quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Quando se escreve melhor

Eu escrevo melhor quando estou apaixonada.
Leio mais quando estou frustrada.
Trabalho mais quando estou feliz.
Quando deprimida eu com certeza como mais.

Mas, eu escrevo melhor quando estou apaixonada.
Talvez por isso por tanto tempo eu só escreva bobagens,
quinquilharias da mente.
Essa seria uma boa justificativa para o desapego da escrita.
Se a paixão inexiste na vida de uma pessoa
então essa pessoa está fadada à uma página em branco!

O Eu, esse pronome pessoal do caso reto, existe apenas para diagnosticar um indivíduo
que deveria ser Eu, mas Eu, eu, as vezes nem chego a ser indivíduo; deixo-me a deriva da coletividade.
Colando curativos nas relações mal desenvolvidas. Fingindo coragem, mascarando tristeza, insatisfação e apodrecimento.

Com certeza eu escrevo melhor quando estou apaixonada e enquanto isso não acontece julgo-me no direito de cuspir tempestades na sofrível horda dos que habitam os meus dias. Destilo veneno e antipatia. Se me perguntares sobre o amor eu direi que é a justificativa dos covardes.
Mas, de fato, sou eu que me escondo em antigos retratos de uma vida que nunca vivi.

Verde borboleta

O nome da cor da pedra de granito é verde borboleta.
Não sei o motivo de uma pedra tão escura e dura receber o nome de um animal tão frágil.
Talvez seja para suavizar o fato da pedra ser uma pedra.
O motivo de eu ter escolhido este mineral, hoje, é simples: eu precisava fazer algo, dar o primeiro passo, tomar uma decisão por mim mesma e definir determinadas coisas na minha vida.
Mas, não fui eu quem percebeu a tal pedra de granito verde borboleta.
Eu havia gostado da verde ubatuba, mas estava sem a mínima vontade de discutir ou de fazer a minha vontade sobressair. Fiquei com a pedra verde com nome de inseto; que é bem bonita.

Porém, a pressa é realmente uma poderosa inimiga e na necessidade de minimizar uma angústia sem nome acabei por comprar a pedra com as medidas equivocadas que julgava corretas até refazer a medição. Ou seja, amanhã terei de admitir dupla derrota ao olhar para a pedra de granito verde borboleta: uma por ter de alterar o pedido no que tange as medidas e a segunda por ter de que continuar com a cor que me espreita.

Assim, eu pinto e decoro os meus dias com pedras bonitas de cores distantes do desejo, satisfação e euforia.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Motivações para não ir

Eu não vou.
Não vou por motivos óbvios.

Houve convite.
Mas, muitos foram os chamados.
Se todos são especiais então ninguém é especial.

Porém, esse não foi o motivo.
O motivo foi ridículo de tal forma que nem merece ser descrito.
Nem merecia esse post.
Mas, precisei afirmar que foi uma decisão minha; não ir.

Eu não vou.

Vou ficar pensando em como teria sido
e vou chegar a conclusão de que o melhor
terá sido não ir ou então vou ficar
remoendo o fato de não ter ido.

Que importa?
Ir ou não ir; estar ou não estar;
fazer parte ou não; integrar ou se entregar.
Recuar é possível; render-se jamais.
Por isso eu não vou,
pois de outra forma teria de encarar a verdade.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Zebra

A zebra pulou a cerca. Não se sabe como
e nem quando.
Quando já se viu ela estava a pastar no quintal.
A zebra disfarçada de cavalo
se enturmava na manada.

Observei ela pela janela.
Curiosamente ela se exibiu.
Corri para contar para a família,
e relutantes foram conferir a tropa.

Lá estava a zebra.
Admirados sorrimos
e ela lentamente desfilou
entre os cavalos puro sangue lusitanos.

Logo, alguém tentou adestrá-la;
domesticá-la e assim
um dia suas listras caíram;
não se sabe aonde e nem quando.
Quando já se viu ela não estava mais lá.
Deve ter pulado a cerca.

Guardo tatuado no corpo as listras que um dia ela perdeu.

Fuga; ilusão


Frente a frente com aquilo que te desestabiliza.
Reage,
Evita,
Disfarça.

Frente a frente com aquilo que admira.
Se encanta,
Se retrai,
Se distrai.

Naqueles segundos, eternos segundos,
os nervos parecem entrar em colapso.
A aparência denuncia.
O comportamento trai.
A voz essa é difícil domar,
Os olhos falam demais.

Rubor, distanciamento,
refúgio.
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Fuga; ilusão.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Ruídos de comunicação

Sintonia é algo que você procura.
Muda de estação, tenta encontrar o sinal.
Vai de um extremo ao outro.
De manhã ou de noite.

Assim as vezes você consegue identificar um canal
mas, não é aquilo que você buscava
e ouvindo o bom senso e o bom gosto
você continua em busca de algo tão amplo quanto o som
e tão universal quanto a música.

Sintonia é algo que todos procuramos,
mas várias faixas possuem um sinal ruim e ao invés
de estabelecer contato entre duas áreas diferentes
o som do chiado surpreende e depois impera o silêncio.

Qual é a tua frequência?
Sabemos da importância da sintonia.
Mas, quando as ondas são diferentes
a mensagem pode alcançar ou não o receptor.
Deixo o rádio ligado, ponho o fone de ouvido
e um sinal sonoro apita suave.
Poderia ser um aviso, mas é só uma emissora que saiu do ar.
Entre linhas cruzadas é hora de mudar de estação.

domingo, 7 de outubro de 2012

Um dia neste dia; outro dia

Um dia você não tem casa,
não tem pai, sua família se resumiu a você.
Você não tem emprego,
não tem amigos e nem tem estudo.
Um dia você não tem sonhos,
não tem planos.
Você não tem bagagem
e nem perspectiva.

Um dia você não tem horizonte.

Neste dia você tem a loucura,
o desespero,
o desperdício de força se autoflagelando.
Neste dia seus olhos são remorsos
e seus pés fincados no solo te fazem tremer.
Neste dia você acha que tudo está perdido
e implora ao universo que ele te erre.

Aí vem o dia seguinte. Outro dia.
Com o raiar do sol sua existência se enche de esperança.
Você segue.
Pois, no calendário há vários dias.
No relógio há várias horas.
No tempo há várias chances de fazer de cada momento um lugar diferente.

sábado, 6 de outubro de 2012

Lisa: uma pessoa de extremos

Lisa se olhava no espelho e se via magra, jovem e bonita.

Porém, Lisa estava acima do peso, na casa dos seus 45 anos e digamos que com as marcas de expressão e manchas na pele a sua aparência era um tanto quanto exótica.
Lisa insistia em andar com pessoas muito jovens, pois assim se sentia cheia de vida. Mas, o fato é que rapidamente ela ficava enfadada de tudo e agia rispidamente com as pessoas recorrendo ao discurso da experiência. Por mais que em seu caso, em particular, o discurso da experiência fosse bastante relevante as pessoas para quem o discurso era dirigido não se preocupavam com isso, ou melhor com nada. Então Lisa pregava para as paredes.

Apesar de ter afastado o amor de sua vida. Lisa se viu encantada por um individuo que representava as mesmas características pelas quais ela se sentiu atraída quando adolescente. Só que havia uma significativa diferença: Lisa com 45 anos se sentindo uma adolescente e ele com 18 anos se sentindo um adulto.

Não levou mais de uma semana, pois na juventude o tempo corre mais depressa, e Lisa descobriu que ele estava envolvido com uma jovem da idade dele.
Assim, repleta de ressentimento ela se olhou no espelho e viu uma senhora idosa de 85 anos, obesa e muito feia.

Pois, Lisa sempre foi assim: uma pessoa de extremos.

Voltas da ciranda

Quando jovem Lisa queria ser amiga de Ana
que era amiga de Patrícia
que namorava o irmão de Francine
que fazia trabalho com Renata
que queria ser amiga de Lisa.

Hoje Lisa está apaixonada pelo irmão de Francine
que namora Renata,
pois Patrícia já casou e tem filhos.
Sobre Ana soube que se mudou para o Cairo.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

O menino que tocava tarol

Lisa tinha 16 anos quando se apaixonou pela primeira vez.
Ela já tinha demonstrado interesse em meninos antes. Mas, este era especial.
Ele mancava de uma perna devido à um acidente na infância, era alto, tocava tarol e tinha os olhos mais bonitos que Lisa viu em toda a sua vida.
Quando se viu apaixonada Lisa não fez o que se espera de uma moça que tem o amor correspondido. Lisa fugiu, desapareceu, não atendeu mais o telefone, não foi mais nos mesmos lugares onde eles se encontravam. Lisa sumiu. Sabe-se que este rapaz ainda a procurou por muito tempo até que um dia ele desistiu e seguiu com sua vida. Lisa consumiu-se em culpa por muito tempo.
Sendo assim, sempre que Lisa se apaixona ela tem por hábito fugir ou afugentar quem se aproxima.
Lisa, faz 46 anos no mês que vem e nunca amou de fato ninguém.
Quando perguntei para Lisa o motivo de seu comportamento, ela me disse: é a melhor coisa a fazer.

Fiquei me perguntando se o desaparecimento de Lisa afetou tanto a aquele menino quanto afetou à ela mesma e a unica coisa que considero disso tudo é que nunca saberei o paradeiro do menino que tocava tarol, a primeira paixão de Lisa.