quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Quando se escreve melhor

Eu escrevo melhor quando estou apaixonada.
Leio mais quando estou frustrada.
Trabalho mais quando estou feliz.
Quando deprimida eu com certeza como mais.

Mas, eu escrevo melhor quando estou apaixonada.
Talvez por isso por tanto tempo eu só escreva bobagens,
quinquilharias da mente.
Essa seria uma boa justificativa para o desapego da escrita.
Se a paixão inexiste na vida de uma pessoa
então essa pessoa está fadada à uma página em branco!

O Eu, esse pronome pessoal do caso reto, existe apenas para diagnosticar um indivíduo
que deveria ser Eu, mas Eu, eu, as vezes nem chego a ser indivíduo; deixo-me a deriva da coletividade.
Colando curativos nas relações mal desenvolvidas. Fingindo coragem, mascarando tristeza, insatisfação e apodrecimento.

Com certeza eu escrevo melhor quando estou apaixonada e enquanto isso não acontece julgo-me no direito de cuspir tempestades na sofrível horda dos que habitam os meus dias. Destilo veneno e antipatia. Se me perguntares sobre o amor eu direi que é a justificativa dos covardes.
Mas, de fato, sou eu que me escondo em antigos retratos de uma vida que nunca vivi.

Verde borboleta

O nome da cor da pedra de granito é verde borboleta.
Não sei o motivo de uma pedra tão escura e dura receber o nome de um animal tão frágil.
Talvez seja para suavizar o fato da pedra ser uma pedra.
O motivo de eu ter escolhido este mineral, hoje, é simples: eu precisava fazer algo, dar o primeiro passo, tomar uma decisão por mim mesma e definir determinadas coisas na minha vida.
Mas, não fui eu quem percebeu a tal pedra de granito verde borboleta.
Eu havia gostado da verde ubatuba, mas estava sem a mínima vontade de discutir ou de fazer a minha vontade sobressair. Fiquei com a pedra verde com nome de inseto; que é bem bonita.

Porém, a pressa é realmente uma poderosa inimiga e na necessidade de minimizar uma angústia sem nome acabei por comprar a pedra com as medidas equivocadas que julgava corretas até refazer a medição. Ou seja, amanhã terei de admitir dupla derrota ao olhar para a pedra de granito verde borboleta: uma por ter de alterar o pedido no que tange as medidas e a segunda por ter de que continuar com a cor que me espreita.

Assim, eu pinto e decoro os meus dias com pedras bonitas de cores distantes do desejo, satisfação e euforia.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Motivações para não ir

Eu não vou.
Não vou por motivos óbvios.

Houve convite.
Mas, muitos foram os chamados.
Se todos são especiais então ninguém é especial.

Porém, esse não foi o motivo.
O motivo foi ridículo de tal forma que nem merece ser descrito.
Nem merecia esse post.
Mas, precisei afirmar que foi uma decisão minha; não ir.

Eu não vou.

Vou ficar pensando em como teria sido
e vou chegar a conclusão de que o melhor
terá sido não ir ou então vou ficar
remoendo o fato de não ter ido.

Que importa?
Ir ou não ir; estar ou não estar;
fazer parte ou não; integrar ou se entregar.
Recuar é possível; render-se jamais.
Por isso eu não vou,
pois de outra forma teria de encarar a verdade.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Zebra

A zebra pulou a cerca. Não se sabe como
e nem quando.
Quando já se viu ela estava a pastar no quintal.
A zebra disfarçada de cavalo
se enturmava na manada.

Observei ela pela janela.
Curiosamente ela se exibiu.
Corri para contar para a família,
e relutantes foram conferir a tropa.

Lá estava a zebra.
Admirados sorrimos
e ela lentamente desfilou
entre os cavalos puro sangue lusitanos.

Logo, alguém tentou adestrá-la;
domesticá-la e assim
um dia suas listras caíram;
não se sabe aonde e nem quando.
Quando já se viu ela não estava mais lá.
Deve ter pulado a cerca.

Guardo tatuado no corpo as listras que um dia ela perdeu.

Fuga; ilusão


Frente a frente com aquilo que te desestabiliza.
Reage,
Evita,
Disfarça.

Frente a frente com aquilo que admira.
Se encanta,
Se retrai,
Se distrai.

Naqueles segundos, eternos segundos,
os nervos parecem entrar em colapso.
A aparência denuncia.
O comportamento trai.
A voz essa é difícil domar,
Os olhos falam demais.

Rubor, distanciamento,
refúgio.
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Fuga; ilusão.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Ruídos de comunicação

Sintonia é algo que você procura.
Muda de estação, tenta encontrar o sinal.
Vai de um extremo ao outro.
De manhã ou de noite.

Assim as vezes você consegue identificar um canal
mas, não é aquilo que você buscava
e ouvindo o bom senso e o bom gosto
você continua em busca de algo tão amplo quanto o som
e tão universal quanto a música.

Sintonia é algo que todos procuramos,
mas várias faixas possuem um sinal ruim e ao invés
de estabelecer contato entre duas áreas diferentes
o som do chiado surpreende e depois impera o silêncio.

Qual é a tua frequência?
Sabemos da importância da sintonia.
Mas, quando as ondas são diferentes
a mensagem pode alcançar ou não o receptor.
Deixo o rádio ligado, ponho o fone de ouvido
e um sinal sonoro apita suave.
Poderia ser um aviso, mas é só uma emissora que saiu do ar.
Entre linhas cruzadas é hora de mudar de estação.

domingo, 7 de outubro de 2012

Um dia neste dia; outro dia

Um dia você não tem casa,
não tem pai, sua família se resumiu a você.
Você não tem emprego,
não tem amigos e nem tem estudo.
Um dia você não tem sonhos,
não tem planos.
Você não tem bagagem
e nem perspectiva.

Um dia você não tem horizonte.

Neste dia você tem a loucura,
o desespero,
o desperdício de força se autoflagelando.
Neste dia seus olhos são remorsos
e seus pés fincados no solo te fazem tremer.
Neste dia você acha que tudo está perdido
e implora ao universo que ele te erre.

Aí vem o dia seguinte. Outro dia.
Com o raiar do sol sua existência se enche de esperança.
Você segue.
Pois, no calendário há vários dias.
No relógio há várias horas.
No tempo há várias chances de fazer de cada momento um lugar diferente.

sábado, 6 de outubro de 2012

Lisa: uma pessoa de extremos

Lisa se olhava no espelho e se via magra, jovem e bonita.

Porém, Lisa estava acima do peso, na casa dos seus 45 anos e digamos que com as marcas de expressão e manchas na pele a sua aparência era um tanto quanto exótica.
Lisa insistia em andar com pessoas muito jovens, pois assim se sentia cheia de vida. Mas, o fato é que rapidamente ela ficava enfadada de tudo e agia rispidamente com as pessoas recorrendo ao discurso da experiência. Por mais que em seu caso, em particular, o discurso da experiência fosse bastante relevante as pessoas para quem o discurso era dirigido não se preocupavam com isso, ou melhor com nada. Então Lisa pregava para as paredes.

Apesar de ter afastado o amor de sua vida. Lisa se viu encantada por um individuo que representava as mesmas características pelas quais ela se sentiu atraída quando adolescente. Só que havia uma significativa diferença: Lisa com 45 anos se sentindo uma adolescente e ele com 18 anos se sentindo um adulto.

Não levou mais de uma semana, pois na juventude o tempo corre mais depressa, e Lisa descobriu que ele estava envolvido com uma jovem da idade dele.
Assim, repleta de ressentimento ela se olhou no espelho e viu uma senhora idosa de 85 anos, obesa e muito feia.

Pois, Lisa sempre foi assim: uma pessoa de extremos.

Voltas da ciranda

Quando jovem Lisa queria ser amiga de Ana
que era amiga de Patrícia
que namorava o irmão de Francine
que fazia trabalho com Renata
que queria ser amiga de Lisa.

Hoje Lisa está apaixonada pelo irmão de Francine
que namora Renata,
pois Patrícia já casou e tem filhos.
Sobre Ana soube que se mudou para o Cairo.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

O menino que tocava tarol

Lisa tinha 16 anos quando se apaixonou pela primeira vez.
Ela já tinha demonstrado interesse em meninos antes. Mas, este era especial.
Ele mancava de uma perna devido à um acidente na infância, era alto, tocava tarol e tinha os olhos mais bonitos que Lisa viu em toda a sua vida.
Quando se viu apaixonada Lisa não fez o que se espera de uma moça que tem o amor correspondido. Lisa fugiu, desapareceu, não atendeu mais o telefone, não foi mais nos mesmos lugares onde eles se encontravam. Lisa sumiu. Sabe-se que este rapaz ainda a procurou por muito tempo até que um dia ele desistiu e seguiu com sua vida. Lisa consumiu-se em culpa por muito tempo.
Sendo assim, sempre que Lisa se apaixona ela tem por hábito fugir ou afugentar quem se aproxima.
Lisa, faz 46 anos no mês que vem e nunca amou de fato ninguém.
Quando perguntei para Lisa o motivo de seu comportamento, ela me disse: é a melhor coisa a fazer.

Fiquei me perguntando se o desaparecimento de Lisa afetou tanto a aquele menino quanto afetou à ela mesma e a unica coisa que considero disso tudo é que nunca saberei o paradeiro do menino que tocava tarol, a primeira paixão de Lisa.

domingo, 30 de setembro de 2012

A rosa dos ventos

Há sempre uma bússola para o prisioneiro em fuga.
Há sempre uma forma de se guiar.
Seja pelas estrelas,
pelo conhecimento da terra,
pelo domínio da sobrevivência no mar.

Há sempre meios de escapar.
Por mais que o corpo esteja inerte
e a mente imersa há possibilidades de escapar.
Tem que haver.

Olho para os lados
e vejo
o único grilhão que me acorrenta; medo.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Experimentos

Há coisas que não... não sei.

As vezes olho o que os olhos não gostariam de ver, mas aquilo que é visto faz parte da enorme realidade da qual não posso me esconder (por mais que eu tente).
Vejo a unanimidade passar convencional, mas o convencional de agora é outro.
Vive-se a época dos experimentos.

Há momentos que... sei lá.
Nem o vinho tinto, nem a chuva; nada.
Nem a chuva, isso mesmo nem a chuva.

São tantas aberrações. Sou tão parte disso tudo; parte solta.
Fico olhando e a paisagem é sempre a mesma idade.
Sorrio adulta de toda a minha imaturidade.
A madrugada se foi e não restou nem um sorriso.

Na minha pele apenas um arrepio.

domingo, 6 de maio de 2012

Despesas convencionais

Início de mês deveria acontecer uma vez ao ano.
Todas as minhas correspondências são dívidas!
Olho para este dia e ele me diz: sair é uma opção a qual você não pode arcar.

Decido tomar banho; afinal a conta de água está paga.
Vou andar para clarear a mente e não morrer de tédio.
Quem sabe eu sente no final da tarde na beira mar
e veja girar nas colheres enormes bolas de sorvete.

Estou falida e só tenho aspirações compulsivas e consumistas.
Ouço convites conflitantes com a minha realidade.
Respondo amarga
e assim gasto esta tarde ensolarada de domingo.

sábado, 31 de março de 2012

Quando for a hora de ir

Antes de dizer adeus
há de se livrar de todos os possíveis laços.
Pegue tudo o que é seu
e devolva aquilo que não for.

Então coloque uma pedra sobre o assunto
e não pense no que não deu certo.
Viva um dia de cada vez e saiba
que apesar dos pesares o sol estará lindo amanhã;
independente das nuvens.

Portanto, ame-se e seja feliz.

Um homem sobe as escadas rapidamente

Um homem sobe as escadas rapidamente. Para em frente a uma porta.
Procura as chaves nos bolsos. Procura na bolsa. Novamente nos bolsos.
Nos bolsos da bolsa.

Desespera-se.

Aflito retira tudo da bolsa, desembrulha um pacote.
Abre o porta níquel e soca a porta.

É inútil.

É tarde.
Lamenta a perda da chave.
Lamenta a perda de tempo.
Desce a escada desolado.
Na rua ele avista uma chave caída no chão.
Ele a pega como quem acha um troféu.
Ergue-a em triunfo e sobe
as escadas rapidamente.

Enfia a chave na porta, mas a porta não abre.
Força a chave, mas a fechadura não cede.

Insiste. Persiste. Força! - Vai, abre.

A chave quebra na fechadura. O homem alucinado chuta a porta.
Ele quer entrar, ele precisa entrar e ele tem pressa.

Um fragmento da chave partida na mão e outra parte na porta.
Então ele respira profundamente.
Melhor ficar calmo
e buscar um chaveiro.

Descendo os primeiros degraus ele olha para o pedaço de chave.
Verifica que tentou abrir a porta com a chave errada; aquela não é a sua chave.
Quando levanta os olhos para rir do absurdo
constata que aquele não é o seu andar.

Termina por descer os degraus blasfemando
e na portaria percebe que aquele prédio não é o seu.

Atravessa a calçada e não reconhece aquela rua.
Na poça d'água da calçada ele desconhece a figura refletida.
Não sabe mais quem é.

Com força ele aperta o pedaço de chave entre as mãos; está vazio.
Repleto de nada.
Como um caco de uma chave partida.
Chave que nem servia para abrir a porta escolhida.

Caminha até uma lixeira cabisbaixo.
Atira o pedaço de chave fora e senta na beira da calçada.
Abre a bolsa e a foto dos documentos não é a imagem refletida na poça.
Provável que aquela bolsa nem seja dele.
Aqueles papéis identificam alguém para quem ele não foi apresentado.

Tenta recordar.
Pensar a respeito.
Olha profundamente para as mãos
para ver se são suas.
Seus dedos, suas digitais como uma identidade particular.
Passa a mão pelos cabelos, ergue-se
e vai cambaleando para o abismo do esquecimento.

 as escadas rapidamente.
   um homem sobe
Perto dali  

sábado, 3 de março de 2012

Porta fechada

Na juventude Florbela precisava da aceitação alheia e na idade adulta imatura e insegura preferiu esconder-se dos outros ao invés de confrontar a realidade de impopular.

Era boba demais, gorda demais e nem conseguia ser razoável nas ciências quiçá nos esportes.

Ainda agora ela me disse que não se sente boa para nada. Está velha para tentar algo diferente e é feia demais para encarar o belo e solitária demais para sair de sua própria casa.

- Quando quiser o mundo ainda estará aqui para você, Flor. Venha antes de murchar e assim faremos parte da primavera.

Pensamento de Ontem

Quem segura rosas com força
atrai moscas ao invés de borboletas.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Em busca do verbo

Não sei quando começou
este movimento.
Planejei e não deu certo;
não volto.
Evito mudanças.
Estranho estranhos.
Piadas alheias me deixam sem graça.
Esquivo-me.
Esgueiro-me.

Saio pela tangente.
Vou flanqueando.
Buscando opções para não ter
de encontrar pessoas
rir e sorrir.

Mas, acabo sempre tendo de
inventar histórias e me desculpar.
Pois, temo o que desconheço
e conheço quase nada.

Sigo em uma busca e não tente me impedir ou capturar.
Um dia eu encontrarei o verbo de ligação.

Ser
Estar
Permanecer
Ficar
Continuar
Andar 
Parecer

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Na época do Opala

Quando eu era pequena tinha vergonha de andar com meu pai.
Ele tinha um carro velho que vivia dando problemas. Normalmente, tinha de ser empurrado ou socorrido por reboques; mecânicos; curiosos e afins.
Fato é que era um Dodge Charger, preto, dos idos de 71 ou 73 não estou bem certa e meu pai passava boa parte do dia concertando o danado do carro.

Até que um dia ele comprou um Opala, de segunda mão, cinza metálico, duas portas e funcionava. Aliás eu me lembro do Opala muito bem. Meu pai desmontava o Dodge e levava a gente para ir ao mercado ou algum outro lugar no Opala e sempre que eu olhava para trás o Dodge estava com aqueles faróis tristes de quem foi preterido. As vezes eu me sentia culpada por preferir o carro que funcionava ao velho Dodge. Mas, era só dar uma chance ao carango e ele nos deixava na mão.

Um dia meu pai teve de vendê-los para pagar dívidas: o Opala foi para um rapaz e o Dodjão foi para o ferro velho. Fico pensando como será que está aquele estofamento e aquela marcha acoplada ao volante; tantas horas que meu pai dedicou àquele motor. Tempos bons aqueles em que meu pai definia o meu destino e sentir culpa por um carro enguiçado era o maior dos meus problemas.

Miniatura de Dodge Charger

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

R

Enter R
Enterre                                                         Em
Em terra                                                            ter erros
                                                                          ter terras
Em ter R.
R.                                                                 Erre
                                                                     Enterre
                                                                     Em terra
Em ter erros
Em ter terras
Em ter R. Terras
Em 

Ter erro
Ter  terra
Ter R. Terra

Erre
em ter R. Terra
erre em ter terra
enterre R. Terra
e enter.

Cova Rasa

Havia dias que estava morto.
Morto seu corpo.
Morto ele próprio.
Todo em decomposição.
Tola composição.

Na vala rasa a matéria sucumbia putrefata.

Cova

O corpo treme.

Todo aquele odor,
oriundo do corpo imóvel,
chegou ao olfato.

Aquele cheiro. Aquele cheiro de podre
atraiu atenção demais.

Urubus voam baixo.

Fragrâncias que relembram fatos.
Respiração difícil.
Vomita pensamentos aéreos.

- Para feder menos: enterre seus mortos.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Obrigações

Tenho apenas alguns minutos.
O revólver está apontado
para os meus ligamentos.

Aproveito tudo aquilo que resta
vasculhando memórias
e tentando organizar
os pensamentos que encadearam
estes acontecimentos.

Levanto as mãos: "eu me rendo!".
Detido vejo o cano
como um evento programado.
Resmungo em silêncio.
Engatilhado o relógio ordena;
exige favores.

Dispara.

Mesmo em curta distância
erra.

Renovo-me de vida.
Então o telefone toca e, novamente,
sou refém.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Privado

Não posso me casar
tenho obturações morais.
Já tive sexo;
não o suficiente.
Estupros psíquicos,
casos, abortos e
até transei semelhantes.

Não posso me candidatar.
Sou lodoso.
Já tive atos corruptos;
diversos.
Seduzi.
Alguém poderia me extorquir.

Não posso ser famoso.
Há fotos,
gravações,
discursos,
poesias e
testemunhos
que comprovariam ruínas de uma trajetória.

Não posso nem olhar.
Eu gosto da mentira
e de humilhações.
Habito os fracos, covardes e sujos.
Estou no gemido da pornografia
e me realizo nas tragédias
anunciadas em noticiários.
Roubo a fé para destruí-la.
Incrimino inocentes para manter o meu padrão.

Não posso nem ouvir.
Escuto apenas a vaidade
e o orgulho de minha própria voz
bajulando vícios
e enaltecendo páginas.

Não posso ser público.
Sou o alimento das campanhas.
Contamino e soletro absurdos.
Priorizo o fútil.
Administro a soberba.
Fomento guerras
e justificativas.

Sou o óbvio;
sou o medo.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Dia complicado

Hoje faz um ano do falecimento de meu pai.

Sinto como se fosse agora que recebi a notícia, por minha mãe, que ele estava internado por causa de uma pneumonia.
Lembro como se fosse neste instante: vi os olhos dele encherem de lágrimas quando eu entrei no quarto do hospital para visitá-lo. Recordo-me dele, neste dia, dizendo: "acho que não saio dessa, Nêga!". Aqueles olhos verdes fitavam o chão, o corpo tão magro, o balançar da cabeça em negação. Ainda ouço a ligação do hospital às 7h, do dia 7 de janeiro de 2011, requisitando os documentos dele e a confirmação de seu falecimento às 10h.

Ah! Como eu consigo me lembrar de tudo isto e esquecer de tantas outras coisas?! Lembro que no dia de hoje, há um ano atrás, eu não consegui chorar. Fiz nada no trabalho e no final do expediente eu fui direto para o velório. Lá algumas pessoas do trabalho me encontraram e eu segui para o apartamento sozinha. Meu melhor amigo foi até lá e não me deixou esmorecer no silêncio.

Dia desses eu encontrei uma partitura que meu pai subiu uma oitava à meu pedido. Vi a sua letra, seus desenhos de símbolos representando semínimas e colcheias.
Me deu uma saudade de: ouvi-lo com o tum-tum-tum do violão; vê-lo dançando uns passos desengonçados na sala; ver aquele sorriso de olhinhos fechados (tão igual ao meu ou o meu tão igual ao dele); abraçá-lo nas datas festivas, mesmo que com um afastamento de corpos (natural entre nós dois, eu que evitava tocá-lo) e apenas saber que ele estava lá para mim. Imortal.

Hoje é um dia complicado.

Ele não era santo e nem herói. Mas, foi e é muito importante na minha história. Hoje faz um ano que ele deixou de fazer parte, fisicamente, dos meus dias. Vai estar sempre na lembrança, pois a memória é a nossa única forma de sermos eternos.

Essa é para você, Pai:
"Nêga, vem cá,
vem ver só
como seu neguinho ficou
depois do tal dia neguinha
que você me deixou.
Quem me conhece
passa por mim
contando piada sorrindo.
Você está ficando acabado 
xiiiii
você está sumindo.
Você foi embora criança
minha alma ficou quase louca.
Você não me sai da lembrança,
seu nome não me sai da boca."
(Música de autoria desconhecida que meu pai, Antonio Joaquim, cantava para eu sorrir)

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Mordida

Eu sou a mordida.
Fruto da força do maxilar.
Contração de músculos.
Exercício dos dentes.
Desejo do estômago.
Sou a arma da fome.

Em mim se rejubilam salivas e glote.

Sou eu quem rasga a carne.
É meu ímpeto que sacia a sua necessidade.
Eu sou a coragem, a vontade.
Sou a provação do amargo,
o frescor,
a doçura.
Eu sou a loucura ou a tortura dos famintos,
selvagens e flagelados.

É na minha matéria
que você insiste.

Sou eu que te mato,
dou a vida e te faço calar.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Faz tempo

Faz tempo.
Tempo que eu sou o mesmo.

Há dias que não:
    tomo banho;
    troco de roupas;
    escovo os dentes;
    lavo o rosto ou
    me olho no espelho.

Há semanas que deixei:
    de cozinhar;
    regar as plantas;
    abrir janelas;
    discutir assuntos ou
    me interessar por algo.

Há meses que mantenho:
    o quarto em desordem;
    o telefone no mudo;
    a agenda fechada e
    as pessoas longe.
Eu cultivo o lixo.

Há tempos que não:
    sinto fome ou
    cansaço;
    saio de casa;
    tenho sono ou
    sonhos.

Eu sou o mesmo e estou morto.
Morto o meu respeito e
na vila vazia onde eu me escondi
amarelam os retratos
da vida que protelei; faz tempo.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Um amor de mesinha

Depois do natal José Carlos tomou a consciência da necessidade de possuir uma mesa. Ele passou o ano inteiro comendo com o prato apoiado nos joelhos. Então depois de muito adiar o assunto Zeca comprou uma mesinha. O objeto custou R$ 130,00 e ele achou que fez um bom negócio.
Pesquisou, comparou preços, utilidades do móvel, prazos de entrega e até condições de financiamento.
Depois de muito estudar as opções ele ficou com a mesinha supracitada.

O referido móvel era apenas uma mesinha, sem nada de adereços, design ousado ou milhares de gavetas, prateleiras ou compartimentos. Apenas uma mesa.

Quando ela chegou a euforia do Zeca fez com que ele passasse o dia inteiro de bom humor. Deu até gorjeta para o entregador.
Depois da virada do ano ele decidiu contratar alguém para montar a mesinha e qual não foi sua surpresa ao descobrir que para montar a mesa todos os montadores da cidade não cobravam menos do que R$120,00.

Arrasado pelo cartel da montagem de móveis ele não teria outro caminho senão ceder. Mas, renovado que estava pelo espírito econômico pós virada do ano. Ele mesmo resolveu como ultimo e único recurso aceitável cumprir a extenuante tarefa.

Hoje, fui visitá-lo no hospital. Ele martelou o dedo, tropeçou no papelão e tentou se equilibrar na madeira do tampo e, resultado, teve fraturas múltiplas na perna. Ninguém falou nada sobre a economia de não pagar o montador. Decidimos por bem culpar o martelo; que neste início de ano foi acusado, julgado e sentenciado por ter sido o vilão da mesinha; cumpre pena atualmente na caixa de ferramentas de um marceneiro.

Quanto ao Zé eu espero que ele retorne logo para casa. Mas, enquanto isto não acontece. Nós os amigos do Zequinha estamos fazendo uma vaquinha para o montador montar a famigerada mesinha.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

2012 já começou

Isso você já sabe.
Sabe também que o ano começou com chuva; muita.
Com aumento da passagem em Niterói.
Desmoronamentos na região serrana.

Que neste mês vai ter show do Chico Buarque no Rio de Janeiro
e que vai terminar a exposição de Oswald de Andrade em São Paulo.

Este ano está com pressa e eu estou atrasada.
Atrasada para o futuro inaugurado na primeira segunda-feira do ano.
Igual e diferente de tantas outras segundas.

Vamos embora que o expresso 2012 está em movimento.
Te vejo na próxima estação.
Até logo!