terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Em busca do verbo

Não sei quando começou
este movimento.
Planejei e não deu certo;
não volto.
Evito mudanças.
Estranho estranhos.
Piadas alheias me deixam sem graça.
Esquivo-me.
Esgueiro-me.

Saio pela tangente.
Vou flanqueando.
Buscando opções para não ter
de encontrar pessoas
rir e sorrir.

Mas, acabo sempre tendo de
inventar histórias e me desculpar.
Pois, temo o que desconheço
e conheço quase nada.

Sigo em uma busca e não tente me impedir ou capturar.
Um dia eu encontrarei o verbo de ligação.

Ser
Estar
Permanecer
Ficar
Continuar
Andar 
Parecer

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Na época do Opala

Quando eu era pequena tinha vergonha de andar com meu pai.
Ele tinha um carro velho que vivia dando problemas. Normalmente, tinha de ser empurrado ou socorrido por reboques; mecânicos; curiosos e afins.
Fato é que era um Dodge Charger, preto, dos idos de 71 ou 73 não estou bem certa e meu pai passava boa parte do dia concertando o danado do carro.

Até que um dia ele comprou um Opala, de segunda mão, cinza metálico, duas portas e funcionava. Aliás eu me lembro do Opala muito bem. Meu pai desmontava o Dodge e levava a gente para ir ao mercado ou algum outro lugar no Opala e sempre que eu olhava para trás o Dodge estava com aqueles faróis tristes de quem foi preterido. As vezes eu me sentia culpada por preferir o carro que funcionava ao velho Dodge. Mas, era só dar uma chance ao carango e ele nos deixava na mão.

Um dia meu pai teve de vendê-los para pagar dívidas: o Opala foi para um rapaz e o Dodjão foi para o ferro velho. Fico pensando como será que está aquele estofamento e aquela marcha acoplada ao volante; tantas horas que meu pai dedicou àquele motor. Tempos bons aqueles em que meu pai definia o meu destino e sentir culpa por um carro enguiçado era o maior dos meus problemas.

Miniatura de Dodge Charger

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

R

Enter R
Enterre                                                         Em
Em terra                                                            ter erros
                                                                          ter terras
Em ter R.
R.                                                                 Erre
                                                                     Enterre
                                                                     Em terra
Em ter erros
Em ter terras
Em ter R. Terras
Em 

Ter erro
Ter  terra
Ter R. Terra

Erre
em ter R. Terra
erre em ter terra
enterre R. Terra
e enter.

Cova Rasa

Havia dias que estava morto.
Morto seu corpo.
Morto ele próprio.
Todo em decomposição.
Tola composição.

Na vala rasa a matéria sucumbia putrefata.

Cova

O corpo treme.

Todo aquele odor,
oriundo do corpo imóvel,
chegou ao olfato.

Aquele cheiro. Aquele cheiro de podre
atraiu atenção demais.

Urubus voam baixo.

Fragrâncias que relembram fatos.
Respiração difícil.
Vomita pensamentos aéreos.

- Para feder menos: enterre seus mortos.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Obrigações

Tenho apenas alguns minutos.
O revólver está apontado
para os meus ligamentos.

Aproveito tudo aquilo que resta
vasculhando memórias
e tentando organizar
os pensamentos que encadearam
estes acontecimentos.

Levanto as mãos: "eu me rendo!".
Detido vejo o cano
como um evento programado.
Resmungo em silêncio.
Engatilhado o relógio ordena;
exige favores.

Dispara.

Mesmo em curta distância
erra.

Renovo-me de vida.
Então o telefone toca e, novamente,
sou refém.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Privado

Não posso me casar
tenho obturações morais.
Já tive sexo;
não o suficiente.
Estupros psíquicos,
casos, abortos e
até transei semelhantes.

Não posso me candidatar.
Sou lodoso.
Já tive atos corruptos;
diversos.
Seduzi.
Alguém poderia me extorquir.

Não posso ser famoso.
Há fotos,
gravações,
discursos,
poesias e
testemunhos
que comprovariam ruínas de uma trajetória.

Não posso nem olhar.
Eu gosto da mentira
e de humilhações.
Habito os fracos, covardes e sujos.
Estou no gemido da pornografia
e me realizo nas tragédias
anunciadas em noticiários.
Roubo a fé para destruí-la.
Incrimino inocentes para manter o meu padrão.

Não posso nem ouvir.
Escuto apenas a vaidade
e o orgulho de minha própria voz
bajulando vícios
e enaltecendo páginas.

Não posso ser público.
Sou o alimento das campanhas.
Contamino e soletro absurdos.
Priorizo o fútil.
Administro a soberba.
Fomento guerras
e justificativas.

Sou o óbvio;
sou o medo.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Dia complicado

Hoje faz um ano do falecimento de meu pai.

Sinto como se fosse agora que recebi a notícia, por minha mãe, que ele estava internado por causa de uma pneumonia.
Lembro como se fosse neste instante: vi os olhos dele encherem de lágrimas quando eu entrei no quarto do hospital para visitá-lo. Recordo-me dele, neste dia, dizendo: "acho que não saio dessa, Nêga!". Aqueles olhos verdes fitavam o chão, o corpo tão magro, o balançar da cabeça em negação. Ainda ouço a ligação do hospital às 7h, do dia 7 de janeiro de 2011, requisitando os documentos dele e a confirmação de seu falecimento às 10h.

Ah! Como eu consigo me lembrar de tudo isto e esquecer de tantas outras coisas?! Lembro que no dia de hoje, há um ano atrás, eu não consegui chorar. Fiz nada no trabalho e no final do expediente eu fui direto para o velório. Lá algumas pessoas do trabalho me encontraram e eu segui para o apartamento sozinha. Meu melhor amigo foi até lá e não me deixou esmorecer no silêncio.

Dia desses eu encontrei uma partitura que meu pai subiu uma oitava à meu pedido. Vi a sua letra, seus desenhos de símbolos representando semínimas e colcheias.
Me deu uma saudade de: ouvi-lo com o tum-tum-tum do violão; vê-lo dançando uns passos desengonçados na sala; ver aquele sorriso de olhinhos fechados (tão igual ao meu ou o meu tão igual ao dele); abraçá-lo nas datas festivas, mesmo que com um afastamento de corpos (natural entre nós dois, eu que evitava tocá-lo) e apenas saber que ele estava lá para mim. Imortal.

Hoje é um dia complicado.

Ele não era santo e nem herói. Mas, foi e é muito importante na minha história. Hoje faz um ano que ele deixou de fazer parte, fisicamente, dos meus dias. Vai estar sempre na lembrança, pois a memória é a nossa única forma de sermos eternos.

Essa é para você, Pai:
"Nêga, vem cá,
vem ver só
como seu neguinho ficou
depois do tal dia neguinha
que você me deixou.
Quem me conhece
passa por mim
contando piada sorrindo.
Você está ficando acabado 
xiiiii
você está sumindo.
Você foi embora criança
minha alma ficou quase louca.
Você não me sai da lembrança,
seu nome não me sai da boca."
(Música de autoria desconhecida que meu pai, Antonio Joaquim, cantava para eu sorrir)

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Mordida

Eu sou a mordida.
Fruto da força do maxilar.
Contração de músculos.
Exercício dos dentes.
Desejo do estômago.
Sou a arma da fome.

Em mim se rejubilam salivas e glote.

Sou eu quem rasga a carne.
É meu ímpeto que sacia a sua necessidade.
Eu sou a coragem, a vontade.
Sou a provação do amargo,
o frescor,
a doçura.
Eu sou a loucura ou a tortura dos famintos,
selvagens e flagelados.

É na minha matéria
que você insiste.

Sou eu que te mato,
dou a vida e te faço calar.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Faz tempo

Faz tempo.
Tempo que eu sou o mesmo.

Há dias que não:
    tomo banho;
    troco de roupas;
    escovo os dentes;
    lavo o rosto ou
    me olho no espelho.

Há semanas que deixei:
    de cozinhar;
    regar as plantas;
    abrir janelas;
    discutir assuntos ou
    me interessar por algo.

Há meses que mantenho:
    o quarto em desordem;
    o telefone no mudo;
    a agenda fechada e
    as pessoas longe.
Eu cultivo o lixo.

Há tempos que não:
    sinto fome ou
    cansaço;
    saio de casa;
    tenho sono ou
    sonhos.

Eu sou o mesmo e estou morto.
Morto o meu respeito e
na vila vazia onde eu me escondi
amarelam os retratos
da vida que protelei; faz tempo.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Um amor de mesinha

Depois do natal José Carlos tomou a consciência da necessidade de possuir uma mesa. Ele passou o ano inteiro comendo com o prato apoiado nos joelhos. Então depois de muito adiar o assunto Zeca comprou uma mesinha. O objeto custou R$ 130,00 e ele achou que fez um bom negócio.
Pesquisou, comparou preços, utilidades do móvel, prazos de entrega e até condições de financiamento.
Depois de muito estudar as opções ele ficou com a mesinha supracitada.

O referido móvel era apenas uma mesinha, sem nada de adereços, design ousado ou milhares de gavetas, prateleiras ou compartimentos. Apenas uma mesa.

Quando ela chegou a euforia do Zeca fez com que ele passasse o dia inteiro de bom humor. Deu até gorjeta para o entregador.
Depois da virada do ano ele decidiu contratar alguém para montar a mesinha e qual não foi sua surpresa ao descobrir que para montar a mesa todos os montadores da cidade não cobravam menos do que R$120,00.

Arrasado pelo cartel da montagem de móveis ele não teria outro caminho senão ceder. Mas, renovado que estava pelo espírito econômico pós virada do ano. Ele mesmo resolveu como ultimo e único recurso aceitável cumprir a extenuante tarefa.

Hoje, fui visitá-lo no hospital. Ele martelou o dedo, tropeçou no papelão e tentou se equilibrar na madeira do tampo e, resultado, teve fraturas múltiplas na perna. Ninguém falou nada sobre a economia de não pagar o montador. Decidimos por bem culpar o martelo; que neste início de ano foi acusado, julgado e sentenciado por ter sido o vilão da mesinha; cumpre pena atualmente na caixa de ferramentas de um marceneiro.

Quanto ao Zé eu espero que ele retorne logo para casa. Mas, enquanto isto não acontece. Nós os amigos do Zequinha estamos fazendo uma vaquinha para o montador montar a famigerada mesinha.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

2012 já começou

Isso você já sabe.
Sabe também que o ano começou com chuva; muita.
Com aumento da passagem em Niterói.
Desmoronamentos na região serrana.

Que neste mês vai ter show do Chico Buarque no Rio de Janeiro
e que vai terminar a exposição de Oswald de Andrade em São Paulo.

Este ano está com pressa e eu estou atrasada.
Atrasada para o futuro inaugurado na primeira segunda-feira do ano.
Igual e diferente de tantas outras segundas.

Vamos embora que o expresso 2012 está em movimento.
Te vejo na próxima estação.
Até logo!