terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Que horas são?

Que importam as horas se já é chegado o tempo de partir?
De que vale o calendário se os dias passam sem nós?
Será que o indignado relógio da minha véspera teima em ir por mim?
Poderei então cruzar com os ponteiros quando chegar no lugar de destino?
Quem disse que o tempo é efêmero? Efêmera é a vida, insuportável é o cotidiano e razoável são as possibilidades.
Põe o alarme para despertar. Amanhã é esse hoje preguiçoso que ainda não abriu os olhos.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Lembranças da ida para o Ceará/2008

I

A viagem foi cansativa.Uma terrível dor de cabeça foi a companheira de vôo. Agora é resistir e fazer o planejado.

II

No aeroporto eu ligo para uma pessoa e converso demoradamente, isso ajuda a passar as horas. Além de que gosto de conversar com essa pessoa. É bom falar com alguém antes de partir. Eu não conseguia controlar a minha impolgação e fiquei pendurada no celular. No saguão de entrada eu falei com Flávio, andei os 3 andares e encontrei um lugar para lanchar.
Fui embarcar.
Passei pelo leitor óptico, pelo detector de metais.
Meu irmão me ligou e depois dele o Charles, mas eu tive que desligar estava diante do portão 22.
Passo pelo portão, recebo de volta o bilhete, desço acompanhando o fluxo das pessoas.
Como uma criança boba eu desço sorrindo. A idéia do desconhecido me atrai e no reflexo do vidro espelhado de repente eu percebo que caminho sozinha.

III

No avião os primeiros segundos foram incríveis. Primeiro vôo.
O assento vazio ao meu lado, me presenteou com duas cadeiras.
Só fiquei calma mesmo quando deitei na cama do hotel.

IV

Na chegada no Ceará, ninguém me esperava e passei a caminhar por lá. Tinha ouvido tantas histórias, mas queria explorar. As poucas pessoas me olhavam pareciam também não ser dali. Fui até o banheiro, lavei o rosto. Voltei para o saguão e apareceu uma responsável para fazer o transfer até o hotel. Nesse momento eu não entendi nada do que ela falou. Só sei que na recepção do hotel eu concordei que ela voltasse no dia seguinte. Fora isso tudo o que ela falou eu não consegui compreender. Estava tão nervosa que parecia que ela falava outro idioma. Era o Ceará, a minha primeira viagem sozinha.

V

Duas horas antes do combinado eu já estava de pé.

VI

Tenho a impressão que as diferenças entre aqui e lá são grandes. As pessoas pegam condução para tudo. Esse lugar é quente!
Estou ansiosa, receiosa e preocupada. Como irei organizar o meu horário. Fazer coisas banais sem ferir os meus planos?

VII

Estou no Ceará, terras patativanas. Fui dormir às 3h acordei às 6h. Mas, não tive coragem de por os pés para fora do quarto.
Preciso de havaianas, trouxe sandálias inadequadas.

VIII

Tomo um café. Desço, saio na portaria do hotel, olho para os dois lados da rua e me decido ir pela direita. Atravesso um , dois quarteirões e encontro uma farmácia. Finalmente um alívio para minha dor de cabeça. Retorno a portaria e converso com uma hóspede.

IX

Depois disso nada mais sai como o planejado.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Escrito em final do ano de 2007

Frasegmentos

I

O mundo esse lugar enigmático, tão cheio de possibilidades e habitado por infinitos seres que fazem parte dele. O mundo esse lugar adorável onde nós vivemos e ainda assim nos preocupamos com banalidades.

II

Com os dedos das mãos eu escrevo vossos pés.

III

Eu sou o nada.
Esse mesmo nada que te procura e te abandona.
Esse nada que te coleciona e te desfaz.
Esse nada que escreve e apaga; que compõe e não publica; que se exercita e se embriaga.
Eu sou o nada que começa e não termina; que sonha com a lua e olha pro chão.
Eu sou o nada que adormece e que te assombra.
Eu sou a sombra e a sombra do nada.

IV

Pedaçinhos, fragmentos do que vivi. Retratos de uma expectativa. Partes que nunca esquecerei de um todo que sou eu.

V

Quando a letra tinge o papel e surge na lauda pálida é como se eu pudesse descarregar tudo aquilo que me angustía e expor na forma de texto.
Quando aquilo que me leva a perder o controle toma conhecimento do que me abate sem saber ao certo se está diante de uma fraqueza ou de uma virtude nesse momento eu sublimo.
Não há fugas ou escapísmos. Existem coisas que devem ser ditas, existem coisas que devem ser sentidas, mas no meu eu tudo está um pouco misturado pois sinto o que digo, cada palavra, cada frase e cada gesto que acompanhe esse revelar.
Se eu te disser que há inverdades no meu texto estarei sendo sincera, pois não é nenhum personagem que pensa aquilo que eu digo, sou eu. Um ser contraditório.
Talvez romantismo seja simbólico demais para o que está escrito e talvez não. Se achas deveras romântico é posto que não estou conseguindo expressar o que deveras penso ou estou e não quero admitir.
VII

O que eu sei é que supostamente não deixaria escapar por entre os dedos aquilo que quero e nem ficar lamentando por não ter ou tampouco ficar esperando oportunidades.
Faço o meu caminho, mas estou ainda me livrando da idéia de indefesa que espera que as coisas aconteçam e fazer isso é um trabalho árduo.

Escrito em 12/02/2008

Descobri em mim escravos
insubordinados
que em motim
se rebelaram e que agora
afugentamos grilhões de mim.

Descobri assim essa utopia
a utopia de liberdade
presa aos meus escravos
terríveis e indisciplináveis.

Mas, ainda assim eles se libertam
daquilo que os ultrajava
e eu chego bem perto
e quanto mais perto mais
cativa da minha própria e
comedida existência amedrontada.

Sem escravos, escreverei
palavras sem letras.
Desenharei sem linhas.
Perpetuarei o nada
e serei muito boa nisso.
Sem eles serei o absoluto
no vazio.

Eles chegam aos portões de mim
e passam. Nem sequer me olham
para um aceno.
Lá se vão.
Os invejo e queria ter na loucura
essa capacidade de escapar.

Rastejo em desculpas.
Eles se foram, fiquei e
preparo-me para explorar
a propriedade vazia
Cômodos de minhas entranhas.

Já não há motivos para cercas
Não há quem fugir
Não há quem prender
Não há para onde ir.
Só posso mudar os móveis de lugar
e deixar amansar em mim as
lembranças dos tempos idos.

Tempos em que amotinados se foram
fazer o que jamais tive coragem de fazer; sair.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Escrito em 24/10/2007

- Meu Deus, eu não posso estar apaixonada – ela disse isso, não porque fosse religiosa, ou crente de alguma forma. Religiosidade e fé nunca foram pontos cruciais em sua vida. Procurava simplesmente não pensar a respeito. Mas, naquele momento ela o estava observando, ele estava de pé a sua frente e ela exclamou de repente que estava apaixonada. Ele nunca foi do tipo que chamava a atenção pelo jeito de se vestir ou de se portar e ela nunca havia se apaixonado e muito menos se interessado por alguém tão próximo. Só que naquele segundo que ele estava ali parado diante dela, mexendo inocentemente em uns papéis ela constatou que o que sentia por ele ia além de amizade.
- Não é possível – exclamou baixinho.
Ele era do tipo intelectual, irritantemente inteligente. Daquele jeito que deixa as pessoas confusas e meio sem graça. Sempre com uma frase sarcástica, com um humor ácido e com aquele jeito único e de certa forma sedutor. Ela não sabia mais o que fazer, olhou para baixo e tentou disfarçar, mas já era tarde, ela estava apaixonada e não havia mais como negar isso. Com muito esforço ela tornou a olhá-lo e aproveitou que ele estava distraído com os papéis e ficou olhando-o fixamente, admirando-o. Cada movimento que ele fazia parecia uma melodia. Tão tranqüilo e sereno, deslizando os dedos sobre a folha de papel, tão distraidamente lindo.
- Deus – exclamou ela novamente, não se sentiu preenchida por nenhum sentimento divino ou nobre como se espera e nem se preocupou com nenhum mandamento do decálogo, tal como um que se traduz basicamente em não devo falar o nome de Deus em vão. Ela se sentia preenchida por um sentimento de inconstância. Pois, sabia que se tratava de um amigo, um grande amigo e que ela poderia estar confundindo ou arriscando perder a amizade. Alguém falou com ele e ela disse baixinho.
- Nossa! - e pensou como que eu não havia percebido. De repente ele olha para ela e diz algo, mas ela não faz a mínima idéia do que seja, pois estava sonhando acordada.
- Sei lá – diz ela meio desconcertada. Se ajeita na cadeira, ajeita o cabelo, olha no monitor do computador firmemente tentando ver o próprio reflexo para constatar se está ou se é bonita, ajeita o decote. Daí olha por cima da tela e sorri, como se estivesse tão preocupada com outros afazeres que nem percebeu a pergunta. Ele, simplesmente, sorri e vai embora.

Escrito em 24/10/2007

Maldito seja por me perceber tão facilmente.
Maldito seja pelo seu humor ácido
e seus sentimentos dormentes.
Maldito seja pela navalha de tua língua e
pelo punhal de tuas palavras.

Maldito seja o teu, o teu...
Maldito seja eu que
te dou o meu tempo a maldizer-te.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Escrito no decorrer do final de 2007

Frasegmentos
I
Os pronomes possessivos estão caindo
e os pronomes compartilhativos
coletivos do caso sinuoso estão solidarizando nas gramáticas.
II
Só o tempo, esse amigo infiel, que trai e distrai a gente.
Só o tempo, esse inconstante momento,
esse suspiro no abandono, essa certeza de incerteza
III
Parafernálias cotidianas: moralidade, auto-piedade, críticas indeterminadas...
Detesto tudo isso e, principalmente, quem propaga isso.
IV
Há momentos em que estar significa não estar,
que ser é um lugar vazio de significados
e quando isso ocorre é posto que estás vivo.
Só os vivos se incomodam.
Os mortos se acomodam.
V
Tem um viajante errante habitando as entranhas de mim.
VI
Admita que tudo se foi, o pertencer deixou de existir.
Compreenda que inexiste vencedores ou vencidos.
Apenas o desgaste prevalece, faceiro como as noites quentes de dezembro.
Eu, sou um risco em uma folha em branco.
Nada que desperte interesse, mas tudo que pode ser completado com diferentes significados.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Histórias de menina

Quando eu estava na alfabetização aconteceu um episódio diferente, no mínimo peculiar. Uma coleguinha por quem eu tinha enorme apreço comeu o meu lanche. Quando a minha mãe descobriu que eu não tinha lanchado, fez com que a mãe dessa colega pagasse um lanche para mim.

Eu não fazia idéia do que acontecia. Então uma professora veio e me explicou o seguinte: ela não é igual a você, por isso não pode comer o seu lanche. Até então eu achava que cada um devia comer o próprio lanche, mas se ela tinha comido o meu não tinha problema, no dia seguinte haveria outro e eu poderia comer tranquilamente. O que eu não entendia era o fato de terem me dito que ela não era igual a mim. Chegando em casa eu perguntei a minha mãe em que a minha colega distinguia de mim. Minha mãe me olhou e disse que em nada, nós duas éramos meninas.

Voltei para a escola intrigada com a questão de que eu e a minha coleguinha éramos pessoas, éramos meninas, tínhamos por base a mesma natureza (não fazíamos xixi de pé). Então onde que estava a nossa diferença. Na hora do recreio eu chamei a professora e disse a ela o que pensava: "cada um deve comer o próprio lanche e não há diferença entre eu e a Tatiane" (a minha amiguinha de infância).


A professora chamou a Tatiane e me fez olhar para ela e depois me perguntou: "vê a diferença?" (foi fácil gravar essa pergunta na minha história). Eu respondi: "não vejo!". Ela novamente apontou para a Tatiane (eu imagino, hoje, que nessa altura a minha colega estava ficando constrangida com a situação). Como eu não via diferença a professora me pegou pelo braço e me colocou bem perto da minha coleguinha, imediatamente eu e a Tati nos demos as mãos. A professora então me disse: "ela é negra!"

Chegando em casa eu perguntei a minha mãe o que era ser uma pessoa negra e minha mãe disse que a cor da pele mudava, alguns traços do rosto e as vezes o cabelo, fora isso não havia diferença.

Voltando para a escola corri direto para a Tatiane, mas ela não queria falar comigo. A mãe dela chegou e me pagou o tal lanche que tinha sido comido. Fui até a professora e perguntei o que havia acontecido com a minha coleguinha e ela me disse: "O que você esperava?". Fiquei sem entender. Durante todo o dia e nos dias seguintes eu tentei falar com a Tati, mas ela parecia não querer saber mais de mim.

Vendo as minhas investidas em relação a Tati e a negativa resposta por parte dela a professora veio falar comigo, me perguntou o que estava havendo. Eu falei para ela que agora entendia a diferença. No dia em que a minha mãe me explicou eu entendi (do meu jeito). Uma pessoa que tinha uma cor tão bonita, cabelos tão diferentes e traços no rosto tão únicos, não poderia comer o meu lanche, por que o meu lanche era para pessoas comuns como eu.

A professora não me disse nada e chamou a Tatiane para falar comigo. A Tati disse que não podia mais ser minha amiga. Me lembro que perguntei para a Tati que se um dia eu conseguisse me tornar negra ela voltaria a ser minha amiga. Ela disse que não podia ser amiga de uma branca e que eu nunca seria como ela. Eu disse para ela assim: "que pena, eu nem sabia que a gente tinha cor". Ela se foi e aquele dia também.

Na manhã seguinte eu não quis ir para a escola a minha cabeça doía e o que mais eu sentia era um aperto no peito, minha mãe julgou que eu estava doente e me deixou ficar em casa. Passei o dia odiando todas as cores e tomei a decisão de que a partir daquele momento eu seria transparente.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Histórias de menina

Quando eu era bem pequena.

Minha mãe me disse que eu poderia ser o que eu quisesse quando crescesse.
Depois ela me explicou a diferença entre homens e mulheres (para ela). Ela me disse que homens podiam fazer xixi de pé, que eles não tinham medo e que era imposta pela sociedade a vantagem de eles receberem salários mais altos que as mulheres trabalhando na mesma função.
Então eu disse a ela que quando crescesse iria querer ser homem.
E ela me disse que eu não poderia.
Perguntei a ela o motivo e ela me respondeu: "porque você quando crescer vai ser uma mulher". Em seguida me contou que algumas escolhas a natureza já tinha feito por mim.
Assim, aos 5 anos de idade eu aceitei que cresceria e me tornaria uma mulher de acordo com minha natureza e que não concordaria com as imposições; e isso também faz parte da minha natureza.

Escrito em 04/01/2008

A água fria descia firme para molhar os pés.
Pés tão grandes,
desengoçados, engraçados,
diferentes de todo o resto,
destoavam da paisagem
quando surgiam em segredo e que ao passarem
deixavam pegadas no ar,
pois em verdade pareciam flutuar.

A água fria descia e tocava na alvura daquela pele,
escorria por entre os dedos,
espalhava-se pelas solas e
aos calcanhares refrescava.

A água firme molhava aqueles sagrados pés
que ainda teimavam em caminhar para longe.

Escrito em 25/01/2008

Acordei me sentindo vazia, a verdade choca e altera a realidade.
Eu sei, aceito ouvi-las. Mas há de convir que sou eu e que isso irá suscitar diversas outras vertentes e questionamentos na minha mente isso quer dizer que agora levo um tempo para pensar e que se pudesse não teria saído de casa. Teria me escondido de mim mesma, tampado todos os espelhos e colocado no som para tocar bem alto alguma música.
Quando descubro algo com que eu não sei lidar eu me imobilizo e tento descobrir como posso seguir com a minha vida com o peso da realidade em minhas mãos. Sim, as minhas coisas têm o meu nome para eu não esquecer que eu estou aqui e para não esquecer que tenho que estar em relação com o material. Mesmo que o tempo todo eu esteja em uma tremenda contradição de acúmulo e despreendimento.
Se me negasse a verdade iria evitar que eu me questionasse, que eu refletisse e iria me deixar no escuro.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Escrito em 12/11/2007


Beija-flor quer ser cometa
Há ave que esse crime cometa
Há ave que esse crime comente
Há ave que para si mesma mente
e que voa no céu com asas dormentes.

Escrito durante ida para Foz do Iguaçu, PR.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Pausa em planos

Eu estava resoluta em ir.
Talvez ir com os escravos
amotinados ao invés
de me movimentar
por cômodos de mim.
Mas, algo aconteceu.
Algo mudou em mim; a
casa não estava mais vazia;
era o que me parecia.
De repente sair não fez sentido.
Nas minhas paredes
tinham retratos de nós dois.
Foi olhando nos seus olhos
que achei que talvez
eu poderia me esforçar
e relevar.

Mas, você não estava lá.
Eu: apenas uma foto
na sua estante.
Os amotinados se foram
e eu caminho pelas veias
de minha sala vazia.