quinta-feira, 28 de julho de 2011

Lágrimas e lamúrias

Eu a vi chorando.
Sempre a vi chorando.
Desde que eu me entendo por gente ela está chorando.

Era por ser gorda; por ser sozinha; pela casa alugada e pela água fria.
Era pela morte do gato; pelo vizinho silencioso; por falta de uma amiga.
Era pelo mosquito de dia; pela cama vazia; pela panela e pelo preço da carne.
Era por ele voltar tarde; por ele não voltar e por ele ficar.

Ela estava sempre chorando, chorando pelos cantos, chorando pelas beiras
chorando a choradeira.

Cresci vendo ela reclamando e chorando.
Tanta lágrima, tanto rosto vermelho, a face escondida entre as mãos
e um gemer baixinho.

Não sei quanto tempo isso pode durar, mas não me lembro de ouvir dela
as palavras: que dia lindo! Amanheci bem! Sou feliz!

Ontem ela chorava, novamente, hoje também.
São tantas lágrimas e tanta incompletude que não sei dizer de onde vem.

Gostaria um dia de vê-la sorrir, gargalhar, se esbaldar em uma farra boba e que ela fosse feliz.


Enquanto isso não acontece nasce uma nova ruga em meu rosto por causa da lágrima que não
d
       e
             s
                  c
                       e.