segundo. Meio abstrato.
Meio sem fim.

Assim, meio louca, com essa camisa azul, xadrez.
Mastigo amendoins vencidos.
Ouço os tiros que disparam lá fora.
Aqui dentro estou segura, aqui dentro me segura, aqui estou presa.
Sou prisioneira.

As vezes me sinto como uma velha louca que tem os dentes podres e a cabeça cheia de perseguições.
Abstenho-me de questionamentos. Apenas consigo sobreviver neste isolamento.

Escondo-me na cabana vez ou outra e distraio-me com os selvagens da minha paisagem.
Estou trancada neste ser.

sábado, 29 de novembro de 2014

Eu nem acredito que tenho casa. Que tenho mãe. Que tenho uma irmã que tem um bebê. Eu nem acredito que estou, aqui, fumando e olhando pela janela enquanto no mês passado minha mãe quase morreu.
Eu nem acredito que semana passada eu era importante. Eu que nem sei direito o que vivi nesta semana.

Não me reconheço em minhas memórias.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Olhos na rua poeirenta

Eu estava diante de uma tela branca
e depois diante da pele branca.
Tão sensíveis os dois.
Tão excêntricos os dois.

A essência de tudo aquilo
era aquilo que se buscava.
A felicidade do próximo minuto.
Como se o atual momento não bastasse.

A espera aflita e ansiosa de algo que ainda está por vir.
Como se o imediato não fosse necessário.
Assim aqueles pelos claros e olhos claros sintetizaram o óbvio.
Ainda não havia encontrado o que precisava.

Mas, dificilmente conseguiria encontrar
pois, não dispunha da capacidade de reconhece-lo.
Eram cinco espaços distinto e aqueles olhos.
Bonitos olhos brilhavam em minha direção.

Tão frio e tão distante de mim.
Nunca realmente senti alguém tão longe.
Nem os antigos, os falecidos
ou os que deixaram de ser amigos.

Ele se foi entre três beijos de despedida.
Ela ficou sem um adeus na rua.
Ele permitiu um abraço e depois saiu divagando
e eu fiquei aonde sempre estive.

Na poeira que cai das calhas da chuva.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Identificações no coletivo

Eu não sabia que existia um nome para aquilo que eu sentia.
Que era doença tudo aquilo que eu via.
Todas as situações que apareciam
eram sintomas daquilo que existia
e eu doente de mim descobri a origem da agonia.
A explicação era bem simples para tudo, tudo aquilo que existia.
Era uma doença o que eu tinha. Síndrome de inibição da euforia.

Embaixo da pele uma ardência.
Uma queimadura que quando refrescada arde.

A música na rádio mudou. Parece um cantor que não lembro o nome.
Casas, cadeiras, memórias e complementos. São tantos espinhos, sente (pergunta)

Outra música.
Embaixo da pele um formigamento.
Sinta-se em casa, sente-se por aí.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Texto antigo

Não sei se sou eu que me obceco por ele
ou se é ele que se obceca por mim.
Só sei que obsessivos,
obcecados, abjetos,
obsessores obedecemos
aos nossos hospedeiros.

É tão estranho, é muito estranho, nada é real.
Tudo é diferente.
Não convencional,
luminoso e
tridimensional no campo.
Desconcentro-me,
parece que faz muito tempo,
mas só tem 30 minutos que me avisaram da morte de meu pai.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

I

Algumas pessoas se comunicam aos gritos. Não dá para identificar do que falam.
Pessoas gritam, como gritam. Não conseguem se comunicar se não for entre gritos, é incrível.

II

As pessoas comunicam-se com tapas, palmas e acenos. Ouço-as, identifico-me com elas.

III

Fugi para cá de novo. Alguém grita, alguém sempre grita e entre gritos se comunicam. Silencia; só esse pica-pau insiste, só este bem-te-vi e esses tantos outros pássaros. É tarde de segunda-feira. La embaixo passa um ônibus.



domingo, 26 de outubro de 2014

I

Fuma um cigarro apagado.
Como latem esses cães,
como latem esses alarmes, de relógio, de cabeceira.

Cantarole.
Foi o resto de um e outro inteiro; quase.

Sente a vontade de deitar.

Há um cão onde antes tinha havido uma mulher e ele passa. Os galhos sacodem os pensamentos. Ah! Esse carro  que passa com música alta.

Esse cigarro que sempre apaga e essa pessoa que não para de varrer.
Com a ponta da brasa acende este gosto e é o fim da perna do X e é o cabo de guerra que está se rompendo; apagou.

II

Ouço-me,
Escrevo-me,
Levanto-me
e vou.

Tão assim.
Sem pensar
Sombras,
palavras deste relevo
e esse vento te ilumina.

Erga-te; não.
As vezes sente-se envergonhado por causa de todo o resto.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

I

Você pode ir para casa e descansar um pouco lá. Espere para ver se ele vem. Se ele vier venha para casa se não vier fique lá.
Gosto de minha caligrafia.
Eu fico encantada com a minha letra,
é como se fosse incrível. Mas, não é.

Mas, faça o que fizer, saia logo.

II

Eu consegui sair.
Fui embora, tranquilamente,
no ônibus.
Desci perto de casa.

III

Descanso de toda a agitação.
Mas, nada na mente especificadamente.
Troco a foto do porta-retrato.
Estou sóbria.

IV

Acho que eu tenho Down.
Síndrome de Down.
Parece que venho pensando a respeito disso há algum tempo.
Eu que todos os dias tenho aula de:
loucura, obsessão e insanidade.
Falta-me um curso de especialidade.

Meus olhos seriam os mesmos olhos se eu tivesse Down.
Uma vez soube de um homem que pediu para que lhe retirassem as pernas.
Assim ele seria especial.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Esquecimentos

Eu posso esquecer e ser esquecida.
Tem gente que lembra.
Gente que não esquece.
Gente que sabe ou que inventa e também
há gente que aumenta.

Gente desmemoriada.
Gente que conhece e já esquece.
Gente que nunca conheceu.
Que nunca conheci, mas conheço.
Que nunca vi, mas sei.
Que nunca estive perto e as que não quero nem chegar perto.

Tem até aquelas que me afasto.
Há as que eu esqueço e que jamais me lembrarei.
E há os inesquecíveis.
Memórias inquietas que sacodem-se e desprendem-se como frutos maduros.

Há as histórias e os pontos de vista.
Há as cegueiras da memória e da vida.
Há a vida.
Esqueceu (pergunta)

Há a memória e a invenção. Lembrou!
Não lembra. Esqueça e então não aconteceu.
Vive e segue, pois a memória é uma senhora irritadiça que as vezes nos prega peças só para se divertir e nos contrariar.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Sons de lá de fora.

Um fala alto lá de cima e o outro responde aqui de perto.
- A temperatura caiu tão rápido.
Venta e eles estão lá fora. Tento identificar as vozes deles. Só que hoje estão mais silenciosos que o convencional.
- Eu amo estar aqui.
- Eu, realmente, amo estar aqui.
Amanhã é o dia. As meninas levarão os móveis, outras tantas erguerão paredes e haverá aquelas que olharão pelas janelas e cruzarão as portas.
Sempre que um cachorro late alguém se desconcentra. Há tantos barulhos ao redor: assobios e carros.
Quando anoitece e esfria todos os sons e cores são outros.
Alguém grita lá embaixo. Tudo é tão longínquo que distraída desenho partes de mim.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Odeio hospital

Eu odeio hospital. Fácil de compreender. Mas, eu também fico cheia de ódio quando sou obrigada a estar dentro dele e com muita raiva e ira quando tenho que lidar com algumas pessoas que trabalham nele. Confesso que me policio e respiro fundo.
Tudo ali representa: dor, tortura, satisfação com a dor alheia e morte (putrefata, nefasta, estúpida e severa). Uma vez alguém disse que não existe dignidade na morte. Certíssimo. Entretanto, a doença é tão ordinária quanto, só que de categoria distinta.
Falam como a doença tem odores, formas e como é possível diagnosticar pela aparência débil de um convalescente. Podem dizer para o amputado de forma gentil que a lâmina apenas começou a brandir. Há as várias experiências; doentes como cobaias.
Lá parece que eles adiam o inevitável, mas a custo de quê (pergunta)

O hospital.
Toda aquela entrada com rampa acessível, todas aquelas escadas e portas largas. A recepção como é fria e aquelas cadeiras como são desconfortáveis e cruéis. As vezes há espelhos e quem disse que espelhos são bons em hospitais (pergunta) O espelho obriga o familiar ou o doente a se olhar e enfrentar a ruína.
Ah! Mas, há os que melhoram. Eles dizem. Melhoram rapidamente para sair de lá. A comida, no geral, é horrível. Mas, a limpeza na maioria dos casos convence. As pessoas estão estressadas, pois lidam com a escória (como eu) frágil e quer coisa mais medíocre do que um medíocre que depende dos outros (pergunta)
"Eu estive doente e não patinei na sarjeta!" - você grita para mim.
- "Minta para si mesmo, patife decrépito". Eu te digo embebida em orgulho e éter.
Essa fragilidade é tão humana, é tão viva, tão presente nos que estão vivos e até nos que não estão. Vide os vírus nem seres vivos são e, portanto, quando combatidos não morrem apenas deixam de continuar com sua saga sanguinária ou elucidativa. Seria uma luta pela sobrevivência se estivessem vivos. Mas, e nós, estamos vivos (pergunta)
Nascemos condenados a dor, suplício e morte. Nascemos nascituros, natimortos. Nascemos e morremos. Fomos abortados na criação!
Ah! Sim, eu odeio hospital e odeio as sirenes das ambulâncias e as placas de silêncio. As enfermarias e os quartos todos odiosos e dominados por gemidos de desespero e solidão. Quer coisa mais egoísta do que a dor (pergunta) Odeio os murais e os uniformes. Os médicos que passam são tão pálidos e soberbos.
Seria tão mais humano se demolissem tudo. Afinal, a destruição está na nossa orquestrada genética. Matem-nos o quanto antes! Não nos deixem apodrecer na maca, tirem este soro venenoso de nossas veias. Eutanásia para o sofrimento e o perigo. Precisamos de oxigênio. Falta-me ar. Falta-me ar.
Desliguem os aparelhos deste aborrecimento!
Fechem as janelas, há germes em todas as partes. Peça ajuda para o cadeirante e dê de beber ao moribundo. Estamos todos falidos, vencidos, cansados e doentes.
Estamos todos internados em nossas próprias amarrações e as cirurgias avançam na barbárie escandalosa. Quanta dor e quanto sangue são derramados em nome da cura e onde ela está (pergunta) Ela existe (pergunta).
Esgotados esgueiram-se pelo corredor em busca de uma radiografia de toda essa angústia, mas é tarde e na capela familiares discutem o que farão com a hipoteca, os móveis e a pornografia.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Confusões da ignorância

Uma tuba. Sim, é uma tuba. Posso ouvi-la solitária e histérico-escandalosamente gritar. Nem o vento ou a chuva são obstáculos a altura. É tão doce e maravilhosa. Não é uma tuba.
Um rapaz, um trombone. Há como você é belo e meigo. Fique!
Quero ouvi-lo. Enfrente os barulhos, ruídos e sirenes.
Este telefone que toca não é para você. Ele te inveja, meu querido, meu amor.
Esses apitos, esses apitos jamais serão você.
É um trombone
e é uma tuba e é a orquestra inteira
e é o internato e é a menina da igreja
e é a moça do rádio e é formosa
e é forma e é rasa
                                -------------------------------------------------- ;                        
(( Ô ))      se foi.

Casa da montanha

I

As lanternas na mesa estão acesas.
Sente o cheiro de maçã verde que vem das velas.
O vento bate nos cabelos.
Há fios cor de estanho e uma linha corta um pouco abaixo do queixo.
Tudo tão tênue e pouco e igual.

II

A casa da montanha é como se fosse um disfarce, aqui eu sou o segredo. Hoje julgaram-me culpada ali na esquina. Amanhã arderei nas fogueiras das redes sociais. Mas, é para lá que fujo e você, foge (pergunta)
É tão alto que só posso desejar o sol beijado de nuvens derreter o céu em mar.
Aqui o tempo passa no pio do bem-te-vi.

domingo, 28 de setembro de 2014

A estranha do espelho

Não reconheço esta mulher.
Eu que me sinto tão menina.
Eu que ainda vejo brilho nos meus olhos.

Tenho o mesmo rosto arredondado dos meus onze anos.
Eu ouço os mesmos cantores.
Mas, quem é essa mulher que me olha (pergunta)

Com seus trinta e poucos ela é graduada e magoada.
Lembra como se ontem tivesse partido o coração de uma pessoa.
Carrega arrependimentos; vários.
Os cabelos brancos esperam por expansão.
A maquiagem não esconde as cicatrizes.
Quem é essa mulher estranha e louca que me olha de baixo para cima (pergunta)
Ela parece com minha mãe assim como eu.

Como posso ser covarde e deixar isso se perpetuar (pergunta)
Como posso ser tão fingida, tão cínica (pergunta)
Sinto-me tão só, mas sou causa de solidão.

Escolhi a dor; medo; espanto.
Essa que me encara sou eu.
Sou eu pintada de reflexo e não de reflexões.
Fujo da ótica do espelho com bobagens.
De um lado a fumaça sobe, em frente cordas sobre o longo tapete azulado tocam saudades.
Estou tranquila.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Ouvindo a rádio Roquette Pinto

Toca uma música.
Uma modinha que embala de forma agradável como uma pequena caminhada intercalada com pulos e saltinhos.

Rádio é algo magnífico. Alguém disse que iria acabar e quase que acaba por aqui. Ah! A audição, audição que é tão disputada pelos ruídos interiores e exteriores. Somos seres saudosistas do recente. Toca uma composição do João Donato que é linda.
São incríveis as sombras que as lanternas imprimem na parede.

Ouve sobre o trânsito na Praça da Bandeira e também em direção à Zona Norte. O fluxo de veículos é intenso na Radial Oeste, Méier e Lagoa Rodrigo de Freitas. Viera Souto com boas condições.

Apaga as lanternas.
Brevemente, abaixa o volume do rádio; deixe a rua vir para dentro.
Lá fora as crianças brincam de gritar.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Um dia qualquer na semana passada

Daqui a sete dias será a semana que vem e olharei para trás e pensarei nestes dias.
Com uma memória indecente tentarei recordar e saberei de pouco menos do que sei agora.
E na semana que vem eu estarei com os mesmos conflitos, a lacuna de minha alma estará tão aberta quanto agora. Nada será o suficiente para me apaziguar.
Assim, falarei do hoje que já é passado. Rirei de ter jantado a comida velha do refrigerador. Lembrarei com remorso o minuto que ficou para trás. Na memória a ansiedade vigora. Assim vou me esforçar por lembrar o que fazia nesta hora. Mas, provavelmente irei inventar.
Do lado de fora do quarto chamados indistintos, conversas de outras casas, janelas que escutam o rumor que vem das calhas.
Na rua aonde o alarme anuncia a chegada dos carros imaginarei, na calçada, o instante em que meus pés se acostumaram com as pedras portuguesas que tanto me faziam tropeçar.
A memória do dia de hoje será permeada de sons de motocicletas, porta batendo, louça sendo lavada. Um vento frio irá me fazer recordar de um dia qualquer na semana passada.

"Eu só vou gostar de quem gosta de mim"

"Ninguém mais confia em ninguém, sabe?
É cada um por si e sou mais acreditar na sagacidade de um barbante do que minha vida por um estranho."

Ah! Os barbantes, bárbaros, violentos e sagrados.
É difícil confiar. Portanto, eu dou atenção para quem me dá atenção.
Há amigos que, realmente, parecem que são pouco naturais. Como se houvesse uma sorte de benevolência de alguma ou ambas as partes em tolerar o outro. Pode haver, também, aquela sorte de ilusão em se imaginar que dizer para si mesmo as qualidades alheias fará o sol arder mais.

Independente do que diga é quase certo que não seja a pessoa mais indicada para revelar que existem afinidades que nos são impostas pelo o que o outro nos apresenta. Amigos, é pouco natural. Pouco natural é uma espécie de improvável; dificilmente; mais fácil um burro sair voando (já diria a minha vó - que nunca conheci).

Amizade é algo pouco natural. Sente que não está só.
Os amigos, eles piscam, picam e são falantes, ouvintes. São pornográficos, arranham, sorriem ordinários, extraordinários. Estão nos corredores, bares, festas, igrejas, consultórios e salões, em salas de reuniões, escritórios, em covas rasas, ruas, cartas, gavetas e cinzas memoriais. Estão para além da porta, nos hospitais e janelas de manicômios. Bêbados e travessos gritam, de suas celas, alto o próprio nome. São insones, sonolentos, sonâmbulos e despertos, silenciosamente, voltam a dormir.
Amigos só no telefone, interfone, internet, só os de infância e os de cartões de natal. Amigo de feriado, há tanto tempo, parece que sempre nos conhecemos e até parece que te vi ontem. Improvável, camarada, gêmeo e estranho de mim.
Esses são presentes, impertinentes que só querem um minuto diferente e rendem-se a redenção. Libertos, rebentos são os seus questionáveis sorrisos e surpreendentes lágrimas que aguçam alguma expectativa na humanidade em fim.

sábado, 13 de setembro de 2014

Sobre decisões

A decisão mais difícil: contraria nossos interesses;
é a que precisa ser tomada;
urge;
afronta.

A decisão mais difícil: é única e solitária;
não deixa espaços para falhas ou arrependimentos;
alimenta-se da incerteza e da esperança.

A decisão mais difícil torna-se cada vez mais crítica enquanto o ponteiro dos segundos gira no relógio.
É até possível ouvir o tic-tac mesmo quando o guardião do tempo está ausente.

A decisão mais difícil é realizada todos os dias por indivíduos ordinários e extraordinários e, sempre que possível, superada quase que instantaneamente por outra decisão muito mais complexa e perigosa.

Pois, a decisão mais difícil é aquela que depende de cada um de nós.

sábado, 6 de setembro de 2014

A visita que não fiz

Essas explicações me fogem.
São meigas, mas são nulas.

Esse olhar me adapta.
Desvairado simula.

Para os dias tão longínquos
Adesivo o calendário.
Marco o teu regresso
e refresco as sensações com
lembranças do teu gosto.
Aquele que não provei.

Aguardo a ligação do número que não te dei.
Mergulho na branquidão do seu sorriso, este que ria
igual para todos.

Assumo, bato nas portas, procuro-te; procuro-me.
Enganadas as mostardas
passam pela muralha embaçada.
Ah! Esta vontade de te ver mesmo que entre multidões.

Ouço tua voz, neste remorso de não ter ido
te seguir, naquele momento em que eu te sabia pousar
nestes cais abandonado do rio, do meu Rio.