terça-feira, 29 de setembro de 2009

Florzinha de algodão

Uma pequenina flor de algodão, foi carregada pelo vento e, assim, dissipando-se no ar ela foi se movendo. Até que uma brisa contrária a jogou em meio a uma enorme plantação de roseiras.

As rosas ali plantadas, com todas as suas cores e perfumes ficaram desgostosas de ver por ali a flor de algodão.

Entretanto, a florzinha estava cansada da viagem, meio que desfalecida pelo esforço e tentando recobrar suas forças, que apenas olhou para todo aquele colorido e sorriu.

Com isso, as rosas acharam que a pequenina viajante zombava delas. A florzinha, novamente, ergueu-se sobre o caule enfermo e fitou as rosas demoradamente, porém ainda muito debilitada voltou a deitar.

Tomadas de fúria as rosas cambalearam para frente e para trás de forma que os espinhos furassem aquela atrevida que ousava pousar por ali. Só que a florzinha de algodão não tinha mais resistência e ficou ali apenas olhando e descansando. As rosas foram agressivas, violentas e cruéis. Com esbarrões e empurradelas espinharam em todas as direções. Furaram o ar e o perfume, assustaram os pássaros, deixaram cair as pétalas e afugentaram até as borboletas. De tal forma que depois de algum tempo elas murcharam pelo excessivo exercício.

Já a florzinha de algodão, porém, tinha recobrado as energias. Os espinhos das rosas eram tão grandes, a agressividade era tão desmedida e os golpes tão desnorteados que não conseguiram acertar a tênue florzinha, que era toda de algodão, leve e pequenina.
Dessa forma, ela se esticou por sobre a própria haste verdinha e se lançou ao vento, seguiu viagem. Nova brisa a levou para outras paisagens.

Contudo, as rosas continuaram ali para sempre lamentosas de seu destino plantado.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

duas semanas de silêncio

Quase duas semanas sem escrever.
Alguma coisa aconteceu.

Mas, as palavras não cantavam.
Como a memória não se encanta
só sei que alguma coisa aconteceu.

Vou então pormenorizar o que me lembro.

Uma flauta tocou música e uma guitarra quis ser baixo.

Uma andorinha fez primavera e uma pétala se desprendeu da flor de origem.
Um gato se assustou com a mariposa e uma lagartixa encontrou o par.

Um bêbado se atirou nos braços do sono e uma suicida decidiu não se matar.

Um jornal foi lido na banca e uma barca resolveu navegar, uma senhora que se balançava na cadeira resolver escrever um poema e enquanto a sessão do cinema não acabava um pipoqueiro sorria contente para uma estrela que cintilava no céu que teimava em ser o céu nosso de todos os dias e ainda assim era o teto mais lindo de todos os tempos.

Foi só isso que aconteceu das coisas que me lembro.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Do saguão até a varanda

Ela entrou no saguão. Todas aquelas pessoas desconhecidas. Ela se sentiu esmagada pelos olhares e muitas vezes se sentiu esmagada pela indiferença. Mas, ela tinha que cruzar o saguão.

Esse enorme espaço que a separava da varanda, de onde poderia fitar o céu e sonhar com a vida.

Ela caminhou por sobre tapetes que cobriam o mármore fino, evitou olhar para os lados, mas seus olhos teimavam em querer constatar a multidão. Ela pisou por entre as mesas, caminhou por entre as gentes, andou por entre os objetos, como se só a varanda do céu estrelado valesse a pena.

Seguiu com o rosto reto, o corpo ereto e as passadas firme/vacilantes e assim ela com alguma dificuldade terminou de cruzar o saguão. Não soube dizer quantas pessoas deixou para trás e nem quantas passaram por ela, não percebeu da arquitetura e nem da música que tocava ao fundo. Mas, ela consegui. Chegou na sacada da varanda; de lá se jogou.

domingo, 13 de setembro de 2009

Segundo que passa

Não tem desenhos que esbocem e nem palavras que traduzam o segundo que passa aleatóriamente na existência.

Não tem cela que segure e nem magia que complete o segundo que passa e vai da gente.

Não há esperança que fale e nem céu que cubra o segundo que passa e vai da gente.

Pois esse segundo que se foi, esse segundo independente, esse segundo que não olha para trás, por que já ficou para trás. Esse segundo no interior de nós, viveu e se consumiu em si mesmo.

Com sorte lembraremos dele mais tarde. Com sorte ele terá sido bem vivido e muito bem aproveitado. Esse segundo que passa cantarolante nas nossas existências.

Dia a dia

Uma caminhada
espera na calçada
cobrança de horário
atraso e pontualidade.

Viagem longa e solitária.
Solitário andar.
Descer, desvendar
sorrir
socializar.

Subir.
Tentar, falhar
tentar novamente.
Insistir.
Esperança
na
ajuda externa
e na força de dentro
que surge.

Suor, sangue e lágrimas.
Persiste-se.
Suor, o corpo dança e balança.
Sangue, vergonha e força no infortúnio.
Lágrimas, o medo de fracassar.
Lágrimas, o medo.
Lágrimas, agradecimento.

Insistir, persistir, resistir.
Esforçar-se, treinar, estudar.
Lutar, tentar para valer.

Sempre, sempre em frente.
Mas, o andar nem tão solitário.
Não mais tão solitário por entre as gentes.

sábado, 12 de setembro de 2009

Corpo cansado

O meu corpo estava cansado.
Era como se tivesse carregado pedras o dia inteiro. Mas, o dia tinha se mostrado simples e singelo. Mas, ainda assim as pernas não obedeciam.
Meu corpo pedia descanso e clamava por uma pausa.
Mas, em todo organismo vivo existe uma vontade, aquele algo que impulsiona o sapo a pular solitário no lago e ao pardal a voar para uma outra árvore.
Esse algo impulsivo que muitas vezes vai contra as nossas habilidades ou possibilidades físicas é o que me mantém viva.

Essa necessidade de ir independente da minha condição, essa necessidade de viver apesar de toda a efemeridade.

O meu corpo estava cansado, mas minha essência exigia por movimento e por isso continuo indo.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Momentos e efemeridades II

Dois conhecidos se encontram e começam um diálogo:

- Olá!
- Oi, como que você está? (pausa de tempo) Que bom te encontrar, está bem humorado!
- Bem humorado!?
- Aham!!! Não está bem humorado?! Com aquela acidez natural do seu humor sarcástico!!! (risos)
- Preciso ouvir isso mesmo?
- Ops!! Eu gosto do seu humor. Pelo menos do que eu me lembre do seu humor. (pausa de tempo) Então, vai fazer o que hoje?
- Ainda nada! Talvez fumar um mais tarde. (pausa de tempo)
- Uau! E o q mais? (tempo de silêncio)...Ué! Vamos sair? Mais direto do que isso só seta Sioux, né! (completa)
- Vai fumar um comigo?
- Isso é um convite? (expressão de surpresa)
- Não, isso é apenas uma pergunta.
- Não, não vou fumar um contigo. Mas, se quiser estar comigo eu gostaria de estar com você.
- (sorriso amarelo)
- O que foi?
- Vou para casa dormir um bocadinho! Ver se melhora essa dor de cabeça. Para daí eu começar a beber!
- Ah tah! Bons sonhos.
- Beijos! A gente se vê!

Carta resposta

Larissa,

confesso com o coração cheio de alegria que sua carta trouxe luz aos meus olhos. Estou emocionada.
É a primeira vez que recebo um presente pelos correios e ainda mais algo tão valoroso e colorido de afetuosidade.
Fiquei imensamente surpresa com sua iniciativa de escrever-me; com o carinho de suas palavras e com a atenção dada a cada detalhe que fizeram com que ao abrir o envelope um sorriso se estampasse em meu rosto.
Como você sabe, algumas recordações de Turiúba são triste e carregadas de melancolia. A caminhada sob o sol em direção a necrópole onde foi abrigar o destino de um amigo querido. Amigo o qual eu nem consegui me despedir a tempo.
Essa Turiúba que é a mesma da chuva forte de noite, do rio barrento. Turiúba que convida a gente por caminhos que escorrem lágrimas e que cruzam capivaras.
Ao ler sua carta eu recordei de detalhes. Nosso rápido encontro, das fotos na fazenda, do sorriso do Anderson e do silêncio do Rodolfo.
Graças a sua carta eu pude ouvir na memória o som das maritacas que no final da tarde cantavam na praça, em frente a igreja.
Muito obrigada por resgatar em mim todas as imagens que nenhum postal pode registrar. Imagens de um momento vivido que não voltará mais e que fará para sempre parte da minha história.
Essa Turiúba tão distante, mas de amigos tão próximos.

Novamente, muito obrigada! Beijos, Andrea Mirati

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Quando as mulheres caminham

Duas mulheres caminhavam, lado a lado.
Não eram amigas de infância e tampouco detinham enormes afinidades. Em verdade, tinham pouco a ver uma com a outra, mas o momento fazia com que estivessem próximas.

Essas mulheres pouco disseram uma sobre a outra e pouco sobre si mesmas, apenas apreciaram a companhia mútua sem grandes interpelações. Dividiram sorrisos, foram poucos. Dividiram o ombro, sem perguntas ou conselhos. Dividiram horas sem gastar a presença uma da outra.

Dividiram a existência sem desgastar ou aprofundar nada. Ficaram ali na necessidade da presença uma da outra, na necessidade de estar próximo de um outro ser vivo e elas se bastaram assim.

Duas mulheres caminhavam, lado a lado, sem rompantes ou superficialidades apenas caminhavam unidas pela presença uma da outra.

Não, elas não eram irmãs e nem tinham um histórico de amizade. Pouco sabiam do mundo e menos ainda de si mesmas. Mas, mesmo assim caminhavam. Pois, muitas vezes basta ter ao lado uma pessoa para que nada mais precise ser dito ou explicado.

Momentos e efemeridades

Dia desses duas conhecidas se encontram por acaso e começaram um diálogo:
- E aí, tem visto o pessoal?
- Não, faz um tempo que não vejo o pessoal.

(fica aquele silêncio de falta de assunto ou de incômodo causado pela troca das sentenças)

- Eles disseram que apesar de terem ido embora que iriam voltar para me visitar. Mas, eles nunca vieram.
- Não tenho visto eles, mesmo!
- Pensei que viriam, fiquei esperando! (aquele silêncio que quer dizer algo)... achei que iriam vir, que se importavam!
- Não tenho visto eles, mas imagino que deva ser conflito de horários e agenda cheia.
- Você sempre aparece, mas não é para me ver e sim por que passa por aqui.
- As vezes conseguimos estabelecer vínculos e as vezes esses vínculos conseguem ser mantidos. Mas, na maior parte das vezes serão apenas momentos experenciados.
- Não gosto de me apegar! Sinto falta do pessoal. Não sei onde estão e eles nunca vieram me visitar.

(fim de conversa)

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Eu hoje recebi uma carta

Hoje eu cheguei no apartamento e tinha uma carta endereçada para mim.

Ela tinha como remetente uma amiga da cidade de Turiúba.

Eu tentei em dez rascunhos escrever uma resposta que pudesse demonstrar para ela o tamanho da minha emoção

mas não consegui.

Ainda não consegui.

De repente aquele envelope se abriu e meus olhos se encheram de luz e minha mente se encheu de lembranças.

Muitas memórias tristes, algumas felizes e mais a certeza de ter feito grandes amigos

Eu hoje recebi uma carta e eu nunca tinha recebido até então um presente tão bonito pelos correios.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Erros na tentativa de acertos

A gente erra tentando acertar.

Muitas coisas ficaram presas em minha garganta:

insultos não pronunciados;
desculpas não ditas;
declarações não feitas;
amores não anunciados.

Muitas coisas ficaram presas no impasse do ser:

mãos que não foram dadas;
abraços que foram travados;
sorrisos reprimidos e outros exagerados;
amores não arriscados.

Muitas coisas deixaram e outras sucumbiram por não ter sido. Mas, o pior é quando a gente erra tentando acertar. Dizem que o pior é não tentar, mas as vezes parece que tentar causa mais danos do que o simples ócio.

Daí, eu me arrependo de algumas coisas que:

foram ditas; intervenções desnecessárias; agressões vazias; discussões despropositadas e todas as outras ações que no final das contas só geraram antipatia.

Não vim ao mundo para ser simpática ou antipática e, logo, não tenho que vender tal ou tal imagem. Devo apenas viver a minha vida e se eu incomodar a alguém eu lamento, mas vou continuar vivendo, dormindo e sorrindo apesar disso.

O que as fotos não captam

Esses dias olhava algumas fotos nas quais eu sorria e tentei me lembrar como eu me sentia realmente naquele segundo, naquele momento e descobri que em mais da metade das fotos eu só sorri para sair bem e que na maioria dos momentos eu estava feliz, mas que as fotos eram exageradas.

Fotos exageradas como se eu quisesse comprovar para o mundo que sou feliz, como quisesse demarcar essa felicidade aos outros e quem sabe dessa forma me convencer da tal alegria.

Dessa forma, ao atrever-me a olhar novamente para as fotos, posteriormente a reflexão, eu não mais me reconheci naqueles sorrisos. Então apaguei as fotos e sei que os momentos bons ficarão na lembrança e que alguns serão esquecidos, mas sei agora que não preciso de uma imagem para demarcar o quanto eu estou feliz pois tenho no ouvido o som do sorriso de pessoas amigas e do vento de lugares inacreditáveis.

Se eu fecho os olhos agora eu sei o que pensei quando desci o Insano em Fortaleza, o que ouvi da minha consciência quando fui inquirida no interior de sampa e como foi caminhar em um País estrangeiro, completamente sozinha.

As fotos não captaram isso, coisas únicas da minha pouca memória.