Hoje faz um ano do falecimento de meu pai.
Sinto como se fosse agora que recebi a notícia, por minha mãe, que ele estava internado por causa de uma pneumonia.
Lembro como se fosse neste instante: vi os olhos dele encherem de lágrimas quando eu entrei no quarto do hospital para visitá-lo. Recordo-me dele, neste dia, dizendo: "acho que não saio dessa, Nêga!". Aqueles olhos verdes fitavam o chão, o corpo tão magro, o balançar da cabeça em negação. Ainda ouço a ligação do hospital às 7h, do dia 7 de janeiro de 2011, requisitando os documentos dele e a confirmação de seu falecimento às 10h.
Ah! Como eu consigo me lembrar de tudo isto e esquecer de tantas outras coisas?! Lembro que no dia de hoje, há um ano atrás, eu não consegui chorar. Fiz nada no trabalho e no final do expediente eu fui direto para o velório. Lá algumas pessoas do trabalho me encontraram e eu segui para o apartamento sozinha. Meu melhor amigo foi até lá e não me deixou esmorecer no silêncio.
Dia desses eu encontrei uma partitura que meu pai subiu uma oitava à meu pedido. Vi a sua letra, seus desenhos de símbolos representando semínimas e colcheias.
Me deu uma saudade de: ouvi-lo com o tum-tum-tum do violão; vê-lo dançando uns passos desengonçados na sala; ver aquele sorriso de olhinhos fechados (tão igual ao meu ou o meu tão igual ao dele); abraçá-lo nas datas festivas, mesmo que com um afastamento de corpos (natural entre nós dois, eu que evitava tocá-lo) e apenas saber que ele estava lá para mim. Imortal.
Hoje é um dia complicado.
Ele não era santo e nem herói. Mas, foi e é muito importante na minha história. Hoje faz um ano que ele deixou de fazer parte, fisicamente, dos meus dias. Vai estar sempre na lembrança, pois a memória é a nossa única forma de sermos eternos.
Essa é para você, Pai:
"Nêga, vem cá,
vem ver só
como seu neguinho ficou
depois do tal dia neguinha
que você me deixou.
Quem me conhece
passa por mim
contando piada sorrindo.
Você está ficando acabado
xiiiii
você está sumindo.
Você foi embora criança
minha alma ficou quase louca.
Você não me sai da lembrança,
seu nome não me sai da boca."
(Música de autoria desconhecida que meu pai, Antonio Joaquim, cantava para eu sorrir)