quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

2009, esse ano menino

Antes de escrever essa postagem a xícara de café esfriou
os olhos vagavam pelo espaço.

O dia vermelho e chuvoso,
chuva grossa que pega e banha 2009

Mas ele... ele é um ano gaiato
menino
levado, agora lavado,
trigueiro do mato.

Esse ano foi menino curioso e aventureiro
arriscou
foi riscado
teve sua marca
e foi demarcado
marcado
tingido pelas mazelas das gripes e
pelas mortes dos ares

Esse ano foi arredio,
trocou Kioto por Copenhagen
criança mal criada, teimosa e temível.

Esse ano que é só um menino, pequenino e acuado já vai ser substituído.

Mas, diante do 2010 eu poderei dizer que no ano de 2009 eu vivi e que em 2010 será diferente, pois sou uma pessoa diferente agora.

Adeus menininho travesso e que 2010 seja tão jovem quanto você foi!

O café frio e amargo na xícara me dão previsões para a inédita aurora do ano seguinte.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Vida longa a fumaça

O dia amanhece com um lista de tarefas.

No ouvido não é o alarme do celular que me desperta, mas o barulho do corpo de bombeiros e o som das pessoas que descem apressadas a ladeira perto de casa.

Ergo-me na escuridão do sono e preparo-me para a labuta.

Por conseguinte chego mais cedo no trabalho e antes do bom dia eu recebo a notícia: o Plaza pegou fogo!

Qual não foi minha surpresa. Véspera de natal, eu sem ter comprado um panetone e o plaza resolve pegar fogo. Isso é que é levar a queima de estoques no limite da interpretação.

Só sei que do 10º andar do prédio onde eu estava eu pude ver toda a fumaça saindo do quinto andar da garagem do shopping e ganhar céu.

Sem opção de shopping a turba enfurecida ganhou as ruas e outras opções até então inviáveis, tornaram-se a única opção. Sendo assim, as ruas ficaram lotadas por hordas de compradores de última hora e as filas para o caixa e pagamentos em geral eram transtornos homéricos. Logo, a minha trajetória diária de véspera também sofreu alterações.

Encontrei o meu melhor amigo de infância e fomos enfrentar, juntos, a rua São João, a Mariza e o território hostil denominado shopping de baía. Depois de sanduiche do bobs e cinema dublado tivemos aquela sensaçãozinha de que precisamos de fumaça e fogo para mudar o nosso itinerário, pois de outra forma teríamos feito as mesmas coisas.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Eu não sou.

Estou dividida.

Entre a mordaça e a mordida.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Humana demasiado humana

As vezes me sinto humana, demasiado humana.

Apenas uma pessoa,vaga pessoa, vagando pelo mundo. Esse mundo nem meu e nem de ninguém, inexplicável mundo em que vivo.

Eu, pessoa do mundo.

Apenas isso, vivendo e sentindo, as vezes... as vezes

Do lado de fora

Ela estava lá sentada na soleira da porta e observava a gente que passava.
Pessoas em turbilhões, pessoas agitadas.
Véspera de natal.

Ali perto um avião decolava e ela continuava ali.
Mas, a frente uma criança chorava e ela estava ali.
Não obstante um motorista buzinava e ela sentada ali.

Assim as horas do dia se consumiam em observâncias da paisagem. Veio a noite faceira com seus mistérios iluminados ,ela entrou e fechou a porta; lá fora ficou presa a coragem.

domingo, 6 de dezembro de 2009

A barbárie de mim

Pensar a violência é refletir sobre a própria agressividade como atividade humana e compreender que suas raízes vão além da necessidade instintiva de defesa e ataque. A violência, dessa forma, poderia ser entendida como motivações do excesso agressivo no comportamento humano.

6 de dezembro de 2009

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Quando o telefone toca



O telefone tocou era ele. Com a voz rouca de quem mal acordou ele falou em tom sério. Não era do tipo que ligava e muito menos do tipo que oferecia visitas. Ele sempre passou a vida esperando que lhe procurassem. Então aquela ligação era a coisa mais incomum que poderia acontecer na quinta-feira abafada da metrópole esbranquiçada.

Ele ligou e perguntou algumas frivolidades. Ele, só ele falou, de repente desabafou um infinito de infortúnios desses que ocorrem na eternidade dos segundos e depois de cuspida todas aquelas reticências ele se calou. Hospedou seu rosto no telefone e deixou que apenas o som de sua respiração fosse ouvido. Do lado de cá da linha era possível senti-lo soluçando baixinho.

Mais nada foi dito, aquele silêncio da pausa que retém o grito na garganta, aquela pausa abençoada da frase perfeita para mudar o clímax mas que foge da mente na hora que deveria ser sacramentada. Pausa, afiada fugitiva.

Minutos depois ele foi visto atravessando a rua sem muita atenção. Os bombeiros deram explicações técnicas.

Ainda aguardo na linha o momento exato de encontrar as palavras corretas para ele que sofria de amor de mais.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

para Weber

Lembro-me do dia de reclamar de Weber.

Era uma aula de sociologia e depois de Durkheim veio a aula sobre Weber e eu fiquei chocada, depois de Émille ficava difícil entender o significado das ações de Max. Assim sendo, me postei a criticá-lo. Lembro-me vigorosamente de ter questionado superficialmente suas idéias e de ter me posicionado contrariamente sem ao menos entender a necessidade de suas iniciativas.

Pois bem:
Prezado Weber,

venho por meio desse post tentar explicar as minhas especulações superficiais. Não sei se você foi cremado ou enterrrado, se porventura desapareceu no mar ou se foi abduzido, não sei como teve sua existência finalizada no corpo físico, ou se quem sabe ainda vive escondido em um paraíso natural depois de ter encontrado a fonte da juventude ou a chave da vida eterna. A única coisa que nesse momento eu sei é que a burocracia mata.

Querido Weber, não me leve a mal, na verdade tente não pensar sobre mim nesse momento, esqueça-me, esqueça que eu sou um indivíduo pousado sobre uma vida efêmera, ignore as minhas possibilidades e toda a minha existência eu lhe imploro que faça caber em uma caixa de arquivo. Dessa forma, agora que estou arquivada leia-me.

Eu não aguento mais a burocracia, eu sei que tem utilidade, mas eu me canso. Estou esgotada. Afugento-me em redações para personagens da história, converso com mortos, discuto com grampeadores e disserto sobre a poesia moderna com as paredes. As paredes que falam, ouvem.

Tudo culpa da burocracia. Quero culpá-la, quero acusá-la, tenho o direito de apontar dedos, uma vez que eu os tenho. Então culpo a burocracia, sendo assim. Vim por meio desse post me justificar.

Culparei a burocracia até achar outro cristo para crucificar, nem que seja minha plena incompetência. Mas, culparei a burocracia. Se quiser defendê-la agende um horário para falar comigo. Depois de ser protocolado o seu pedido aguarde o deferimento e se não cair em nenhuma exigência, aguarde a publicação da sua audiência e dentro do prazo determinado se não houver nenhum recurso poderemos conversar sobre isso.

Desde já grata pela a atenção.

ofício 000-1981-2009-02-12-rs

Branco não te quero; verde

O dia amanheceu verde.

Como em todos os dias de temporais, o dia estava verde e cinza. Apenas sendo o dia-a-dia dos rotineiros afugentados. Algumas buzinas gritavam e pessoas sacudiam-se no trânsito da metrópole. Assim, lentamente o dia amanheceu verde, não o verde vulgar das revistas, mas o verde puro das passeatas.

Logo ele estava lá delicadamente pousado por sobre a existência, sabendo do seu prazo de validade. Dia verde condenado.

Então o branco veio, branco alvo das nuvens e neve. Branco da soma de cores, branco limpo, branco fosco. Assim o verde foi clareando, ficando verde clarinho até que sumiu por de trás da névoa e se foi, perdido para sempre entre uma pincelada e outra. Ele que me chocou e que me fez tanto temer, acabou sendo vencido e eu vencida voltei para a cotidianeidade do uniforme branco. Homogêneo branco.

Branco não te quero mais, não podes mais possuir a minha alma e domar as minhas intenções. Branco vá-te daqui, vá embora para o céu das tardes de outono, deixe o verde esmeril dos verões comigo. Esse verde cantiga lírica que emerge no meu olfato e bagunça minhas emoções. Esse verde que fez de mim um ser mais colorido e que me mostrou com seu sumiço o quanto é importante ousar e tornar apropriado o despropositado.

Voltarei para casa a tardinha sabendo que não terei mais na cozinha minha parede verdinha.
Difícil é vê-lo sorrir depois de um beijo de bom dia, tê-lo ali se espreguiçando tão perto, sem o risco de se perder naquele sorriso.

Difícil não querer abraçá-lo quando uma lágrima lhe desce a face ou quando seus olhos vagam na imensidão dos pensamentos.

Difícil não querer tocar aquele cabelo para senti-lo ali, vivo.

Difícil não querer sentir o cheiro da terra que brota de suas pequeninas mãos, que me acenam de longe.

Todo esse menino levado no sabor dos meus dias. Ainda quero vê-lo chegar do mundo e encantar-se com as dobras que fazem a ponta do lápis. Um dia desses ele irá atravessar aquele portão e não mais voltará e então saberei que um dia eu fui feliz.