sábado, 31 de março de 2012

Quando for a hora de ir

Antes de dizer adeus
há de se livrar de todos os possíveis laços.
Pegue tudo o que é seu
e devolva aquilo que não for.

Então coloque uma pedra sobre o assunto
e não pense no que não deu certo.
Viva um dia de cada vez e saiba
que apesar dos pesares o sol estará lindo amanhã;
independente das nuvens.

Portanto, ame-se e seja feliz.

Um homem sobe as escadas rapidamente

Um homem sobe as escadas rapidamente. Para em frente a uma porta.
Procura as chaves nos bolsos. Procura na bolsa. Novamente nos bolsos.
Nos bolsos da bolsa.

Desespera-se.

Aflito retira tudo da bolsa, desembrulha um pacote.
Abre o porta níquel e soca a porta.

É inútil.

É tarde.
Lamenta a perda da chave.
Lamenta a perda de tempo.
Desce a escada desolado.
Na rua ele avista uma chave caída no chão.
Ele a pega como quem acha um troféu.
Ergue-a em triunfo e sobe
as escadas rapidamente.

Enfia a chave na porta, mas a porta não abre.
Força a chave, mas a fechadura não cede.

Insiste. Persiste. Força! - Vai, abre.

A chave quebra na fechadura. O homem alucinado chuta a porta.
Ele quer entrar, ele precisa entrar e ele tem pressa.

Um fragmento da chave partida na mão e outra parte na porta.
Então ele respira profundamente.
Melhor ficar calmo
e buscar um chaveiro.

Descendo os primeiros degraus ele olha para o pedaço de chave.
Verifica que tentou abrir a porta com a chave errada; aquela não é a sua chave.
Quando levanta os olhos para rir do absurdo
constata que aquele não é o seu andar.

Termina por descer os degraus blasfemando
e na portaria percebe que aquele prédio não é o seu.

Atravessa a calçada e não reconhece aquela rua.
Na poça d'água da calçada ele desconhece a figura refletida.
Não sabe mais quem é.

Com força ele aperta o pedaço de chave entre as mãos; está vazio.
Repleto de nada.
Como um caco de uma chave partida.
Chave que nem servia para abrir a porta escolhida.

Caminha até uma lixeira cabisbaixo.
Atira o pedaço de chave fora e senta na beira da calçada.
Abre a bolsa e a foto dos documentos não é a imagem refletida na poça.
Provável que aquela bolsa nem seja dele.
Aqueles papéis identificam alguém para quem ele não foi apresentado.

Tenta recordar.
Pensar a respeito.
Olha profundamente para as mãos
para ver se são suas.
Seus dedos, suas digitais como uma identidade particular.
Passa a mão pelos cabelos, ergue-se
e vai cambaleando para o abismo do esquecimento.

 as escadas rapidamente.
   um homem sobe
Perto dali  

sábado, 3 de março de 2012

Porta fechada

Na juventude Florbela precisava da aceitação alheia e na idade adulta imatura e insegura preferiu esconder-se dos outros ao invés de confrontar a realidade de impopular.

Era boba demais, gorda demais e nem conseguia ser razoável nas ciências quiçá nos esportes.

Ainda agora ela me disse que não se sente boa para nada. Está velha para tentar algo diferente e é feia demais para encarar o belo e solitária demais para sair de sua própria casa.

- Quando quiser o mundo ainda estará aqui para você, Flor. Venha antes de murchar e assim faremos parte da primavera.

Pensamento de Ontem

Quem segura rosas com força
atrai moscas ao invés de borboletas.