domingo, 1 de dezembro de 2013

Calendário de um aflito

Quando chegar o ontem ela também não virá.
A voz viaja no espaço, mas o que ouço são gritos.
Penso que são de desespero,
um pedido de ajuda, um surto, um esboço
de sanidade.

Só que nem sou tão são assim.
Vejo em mim assassinatos de anos.
Homicida de uma vida inteira que estou deixando
escapar.
Então reclamo, finjo, desminto, sorrio, sofro
e me engano.

Não é um pedido de socorro é uma ode de esperança.
Mas, o ontem é apenas uma criança
e o amanhã é um ancião rabugento que
de repente não estará lá.

E ela não vem e, novamente, sinto sua ausência
como quem sente uma queimadura ou
quem tem a inscrição certa para o hospício.
Sempre tive medo de enlouquecer
e o que isso evitou?

sábado, 30 de novembro de 2013

Vingança prescrita

Quanto ódio eu tenho no coração.
Eu tento esconder em sorrisos débeis e em frases acolchoadas.
Mas, estou repleta de escuridão.
São profundas as feridas e estão tomadas por vermes.

Há hematomas das agressões que eu proferi
e da retaliação que merecerei.
Tanta sujeira e o ar pouco respirável.
Afogo-me em mágoa e raiva.

Eu perdi há muito tempo atrás.
Há tanto tempo que foi no tempo antes do tempo.
Tudo que eu fiz na justificativa barata de segurança
se revelou frágil e descartável.

Lamento o útero acometido que me gerou
e lamento todos os dias que sorri.
Soa tão falso que finjo até ser triste, mas o que sou?
Sou um ser amargo e repleto de solidão.
Cuja vingança perdeu o prazo de validade.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Não, não terei primos em tempo do natal

Não, eu não tenho primos.
Meu pai foi adotado
minha mãe permaneceu em um lar
temporário até a maioridade.

Não, eu não tenho tios (não consanguíneos),
pois minha mãe catou irmãs em outras casas.
Não eu não tenho avós
e meu pai, há algum tempo, já faleceu.

Não, não haverá uma árvore cheia de cartões
e nem memórias neste natal.
Ele será tão igual a todos os outros.
Sentarei na espuma macia e observarei
pela janela as concentrações da vizinhança.
(Talvez eu vá ao cinema,
é um excelente programa para o natal.)

Não, eu não tenho primos.
Não aprendi sobre amizade com laços familiares colaterais.
Aprendi com um menino
na infância
que me encontrou escondida atrás de óculos
e folhas de cadernos rasurados.
Aprendi sobre amizade com minha irmã,
quando aos 14 anos eu sentei com ela
e revelei toda a minha verdade;
nossa verdade dividida e dividida.
Aprendi sobre amizade com um professor
e que era tudo com o que eu queria parecer quando crescesse.
Aprendi sobre amizade com minha mãe,
quando ela optou por trabalhar o ano inteiro para que
eu e minha irmã tivéssemos uma boneca de pano.

Não, eu não aprendi sobre amizade nas ruas
e nem nas páginas das revistas infanto-juvenis.
Aliás, na minha juventude só aprendi sobre o que não é amizade.

Não, eu não sou arredia.
Não, não me julgue,
não me julgue, ainda.

Venho de uma família que aprendeu a amar poucos,
aos poucos.
Não é que o amor seja raro
mas, é que ele é caro e dispendioso demais.

Amar para mim é pesar todas as possibilidades ou quase todas,
é avaliar o risco,
é saber que o segundo seguinte não existe.
Esse sagrado saber do fim inevitável.
Portanto, não se espante se eu estiver, porventura, carente de abraços
ou se eu, simplesmente, tiver dificuldades em confiar.
Não é por que eu não tive primos.

Não.

Não, eu não depositarei em ti minhas expectativas
e nem tecerei para você uma redoma.
Sou cria do chão repleto de cacos,
despedaçada que sou em tantas gotas, não te ornarei de oceanos.
Se tu vieres a ser amor em meus dias preenchidos,
então será apenas isto; o isto que importa.
E, sim, tu terás de lidar com alguém que não sabe celebrar natais
e que dorme com um estilete debaixo do travesseiro.
Mas, se superar este fato,
perceberá que sou Amor, amável e amiga.
Apenas mais um isto.

Sendo assim, quando chegar o natal,
se quiser poderá se sentar comigo na espuma fatal
e observar a vizinhança
ou quem sabe poderemos cear
e assar nossos próprios sonhos
como quem circula desejos nos classificados dos jornais.

Não, eu não tenho primos
e minha irmã mora tão distante que dói.
Não, eu não tenho avós e nem tios.
Moro aqui entre o paraíso idealizado e o afiado dia;
quedo nos intervalos para os tempos imemoriais.

Não, eu não tenho primos.
Lamento informar que também não os terei para as festividades
e nem para meu aniversário que, forçosamente, compareço.
Não, eu não tenho primos.

domingo, 6 de outubro de 2013

Luz acesa ou apagada; eu estou desabilitada a dormir em paz

Faz tempo que eu não quero pensar nisso.
Falar nisso só me traz mágoa.
As vezes eu ouço palavras de amor e elas, simplesmente, me ferem.
Já não confio. Só desconfio. Lamento.
Luz acesa ou apagada; eu estou desabilitada a dormir em paz.
A escuridão e a claridade me apavoram do mesmo jeito.

Tudo poderia se resumir a uma chance de satisfação, mas inexiste.
Tudo é trabalhado ao contrário.
Olho as fotos e nas fotos pareço tão triste e percebo que isso só se agrava.
Regojizo-me no imprevisto, você chamaria de infortúnio e procuraria culpados.
Eu apenas desconheço aquilo que chamam bondade.
Nos asfaltos em que afundei meus pés há apenas perversidade.

Solitária eu olho para a partitura que a dor me ensinou a tocar,
vejo a cama onde adormece minha irmã, ela tem apenas 10 anos
e eu estou murcha, despreparada para o fim.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Palavras soltas

Quase sempre a interlocução parece ser o melhor dos caminhos.
Tratados são eleitos em nome dos diálogos.
Ensaios em nome da conversa e
há quem até profetize a evolução da comunicação.

Mas, o fato é que palavras são soltas.
Aquele que tiver dito que palavras não são ações
talvez não tivesse observado o impacto delas em superfícies tranquilas.

Talvez nem eu saiba, Mas, sei que as palavras
deveriam ser cautelosas, pois somos feitos de ouvidos,
filhos sangrados com medo.
Receio de não sermos: agradáveis, interessantes
e o medo de não sermos leais.

Porém, lealdade é apenas uma palavra e uma ação.
Vejo na nossa desconfiança os traços estrábicos
da deslealdade. Suspeitos que somos; suspeitamos.

Assim cobramos sinceridade. Sinceridade nas palavras.
Sinceridade que pode ser dita por um monossílabo.
Mas, não é esta palavra que eu busco.
Eu busco palavra; palavras soltas.

Releituras e repaginadas.

Sempre que me releio me acho tão imatura que chega a dar náuseas.
Leio os outros em entrelinhas.
Leio as vírgulas nas explicações das gramáticas.
Leio os avisos e as placas de funerais.

Mas, quando me leio me acho tão feio e tão banal.
As vezes eu falo de amor pelos ouvidos.
As vezes falo de viagens que não vivi.
As vezes só as vezes cito pessoas que nunca existiram além da minha imaginação,
mas ainda assim eu me deixo aqui; visível e risível.

Então é melhor eu fazer outra coisa. Talvez escrever.

sábado, 24 de agosto de 2013

"Pre" Conceito de amor: o Amor é a Cuca

Já faz tempo em que não falo de amor.
Nada de novo no horizonte. Não há amor por estes dias. Nem na caixa de correio e tampouco na de cereais.
Inexiste amor nos emails e inclusive pode parar de procurar por ele nas páginas dos jornais.
Periódicos de cidadezinhas interioranas? Sem chances.
Nos cartazes de procurado, nos inquéritos policiais, nas digitais da vidraça e nem no sorriso amarelo da vizinha que fala ao celular. O amor também não está no celular; talvez esteja ao celular deixando uma mensagem ordinária na caixa de entrada de alguém.
O amor não está no glúten e nem nos glúteos.

Os grãos de areia em vão tentaram defini-lo e com o tempo foram soprados para longos desertos distantes, onde engarrafados jazem em prateleiras empoeiradas.

Já faz tempo que falei de amor, pois o amor se tornou banal e raro.
Antítese de si mesmo.
Ontem eu me contorcia em buscas e pesquisas e de repente lembrei-me que caixas d'águas as vezes vazam. Nada mais significativo do que o nada bem aproveitado.

Assim, deixo a mensagem para aqueles que pensam que amam e também para aqueles que pensam que são ou que já foram amados: balela; o amor não existe.

- Mal amada! - Alguém grita.

Se o amor existe, pessoa efêmera, então ele é a Cuca. Sim, a Cuca. Pesquise sobre folclore e perceberá que nada mais parecido com "Amor" do que um réptil vingativo. Poderia ser um T-Rex com TPM. Mas, vai saber! Ainda não fui tão longe nos meus dias.

Por enquanto "Pre" Concebo este "Pre" Conceito de amor:
o Amor é a Cuca.