segunda-feira, 23 de maio de 2011

Desabafo

Eu morei em uma casa, desde os meus catorze anos.
Morei com meus pais boa parte de minha vida.
Mas, em um determinado momento não consegui
mais viver sem me meter naquela vida rotineira
que tanto me incomodava.
Então um dia eu deixei a casa, já tinha idade avançada
acho que tinha uns 27 anos.
Não deixei meus pais, mas passei a vê-los menos.

Com o tempo eles criaram para si mesmos mais problemas
e um dia venderam a casa, pagaram dívidas e sem a casa
o meu pai morreu em dias e a minha mãe veio ficar comigo.

Hoje, sou eu quem vai ficar com ela.
Não por necessidade, confesso que poderia dobrar o
trabalho, me esforçar, insistir.
Mas, quero ficar com ela.
Olho para esta foto do céu que via da casa de meus pais
e não sinto saudades da casa em si,
mas sinto saudades de poder visitá-los sempre que tinha vontade.
Já não posso mais visitar meu pai nem a casa e nem mais verei o céu
por este ângulo.

O tempo muda e o tempo de ser feliz é o agora.

sábado, 21 de maio de 2011

Recado para as baratas

Disseram que o mundo acaba hoje, às 18h.
Não sei qual fuso horário o mundo vai escolher para acabar, portanto deixo um recado para as baratas, que deverão tomar conta deste planeta.

Donas Baratas,
favor ler este recado.
Sempre tive medo de vocês. Isso deve ter sido pelo fato de eu saber que vocês são muito mais resistentes do que eu. Vocês se mantiveram pequenas para se adequar ao mundo, sempre populosas escolheram não crescer muito e viver juntas no submundo.
Nós ao contrário decidimos andar de pé, inventar a democracia, a escrita e as tecnologias. Nos tornamos tão grandes que talvez tenhamos povoado demais o nosso planeta.
Sei que no fundo se for pensar em demografia vocês são mais populosas do que nós. Mas, a questão é o que fazemos do nosso mundo.
Se o mundo tiver acabado e vocês estiverem lendo isto eu confesso para vocês que fui uma humana feliz. Corri de vocês todas as vezes que as vi. Matei algumas de vocês com venenos poderosos, blasfemei vossa existência.
Dessa forma, sei que ficarão felizes se eu não existir mais e eu me pergunto o que eu temeria se vocês não existissem; talvez tivesse medo de elefantes.
Bem, Donas Baratas, imagino que devam estar agitadas para dominar este planeta caso o mundo acabe hoje às 18h. Portanto, deixarei-as em suas labutas.
Sucesso na nova empreitada e, a propósito, se o mundo não acabar amanhã continuarei combatendo-as na distância do aerosol.

Adeus, Um Blog Humano.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Ritual do acordamento

          Sempre que amanheço
          olho para os lados
          e vejo a solidão
          do quarto bagunçado.
          Ouço os gritos
          de mamíferos e vertebrados
          reclamando da rotina.

          Ergo-me em meio
          a folhas isentas,
          bolas de papel,
          meias e
          uma xícara vazia.

          Caminho com os calcanhares
          rangendo,
          as pernas trocadas,
          tocando paredes e
          me acostumando com a escuridão
          da sala.

          Tateio este infinito
          entre a hora do despertar
          e a janela sendo aberta.

Então olho para a rua,
          a luz do céu azul
          me deseja um bom dia,
          sinto a vida que vem dos paralelepípedos.
          Sorrio
          sem planos para este dia;

          estou acordada.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Escrevo

Escrevo enquanto espero.
Escrevo por que sinto palavras nas veias,
vejo cores nas unhas da mão
que está pousada por sobre a folha.

Escrevo pois ouço os adoentados,
seus sintomas e
uma risada solta que vem da calçada.

Escrevo pois respiro
esse cheiro de chuva
e este assobio da freada de ônibus... que passou.
Escrevo por causo do apito agudo
do guarda de trânsito.
Por causa do pilot e da caixa de grampos
que foram deixados na mesa.

Também escrevo pelo motivo que mantém as minhas pernas cruzadas
e da minha vontade em segredo.
Escrevo por medo.
Escrevo por vaidade.
Escrevo pela necessidade de não passar incólume nesta vida.

Então o arranhar da velha porta que ainda não aconteceu
surgirá para me tirar deste entorpecimento no qual... escrevo.

No intimo do corpo sinto o retrato de um alguém
que foi esquecido ou morreu e diante desta figura
que mostra inclusive algumas formas daquilo que sou...
...escrevo.

domingo, 15 de maio de 2011

Necessários



Os sentidos, pelo menos alguns dos cinco.
Oxigênio e as fragrâncias de flores.
Comida e temperos.
Água.
Família.
Metas rígidas e flexíveis.
Sonhos e sorrisos.

Além de todos estes: amor.


Não necessariamente nesta ordem.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Emoção

Tenho uma lágrima na garganta
e um suspirar profundo.

As minhas mãos teclam a tecla
sem sentido
e meus olhos se desfazem em lembranças.

Lembro de quando a barca chega;
de drops de halls.
Recordo de caminhar para o meu canto predileto
e ficar fitando a paisagem.
Na memória, uma torta experimentada
e tantas outras coisas.
Perfume, botões de camisa, planos de viagens.

Assim, engulo na saliva esse momento
tão eterno e tão efêmero.

Por trás dos óculos embassados
ficam os olhos de quem emocionado
neste momento aperta o enter e se vai.

Conhecer pessoas II

Nem sempre haverá caminho.
Ou um lugar seguro para ficar.
Nem todas as varandas serão o suficiente
e nem todas obras históricas em um museu
poderão ter o que contar.

Nem sempre haverá retorno.
Alguns caminhos se dividem.

Mas, sempre vai ter sido válido
afinal a vida é efêmera e toda as existências são significativas.

Agora é descansar para a labuta diária de amanhã
na rotina das caixas e da poeira e continuar sempre.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Uma carta

Oi,

eu escrevo na esperança de que você me leia e assim me lendo, me veja.
Eu sou apenas isto aí: essas palavras curtas ou essa pouca expressão.
Não me ensinaram a jogar pião e não sei fazer rodeios.
Odiei desde pequena brincar de roda ou correr em círculos.
Mas, desenhava nas margens do caderno longas espirais.

Sou só isso e talvez por isso eu seja prática, talvez seja por outros motivos, mas talvez... só talvez... hoje.

Digo hoje por ser hoje o dia. Aquele dia que consagraria um mês. Hoje, por seu descanso. Hoje, por ser o dia que eu chorei os meses de aniversário da morte de meu pai, a confirmação da mudança da minha mãe e quem sabe também a minha mudança. Hoje, por ser terça.

Somente por hoje, nem digo por ontem ou pelo final de semana. Hoje, apenas pelo hoje.

Sei respeitar, me ensinaram a respeitar e aprendi a me respeitar. Sou só isso.

Não há nada de prático nesta carta, ela não é uma receita de como me entender ou de como me enxergar; apesar do desejo de ser vista.
Escrevo esta carta na esperança de que você me leia, pois nenhuma outra forma de comunicação é mais necessária do que esta; agora.

No final tudo é apenas um emaranhado de palavras e muito do que foi lido nem foi dito e muito menos pensado. Não tinha a intenção de ser clara e nem de ser objetiva, pois sou péssima com as curtas palavras, curtinhas; palavrinhas.

Assim, me despeço desta carta e destas palavras sentidas.

Caminhando

As vezes as nossas palavras são como passos que caminham na direção do horizonte ou que se afastam.
Nem sempre o que as palavras dizem são os passos ao rumo certo e nem sempre o que é entendido seria a jornada correta para se seguir.

Talvez as palavras sejam como sapatos ao invés dos passos e calcem o pé que melhor lhe convier. Talvez em alguns momentos sejam sapatos apertados, que incomodem e em outros momentos sejam confortáveis.

Talvez as palavras sejam como pés ao invés de sapatos e caminhem por aí sem atenção. Em alguns momentos com calos pisando espinhos e em outros como massagens com pedicure depois de um dia de corrida.

Talvez as palavras não sejam nem uma coisa e nem outra. Mas, com certeza elas aproximam ou afastam.
Não há nada de errado com o texto escrito, muitas vezes, mas há muitas palavras na mente de quem lê.
Nem tudo o que será interpretado foi de fato dito, mas muito do que realmente for interpretado será o válido para os olhos do leitor.

Talvez... são tantos talvez.

Entretanto, as minhas palavras, palavrinhas, são sempre cruelmente acusadas. Pobres palavrinhas que só queriam dizer aquilo para o que foram feitas, mas caíram na malha fina dos estereótipos e dos dramas.

Eu, até entendo que as palavras que me chegam são frutos de toda uma história, mas não creio que tenham a mesma consideração com as minhas palavrinhas, tão curtas que deveriam ser práticas. Mas, que ao contrário sempre me levam para mais e mais explicações.

Assim, sigo caminhando e cada vez falo menos e meus pés, passos e calçados talvez um dia me afastem da mudez completa ou me aproximem de vez do silêncio.

domingo, 8 de maio de 2011

Fazendo releitura

Resolvi me reler.
Me reinventar para poder prosseguir.

Desta forma, vou reeditar alguns posts e excluir outros.

Na sala

Tenho na parede um monitor de tv que poderia ser uma janela para o mundo, mas não adaptei antenas.
Tenho também imagens de mulheres e seus ofícios, mas nunca queimaria um sutiã.
Tenho fiações expostas e laterais sem acabamento.
Nesta parede não há rodapé e o tom areia parece voar com o vento que toca de leve este cômodo.

A luz apagada desta sala faz com que as outras paredes, brancas, também façam parte deste momento com suas imagens e prateleiras, interruptores e caixas de energia, encanamentos e registros; tudo exposto nada escondido.

A unica janela na parede é uma passagem de ar, que tem grades e tela. Não há portas impedindo o caminho e é possível ouvir o som que ecoa no corredor e traz notícias da rua.

Esta parede tão areia e este teto com uma luz tão débil são os artificiais companheiros daqueles que habitam o silêncio das tardes de domingo. 

Em vão olho para o chão azul e tenho recordações do céu, o tão distante 
céu 
das paisagens de antigamente.

terça-feira, 3 de maio de 2011

O dia de amanhã

Vivo a indagação.
A indagação do dia vivido.
A indagação da possibilidade do dia seguinte.

Vivo a indignação.
A indignação do dia vivido.
A indignação de desconhecer o dia seguinte.

Vivo a vida.
A vida em cada dia vivido.
Cada segundo, cada hora radiante deste ou do próximo dia.

Me convida e me inquieta esse dia tão matuto que se aproxima.
Entre caixas e colas, etiquetas e poeira.
Esse dia empoeirado sairá das prateleiras
e irá acontecer em minha vida.

Esse dia que está para acontecer, que será arquivado em minha memória,
mas que só será arquivo morto após minha própria morte.
Ah! O dia de amanhã! Esse fabuloso horizonte que irá ser despertado pela aurora.
Não tenho planos profundos e nem tracei objetivos plausíveis.

Viverei-o, apenas. Assim como vivi o dia de hoje com indagações e indignações.

Conhecer pessoas I

Conhecer pessoas é se aventurar em universo desconhecido...

Mas, se o universo habitável é desconhecido eu imagino os milhares de universos em movimento confabulando com o invisível.

Conhecer pessoas é:
Tatear o escuro.
Abrir mão da solidão e da clausura de si mesmo.
Permitir.
Arriscar.
Enlouquecer.

Conhecer pessoas é:
Divagar sobre o horizonte.
Desdenhar da penumbra.
Balançar um cálice vazio por entre os dedos.

Conhecer pessoas é:
Olhar o desconhecido e seguir.
Nem sempre a caminhada é tranquila.
Nem sempre há sorte ou ouro na estrada.
Nem sempre há destino ou a chance de chegar.
Nem sempre haverá um lugar para ir.
Nem sempre haverá um outro lado no caminho.
Nem sempre... nem sempre.

Conhecer pessoas é se aventurar pelo talvez no universo desconhecido.

Perguntas e mais perguntas

Como responder se nem sei qual é a pergunta? 
Como me defender se nem reconheço como dignos os que me acusam? 
Como existir se a existência se tornou um lugar comum?

Quando os pensamentos seguem nesse ritmo o melhor é ir para Pasárgada deixando tocar no tórax o tango argentino. 

Tentando me auto descrever

I


Não sou a poetisa eleita e nem a garota de Ipanema, mas faço parte
dessa efemeridade e lido bem com isso.

Amo ler, escrever, descobrir lugares e conhecer coisas novas. Sou gentil, de natureza tranquila e prezo muito a sinceridade e a honestidade. Me desagradam preconceitos, falsidades e desconsideração.

II

Longe de ser a criatura sã e perfeita descrita nos dicionários como "pessoa"; eu sou uma pessoa, em movimento.

Tenho momentos de incredulidade e solidão.
Uma natureza sincera e crítica.
Sou contra preconceitos e mediocridade.

Em suma eu sou uma pessoa intolerante, mas de agradável sorriso.

III

Impaciente. Apenas.