quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Não, não terei primos em tempo do natal

Não, eu não tenho primos.
Meu pai foi adotado
minha mãe permaneceu em um lar
temporário até a maioridade.

Não, eu não tenho tios (não consanguíneos),
pois minha mãe catou irmãs em outras casas.
Não eu não tenho avós
e meu pai, há algum tempo, já faleceu.

Não, não haverá uma árvore cheia de cartões
e nem memórias neste natal.
Ele será tão igual a todos os outros.
Sentarei na espuma macia e observarei
pela janela as concentrações da vizinhança.
(Talvez eu vá ao cinema,
é um excelente programa para o natal.)

Não, eu não tenho primos.
Não aprendi sobre amizade com laços familiares colaterais.
Aprendi com um menino
na infância
que me encontrou escondida atrás de óculos
e folhas de cadernos rasurados.
Aprendi sobre amizade com minha irmã,
quando aos 14 anos eu sentei com ela
e revelei toda a minha verdade;
nossa verdade dividida e dividida.
Aprendi sobre amizade com um professor
e que era tudo com o que eu queria parecer quando crescesse.
Aprendi sobre amizade com minha mãe,
quando ela optou por trabalhar o ano inteiro para que
eu e minha irmã tivéssemos uma boneca de pano.

Não, eu não aprendi sobre amizade nas ruas
e nem nas páginas das revistas infanto-juvenis.
Aliás, na minha juventude só aprendi sobre o que não é amizade.

Não, eu não sou arredia.
Não, não me julgue,
não me julgue, ainda.

Venho de uma família que aprendeu a amar poucos,
aos poucos.
Não é que o amor seja raro
mas, é que ele é caro e dispendioso demais.

Amar para mim é pesar todas as possibilidades ou quase todas,
é avaliar o risco,
é saber que o segundo seguinte não existe.
Esse sagrado saber do fim inevitável.
Portanto, não se espante se eu estiver, porventura, carente de abraços
ou se eu, simplesmente, tiver dificuldades em confiar.
Não é por que eu não tive primos.

Não.

Não, eu não depositarei em ti minhas expectativas
e nem tecerei para você uma redoma.
Sou cria do chão repleto de cacos,
despedaçada que sou em tantas gotas, não te ornarei de oceanos.
Se tu vieres a ser amor em meus dias preenchidos,
então será apenas isto; o isto que importa.
E, sim, tu terás de lidar com alguém que não sabe celebrar natais
e que dorme com um estilete debaixo do travesseiro.
Mas, se superar este fato,
perceberá que sou Amor, amável e amiga.
Apenas mais um isto.

Sendo assim, quando chegar o natal,
se quiser poderá se sentar comigo na espuma fatal
e observar a vizinhança
ou quem sabe poderemos cear
e assar nossos próprios sonhos
como quem circula desejos nos classificados dos jornais.

Não, eu não tenho primos
e minha irmã mora tão distante que dói.
Não, eu não tenho avós e nem tios.
Moro aqui entre o paraíso idealizado e o afiado dia;
quedo nos intervalos para os tempos imemoriais.

Não, eu não tenho primos.
Lamento informar que também não os terei para as festividades
e nem para meu aniversário que, forçosamente, compareço.
Não, eu não tenho primos.

domingo, 6 de outubro de 2013

Luz acesa ou apagada; eu estou desabilitada a dormir em paz

Faz tempo que eu não quero pensar nisso.
Falar nisso só me traz mágoa.
As vezes eu ouço palavras de amor e elas, simplesmente, me ferem.
Já não confio. Só desconfio. Lamento.
Luz acesa ou apagada; eu estou desabilitada a dormir em paz.
A escuridão e a claridade me apavoram do mesmo jeito.

Tudo poderia se resumir a uma chance de satisfação, mas inexiste.
Tudo é trabalhado ao contrário.
Olho as fotos e nas fotos pareço tão triste e percebo que isso só se agrava.
Regojizo-me no imprevisto, você chamaria de infortúnio e procuraria culpados.
Eu apenas desconheço aquilo que chamam bondade.
Nos asfaltos em que afundei meus pés há apenas perversidade.

Solitária eu olho para a partitura que a dor me ensinou a tocar,
vejo a cama onde adormece minha irmã, ela tem apenas 10 anos
e eu estou murcha, despreparada para o fim.