quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Responder recados

Não existe coisa mais entediante do que responder recados.

Trata-se realmente de uma troca de monólogos, pouco articulados e de comunicação duvidosa. Fora os que simplesmente existem para cumprir uma função fática da existência. Ou seja, fora os recados que criamos simplesmente para não sermos esquecidos e nos sentirmos vivos.

Dessa forma, tão entediante quanto escrever recados é responder recados. Tem vezes que me perco na porta da geladeira entre ímãs, contas, lembretes e recados. Me surge deveras complicado dizer em um bilhete coisas que provavelmente levaria a semana inteira para argumentar.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

O capote, Nicolau Gogól

O Capote, de Gogól é um daqueles contos que quando lidos fazem com que você precise de um tempo para acomodar as informações e impressões obtidas. Dessa forma, Turgueniêv teve que esperar para ser lido. De Gogól eu já tinha tido a oportunidade de ler Taras Bulba e o Nariz. Ainda pretendo adquirir Almas Mortas.

Akaki, de O Capote, me lembra muito o Senhor K. de O Processo de Franz Kafka, pois assim como K. o funcionário Akaki se submete a uma Excelência que ele nem sabe qual função tem, pertencente a um Ministério que ele nem sabe qual é e do que trata. Relembra também o Fabiano de Vidas Secas de Graciliano Ramos, pois Akaki perde a capacidade de uma comunicação eficaz em suas frases incompletas e relembra a esposa do Fabiano, pois ela queria ter uma cama como a do Tomás da Bolandeira e o personagem de O Capote queria apenas o capote.
Esse personagem relembra também a Macabéia da Hora da Estrela de Lispector, pois ambos viviam suas vidas de forma pacata, sem agredir ninguém, vivendo sem ofender e aguentando toda a sorte de infortúnios, fora a privação de coisas bem basilares para a satisfação de desejos simples. Macabéia faz uma dívida com a colega de trabalho para pagar a cartomante e Akaki deixa até de comer e passa a andar nas pontas dos pés para não gastar os sapatos e conseguir a soma necessária para pagar ao alfaiate.
Fora o fim de Akaki que relembra o tratamento recebido pelo personagem da Metamorfose de Kafka e da Morte de Ivan Ilitch de Tolstoi. Assim como relembra trechos das Memórias Póstumas de Bras Cubas do Machado de Assis.

Por tudo isso, O Capote é um conto da literatura russa que deve ser lido e relido e mesmo nas partes mais fantasiosas pode-se ainda encontrar o inédito da rotina, da sujeição e da mediocridade humana. Além de poder fazer diversas conexões com outras grandes produções da literatura mundial.

Quando os olhos não lêem a vida segue


Um email foi digitado, não sei de que forma, não vi quando foi digitado e a memória fraqueja sobre o nome do remetente. Portanto, um email foi digitado e o interesse é de que ele fosse lido. Para isso um título foi cuidadosamente elaborado.
Não qualquer título, mas um daqueles que quando o destinatário lê chega a sentir um formigar nas pernas e um soco no estômago, um soco bem na boca do estômago recebido após almoço em churrascaria.
Assim ele foi elaborado letra por letra. Pois os teclados são assim nos fazem soletrar as letras até formarmos as palavras e alguns até separam os números para não nos confundirmos. Dessa forma, cada letra foi posta com uma ordem específica com o intuito de formar palavras e essas palavras se encadearam e formaram frases. Sendo que as frases compunham não uma poesia e nenhuma música erudita, tampouco notícias internacionais ou banalidades do humor diário. Tratava-se de um diálogo, apesar dos emails parecerem monólogos intercalados esse, contudo, era diferente. Pois era composto de um diálogo; a conversa entre dois amantes.
Não se tratava de mensagens de amor restringia-se a apresentar objetivamente com direito a travessões a conversa entre dois amantes.
...
Até agora ele não foi lido e quando os olhos não lêem a vida segue.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

A morte estala

Enquanto eu descia a rua da casa de minha mãe duas crianças cutucavam com um galho e um pedaço de ripa de madeira um filhote de pombo.
O bicho demonstrava nítido cansaço e escondia-se debaixo de um carro, encurralado pelos dois lados e cercado por trás por uma calçada ele ia de um lado a outro, sem poder voar.

Passei por eles e chamei a atenção das crianças, reclamei da judiaria, mas eles me ignoraram.

Assim, segui para o ponto de ônibus lá pude ver quando um dos garotos arremessou o pequeno pombo na rua, o sinal aberto fez com que ele se apavorasse ainda mais. Ele não sabia ou não podia voar e esquivou-se como pode dos veículos em velocidade. Um carro parou, outro e outro. Mas, o ônibus nem deve ter percebido que passou por cima dele. Eu virei o rosto e pude ouvir o ruído do corpo sendo esmagado.

A morte estala. Os garotos não estavam lá para verem do que foram responsáveis. Mas, ainda assim a morte estalou aos meus ouvidos e o corpo do pombo no asfalto mostrou para mim toda a minha incapacidade e inércia diante de atos e fatos tão lamentáveis.

Não sou defensora de pombos, acho eles sujinhos, mas abomino qualquer tipo de violência. A morte estala nos ouvidos e percebo que somos tão efêmeros como pombos jovens nas mãos de uma criança.

domingo, 23 de agosto de 2009

Exposição no CCBB - Virada Russa

A exposição Virada Russa foca sua atenção na produção artística criada na Rússia desde o começo do século XX até a década de 1930, importante não apenas para a cultura russa, mas para toda a arte internacional daquele período.

O conjunto de obras selecionadas inclui a produção de importantes artistas do período, como Kandinsky, Maliévitch, Chagall, Rodchenko, Tátlin, Goncharova, entre outros. Ao todo, são 123 obras, todas pertencentes ao acervo do Museu Estatal de São Petersburgo. A mostra tem curadoria de Yevgenia Petrova, Joseph Kiblitsky, Rodolfo de Athaydee Ania Rodríguez Alonso.

De 23 de junho a 23 de agosto (Até hoje)
De terça a domingo, das 10h às 21h
1º andar do CCBB

Entrada Franca!

sábado, 22 de agosto de 2009

Por Carla e Caio


Esse risco está aqui pois no cimentado em frente ao palco eles flutuaram bailando um forró para lá de arretado.

DeathNote

Fazia algum tempo que eu não lia mangá.

Mas, me foi posto nas mãos o DeathNote, que em matéria de prender a atenção ganha 10 com louvor. Um bom exemplar para quem curte o gênero, com boa qualidade de texto e de traços e uma trama muito interessante sobre o mundo dos humanos e o mundo dos Shinigamis.

Os deuses da morte inclusive com seu cadernos dão um tom engraçado a história que tem seu enredo baseado nas guerras mentais de dedução travadas entre Kira e L.

Mas, se me perguntar se o Kira que imagino é como o da revista eu responderei que não. O Kira que imagino é simplesmente como o desenho abaixo.



Sobre DeathNote, agora só resta esperar uns dois meses pelo próximo volume.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Riscos e rabiscos

Paisagem interior

Ela vivia sempre na defensiva.
Antes de qualquer coisa, mantinha um pé atrás para evitar surpresas.
Havia se acostumado a não gostar das surpresas e nem em confiar demais.

As pessoas para ela representavam um perigo constante e ela não sabia como agir sem ter o controle da situação. Portanto, cercava-se sempre de pessoas que pudesse controlar e ou coagir dependendo da situação.

Com o passar do tempo e da distância que ela aprendeu a manter das pessoas ela desenvolveu técnicas e métodos de defesa e afastamento em um nivel de aprimoramento e crueldade dignos dos filmes mais intensos de drama.

Assim, as frases feitas ou olhares de desdém sempre formaram uma dupla infalível para que ela mantivesse a sua auto-segurança.

Porém apesar de todos os seus esforços para manter-se na segurança do isolamento. Ele não se incomodou. Veio e ouviu toda a sorte de teses da banalidade e sorriu. Teve um sorriso inocente no rosto enquanto desconstruia um por um dos argumentos dela. Olhou para ela como quem olha para uma criança acuada e estendeu sobre os ombros dela suas mãos. Naquele instante ele igualmente sentiu o peso do fardo daquela pessoa comedida, que vivia apenas para se defender.

Com o decorrer daquele momento o diálogo tornou-se um espelho e ela pode se ver no reflexo. Ela reconheceu, desconheceu e se conheceu nas partes mais escondidas dela mesma. Ficou de frente com a própria fragilidade e pode perceber um outro paradigma de sua força.

Depois ele deixou ela ali sentada, chocada pelo silêncio quando ele partiu.
Diante da paisagem hostil ele conseguiu encontrar uma paisagem interior; ela, uma pessoa.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Aos que me julgam: "Sim, fui eu!"

Cansada de ser culpada pelo buraco na camada de ozonio, pela crise economica mundial e pela extinção dos dinossauros.
Decidi que antes de ser ofendida e culpada iria logo assumir a culpa, beber a cicuta e ter com os falecidos.
Esgotada desses tribunais que desconsidero, formado por magistrados da hipocrisia, e arautos da verdade. Prefiro dizer: "Sim, fui eu!" e fim de conversa.
Sou culpada por tudo, da reeleição do Bush até o derretimento da calota polar; do vexame do timão até o holocausto; sou culpada pelas guerras no Oriente e por não encontrarem o elo perdido; responsável pela gripe suína e pela caspa.
As pessoas não são um tribunal que eu reconheça como de valor.

Aos que me julgam sem me conhecer: "Me economiza! Pula a novela que eu quero assistir o filme. Portanto, 'Sim, fui eu!' está satisfeito? Sua vida ficou melhor, assim, me culpando pelas mazelas do mundo?!. Então vá em frente e goze. Pois, eu tenho uma vida inteira para viver; e é a minha vida".

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Mais uma história de bunda

I

Na banca de jornal da esquina tem cartão postal e nele está postado uma fileira de bundas pro alto.
Na mesma banca tem bundas nas revistas e nos jornais. Livretos de como cuidar do seu material "popozístico", dicas de malhação, dieta e até de posições para sentar sem que prejudique o sentido almofadado dos glúteos. Fora todas as outras teorias, teses e manuais teórico/práticos do uso do reto que podem ser facilmente encontrados dependurados pelas esquinas e vitrines do dia.

Logo, uma Ode as Bundas.

II

Se existe uma coisa que é comum a toda a humanidade essa coisa é a bunda. Dificilmente, encontrará a andar pelas ruas alguém sem bunda. Pode até ser um bunda murcha, um desbundado ou um alguém "desbundado" com algo. Partindo dessa premissa de algo comum a espécie humana eu começo, inclusive, a cogitar a possibilidade de que 75% da humanidade seja feita de bundas. Sendo assim, tem que começar a haver uma flexibilidade de entendimento em relação as bundas humanas e aos humanos bundas posto que senão não teremos com quem conversar na baladinha. Lugar comum para os tipos Bunda mole e caras de bunda.

III

Ser mulher no Brasil e não ter bunda é como ser loira sem cabelo, não tem razão de ser. As pessoas julgam a beleza brasileira pela quantidade de gordura acumulada no gluteos e palmas para as mulheres frutas nas feiras da estação.
Facilmente observada de frente a fêmea tem que continuar a caminhada para que o macho e as machistas confiram a capacidade anterior da parte traseira onde será cogitada 80% da beleza do exemplar do gênero feminino.
Como as travestis também são figuras de aparência feminina essa Bundificação extende-se a elas que quando prestadoras de serviços noturnos expõem os atributos siliconados ou bem torneados por malhação no campo de visão de motoristas e transeuntes.
Dessa forma, as bundas estão aí no mercado ou caminhando gentilmente virando a esquina, subindo as escadas ou na fila do banco.
Mas, eu que tenho bunda e não sou bunda me indigno.

IV

Ouvi esses dias de uma amiga que tem um corpo bem torneado por musculação e Yoga dizer que estava cansada de ser uma bunda para os homens e depois completou no mesmo diálogo com a seguinte sentença: "Apesar de que a calçinha com enchimento traseiro está uma pechincha e quem sabe essa seja a unica forma de arrumar um par".
Essa é a filosofia bundística moderna, fazendo lavagem nos nossos pensamentos e contribuindo para uma grande produção reto-esfincteriana onde "cocôrdamos" com tudo que nos é estipulado, sem questionarmo-nos.

Em busca da framboesa perdida

Tempo passando
necessidade de sabor
não o sabor de pitanga colhida
não o sabor de goiaba roubada

Mas, o doce sabor de framboesa perdida

Assim, as horas consumiam
o silêncio da iguaria desejada

Em vão percorriam-se desertos
e flutuava-se interrogações
nas ventanias

Porém a hora se fazia eminente
e fez-se florir em cachos
nas calçadas

Sob a atenção reta
do Santo Chico
a framboesa das horas
se derreteu em sorrisos
adocicando os lábios
e a noite enluarada.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Entre um passo e outro

A tarde ainda ia alta e a dança começava sob os pés.
Dois para lá e dois para cá, gira volta e marca o passo.
Assim foram algumas horas.
No início da noite ainda ouvia-se o marcar de: frente, um, dois, três e pausa.
A noite ia lenta e começava a ficar sonolenta.

A marcação da dança confirmada por um som agradável fluía aos ouvidos em: lado lado, frente frente, marcou e gira, marca com a direita a frente, a dama, e assim seguia.

Fim de noite, pernas cansadas, ânimo renovado nos sorrisos e satisfações.
Amanhecer do dia seguinte: para frente, pausa, para trás, pausa. Depois uma hora de tranquilidade e atrás atrás, frente e atrás segura, marca e um, dois e três.

Entre um passo e outro nada além de um passo e outro. Na certeza de boa música, em um deslizar por chão diferente e na presença de pessoas distintas.

Antes do almoço um parabéns cantado era aniversário de alguém. Entre um passo e outro passa o tempo. Com ele se vão esses momentos que um dia farão parte das gavetas do meu esquecimento.

Ganush no Edredon

Vou ser honesta. A janela do quarto estava aberta, a beliche de cima vazia, mas nela tinha uma sacola plástica que balançava ao sabor do vento. Daí fiquei pensando e pensando e me lembrei de Ganush que no meu pesadelo estava deitada de bruços do meu lado na cama e olhando para mim com aquela boca aberta e sem dentes. Uma gosma verde escorrendo pelo queixo e caindo por sobre meu ombro descoberto, a baba grossa meio morna vindo daquela boca sombria e aquele olho direito de vidro fixado em mim.

Ou seja, não consegui dormir e resolvi ler um pouco e vim para a net escrever um trabalho que tenho que entregar.

Lá fora tem uma coruja com insônia fazendo barulhos nefastos aos meus ouvidos sensíveis.

Fico pensando: "será que esses monstros e demônios existem mesmo?!...". Depois de uns minutos prefiro ficar com meu ceticismo, que mesmo assim não afasta a Ganush do meu edredon.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Filme trash

Era sábado, abafado, atípico para o inverno e eu decidi ir ao cinema.

Como cinéfila que sou requisitei a presença do meu melhor amigo de infância de todos os tempos. Enquanto comentava com ele dos idos da semana e questionava sobre o que ele andava lendo passamos em frente ao cinema pois a idéia era assistir ao filme nacional "Os contadores de história" ou "Tempos de paz", mas uma obra do tão famoso Sam Raimi nos chamou a atenção. Lá fomos nós dois assistir ao trash no cinema. Para surpreender o filme era realmente trash.

Nos foi poupado cenas do tipo "albergue" e clichês do consagrado terror japonês com atores americanos. Sobrou sangue na moda "Kill Bill" e o som lembrou o "Teaching Mrs. Tingle (br: Tentação Fatal)" assim como a forma de condução do suspense.

A atenção fica para a construção do personagem da protagonista que é a típica loira dos filmes de terror, mas nem tão estúpida e muito menos tão boazinha. A tentativa de humanizar o personagem, atribuindo-lhe falhas de caráter teria enriquecido a história se a atuação não tivesse sido unicamente convincente na parte em que a personagem come sorvete.

O que vale mesmo no filme, é que tinha fila no cinema e isso pode vir a gerar uma renovada no gênero que anda muito entediante ultimamente.

P.S.: eu tive pesadelos.

domingo, 16 de agosto de 2009

Janela Fechada

Ela estava em casa
Era um dia tranquilo
temperatura amena.

Mas, ela não abriu a janela
Não quis ver o dia lá fora.
Continuou deitada.

Olhou o relógio
e viu os ponteiros
passarem com
certo desdém.

Virou de volta o rosto
para o travesseiro.
Afundou a face
no macio almofadado
e suspirou por entre os cabelos.
Não quis levantar.

A casa estava escura
O cheiro de algo podre
vinha da geladeira.

Ela estava ali,
imóvel, respirando
por entre a fronha e
uma fresta do lençol estampado.

Decidiu não abrir a janela.

Fechou os olhos.
O tempo passou no
putrefato cheiro
e nas vidraças
assim como, nos lençóis.

Vida. Podridão. Janela Fechada.
Era um dia tranquilo,
temperatura amena.