quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

2009, esse ano menino

Antes de escrever essa postagem a xícara de café esfriou
os olhos vagavam pelo espaço.

O dia vermelho e chuvoso,
chuva grossa que pega e banha 2009

Mas ele... ele é um ano gaiato
menino
levado, agora lavado,
trigueiro do mato.

Esse ano foi menino curioso e aventureiro
arriscou
foi riscado
teve sua marca
e foi demarcado
marcado
tingido pelas mazelas das gripes e
pelas mortes dos ares

Esse ano foi arredio,
trocou Kioto por Copenhagen
criança mal criada, teimosa e temível.

Esse ano que é só um menino, pequenino e acuado já vai ser substituído.

Mas, diante do 2010 eu poderei dizer que no ano de 2009 eu vivi e que em 2010 será diferente, pois sou uma pessoa diferente agora.

Adeus menininho travesso e que 2010 seja tão jovem quanto você foi!

O café frio e amargo na xícara me dão previsões para a inédita aurora do ano seguinte.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Vida longa a fumaça

O dia amanhece com um lista de tarefas.

No ouvido não é o alarme do celular que me desperta, mas o barulho do corpo de bombeiros e o som das pessoas que descem apressadas a ladeira perto de casa.

Ergo-me na escuridão do sono e preparo-me para a labuta.

Por conseguinte chego mais cedo no trabalho e antes do bom dia eu recebo a notícia: o Plaza pegou fogo!

Qual não foi minha surpresa. Véspera de natal, eu sem ter comprado um panetone e o plaza resolve pegar fogo. Isso é que é levar a queima de estoques no limite da interpretação.

Só sei que do 10º andar do prédio onde eu estava eu pude ver toda a fumaça saindo do quinto andar da garagem do shopping e ganhar céu.

Sem opção de shopping a turba enfurecida ganhou as ruas e outras opções até então inviáveis, tornaram-se a única opção. Sendo assim, as ruas ficaram lotadas por hordas de compradores de última hora e as filas para o caixa e pagamentos em geral eram transtornos homéricos. Logo, a minha trajetória diária de véspera também sofreu alterações.

Encontrei o meu melhor amigo de infância e fomos enfrentar, juntos, a rua São João, a Mariza e o território hostil denominado shopping de baía. Depois de sanduiche do bobs e cinema dublado tivemos aquela sensaçãozinha de que precisamos de fumaça e fogo para mudar o nosso itinerário, pois de outra forma teríamos feito as mesmas coisas.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Eu não sou.

Estou dividida.

Entre a mordaça e a mordida.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Humana demasiado humana

As vezes me sinto humana, demasiado humana.

Apenas uma pessoa,vaga pessoa, vagando pelo mundo. Esse mundo nem meu e nem de ninguém, inexplicável mundo em que vivo.

Eu, pessoa do mundo.

Apenas isso, vivendo e sentindo, as vezes... as vezes

Do lado de fora

Ela estava lá sentada na soleira da porta e observava a gente que passava.
Pessoas em turbilhões, pessoas agitadas.
Véspera de natal.

Ali perto um avião decolava e ela continuava ali.
Mas, a frente uma criança chorava e ela estava ali.
Não obstante um motorista buzinava e ela sentada ali.

Assim as horas do dia se consumiam em observâncias da paisagem. Veio a noite faceira com seus mistérios iluminados ,ela entrou e fechou a porta; lá fora ficou presa a coragem.

domingo, 6 de dezembro de 2009

A barbárie de mim

Pensar a violência é refletir sobre a própria agressividade como atividade humana e compreender que suas raízes vão além da necessidade instintiva de defesa e ataque. A violência, dessa forma, poderia ser entendida como motivações do excesso agressivo no comportamento humano.

6 de dezembro de 2009

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Quando o telefone toca



O telefone tocou era ele. Com a voz rouca de quem mal acordou ele falou em tom sério. Não era do tipo que ligava e muito menos do tipo que oferecia visitas. Ele sempre passou a vida esperando que lhe procurassem. Então aquela ligação era a coisa mais incomum que poderia acontecer na quinta-feira abafada da metrópole esbranquiçada.

Ele ligou e perguntou algumas frivolidades. Ele, só ele falou, de repente desabafou um infinito de infortúnios desses que ocorrem na eternidade dos segundos e depois de cuspida todas aquelas reticências ele se calou. Hospedou seu rosto no telefone e deixou que apenas o som de sua respiração fosse ouvido. Do lado de cá da linha era possível senti-lo soluçando baixinho.

Mais nada foi dito, aquele silêncio da pausa que retém o grito na garganta, aquela pausa abençoada da frase perfeita para mudar o clímax mas que foge da mente na hora que deveria ser sacramentada. Pausa, afiada fugitiva.

Minutos depois ele foi visto atravessando a rua sem muita atenção. Os bombeiros deram explicações técnicas.

Ainda aguardo na linha o momento exato de encontrar as palavras corretas para ele que sofria de amor de mais.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

para Weber

Lembro-me do dia de reclamar de Weber.

Era uma aula de sociologia e depois de Durkheim veio a aula sobre Weber e eu fiquei chocada, depois de Émille ficava difícil entender o significado das ações de Max. Assim sendo, me postei a criticá-lo. Lembro-me vigorosamente de ter questionado superficialmente suas idéias e de ter me posicionado contrariamente sem ao menos entender a necessidade de suas iniciativas.

Pois bem:
Prezado Weber,

venho por meio desse post tentar explicar as minhas especulações superficiais. Não sei se você foi cremado ou enterrrado, se porventura desapareceu no mar ou se foi abduzido, não sei como teve sua existência finalizada no corpo físico, ou se quem sabe ainda vive escondido em um paraíso natural depois de ter encontrado a fonte da juventude ou a chave da vida eterna. A única coisa que nesse momento eu sei é que a burocracia mata.

Querido Weber, não me leve a mal, na verdade tente não pensar sobre mim nesse momento, esqueça-me, esqueça que eu sou um indivíduo pousado sobre uma vida efêmera, ignore as minhas possibilidades e toda a minha existência eu lhe imploro que faça caber em uma caixa de arquivo. Dessa forma, agora que estou arquivada leia-me.

Eu não aguento mais a burocracia, eu sei que tem utilidade, mas eu me canso. Estou esgotada. Afugento-me em redações para personagens da história, converso com mortos, discuto com grampeadores e disserto sobre a poesia moderna com as paredes. As paredes que falam, ouvem.

Tudo culpa da burocracia. Quero culpá-la, quero acusá-la, tenho o direito de apontar dedos, uma vez que eu os tenho. Então culpo a burocracia, sendo assim. Vim por meio desse post me justificar.

Culparei a burocracia até achar outro cristo para crucificar, nem que seja minha plena incompetência. Mas, culparei a burocracia. Se quiser defendê-la agende um horário para falar comigo. Depois de ser protocolado o seu pedido aguarde o deferimento e se não cair em nenhuma exigência, aguarde a publicação da sua audiência e dentro do prazo determinado se não houver nenhum recurso poderemos conversar sobre isso.

Desde já grata pela a atenção.

ofício 000-1981-2009-02-12-rs

Branco não te quero; verde

O dia amanheceu verde.

Como em todos os dias de temporais, o dia estava verde e cinza. Apenas sendo o dia-a-dia dos rotineiros afugentados. Algumas buzinas gritavam e pessoas sacudiam-se no trânsito da metrópole. Assim, lentamente o dia amanheceu verde, não o verde vulgar das revistas, mas o verde puro das passeatas.

Logo ele estava lá delicadamente pousado por sobre a existência, sabendo do seu prazo de validade. Dia verde condenado.

Então o branco veio, branco alvo das nuvens e neve. Branco da soma de cores, branco limpo, branco fosco. Assim o verde foi clareando, ficando verde clarinho até que sumiu por de trás da névoa e se foi, perdido para sempre entre uma pincelada e outra. Ele que me chocou e que me fez tanto temer, acabou sendo vencido e eu vencida voltei para a cotidianeidade do uniforme branco. Homogêneo branco.

Branco não te quero mais, não podes mais possuir a minha alma e domar as minhas intenções. Branco vá-te daqui, vá embora para o céu das tardes de outono, deixe o verde esmeril dos verões comigo. Esse verde cantiga lírica que emerge no meu olfato e bagunça minhas emoções. Esse verde que fez de mim um ser mais colorido e que me mostrou com seu sumiço o quanto é importante ousar e tornar apropriado o despropositado.

Voltarei para casa a tardinha sabendo que não terei mais na cozinha minha parede verdinha.
Difícil é vê-lo sorrir depois de um beijo de bom dia, tê-lo ali se espreguiçando tão perto, sem o risco de se perder naquele sorriso.

Difícil não querer abraçá-lo quando uma lágrima lhe desce a face ou quando seus olhos vagam na imensidão dos pensamentos.

Difícil não querer tocar aquele cabelo para senti-lo ali, vivo.

Difícil não querer sentir o cheiro da terra que brota de suas pequeninas mãos, que me acenam de longe.

Todo esse menino levado no sabor dos meus dias. Ainda quero vê-lo chegar do mundo e encantar-se com as dobras que fazem a ponta do lápis. Um dia desses ele irá atravessar aquele portão e não mais voltará e então saberei que um dia eu fui feliz.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

domingo, 29 de novembro de 2009

Nó na garganta

Angústia

Tristeza

cinza te quero verde

As vezes sinto que tenho asas

dessas belas asas de borboletas

asas feitas de chumbo que não me servem.

As vezes me sinto meio peixe fora d'água

e então vejo minhas nadadeiras de barro

desfazendo-se no Rio.

As vezes chovem bigornas como nos desenhos

da velha infância

mas não levanto em formato de sanfona

e não há risos.

As vezes me sinto meio falido

e então falho

e falo mais.

Assim, continuo procurando aquelas asas

não de chumbo, mas de outro metal

quem sabe um alcalino terroso da aula de química

ou quem sabe asas de gás em sonhos de ícaro.

Apenas asas, dessas de besourinho ou mariposa

que não me guiem para a luz

mas que me possibilitem ser mais livre.

Asas abertas de uma couraça cansada

de ser um cinza em si mesmo.

Asas de fênix que queimou pela primeira vez.

No chão essa quimera conhecida pretende,

voar.

Faltam forças para pensar

Eu preciso de um porre e um boa dose de solidão acústica para poder progredir com aquilo que já deveria ter dado cabo há séculos.

Essa minha lentidão prosaica tinha que me deteriorar algum dia.

Sem álcool ou cafeína eu sucumbo na mesmice das páginas redigitadas e nada crio só lamento essa efemeridade.

alegria alvar das novelas...

Quando a felicidade parece longe a gente tem que rir do próprio desespero. Pois, isso é o mais perto que chegaremos da alegria plena vendida nas novelas e folhetins.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Pressentimento de mudanças

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Chuva e chuvisco

Estava ele sentado na sala de estar quando decidiu largar o romance norueguês para ligar a televisão. Ligar a TV era um lugar incomum para a sua existência, uma espécie de extravagância ou de ato bizarro.

Entretanto ele fechou o livro sem dobrar as páginas, apenas encostou um marcador simples desses que vendem em papelaria encerrando momentaneamente todo um enredo impresso nas laudas. Depositou o livro em uma mesa e saiu. No outro cômodo encontrava-se a

TV

Lá estava ela, no mesmo lugar que ele havia deixado há tanto tempo. Apesar de ele ser um homem de situação financeira estável e razoável para os padrões aceitáveis ele não possuía em seus aposentos a tão sonhada tela slim de plasma das televisões modernas e nem tinha canais a cabo ou dezenas de polegadas no objeto. Tratava-se apenas de uma catorze polegadas, pretinha, com uma caixa enorme na parte traseira e seu som "mono", nem saídas para vídeo ela tinha e me surpreende poder relatar aos senhores que aquela televisão tinha cores. Sim, apesar de ser muito antiga ela já era capaz de exibir as programações em cores.

Então ele ligou a fiação, apertou o botão de "Liga", um pontinho vermelho emanado por uma pequenina lâmpada apareceu em um cantinho, depois foi manualmente no seletor de canais procurar algum som ou imagem que lhe agradasse. Todavia, a antena em forma de "V" não cooperava na boa captação das imagens e os tidos "fantasmas" dominavam a tela. Entretanto, ele conseguiu reconhecer a voz do Gene Kelly interpretando "I'm singing in the rain" e apesar do embaço da imagem e dos chuviscos barulhentos ele se perdeu por uns instantes em alguma recordação. Terminada a cena ele desligou a TV.

Ele voltou e cruzou a sala. Foi até a varanda e ficou ali pelo resto da tarde ouvindo o som da chuva que fazia barulhinhos no telhado. Lá dentro um livro fechado e uma televisão desligada. Na varanda o sorriso de quem se encontra nas gotas de chuva.

Verde quero verde

Estava eu em dúvida se escolheria mais uma cor para o meu colorido dia.

Mas, faltava verde. Fiquei de ver se tinha verde e vi que verde eu queria.

Verde, quero ver-te.

Falta pouco para o verdejante colorir o meu espaço.

Eu que não amadureço, que ainda estou verdinha. Vida longa a "haste de aipo" e todas as coisas verdejantes da minha floresta de sonhos.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Em casca

Esses dias ela estava em casa
sua casca territorial
seu lugar seguro
sua fortaleza imóvel.

Esses dias ela estava lá
habitante de seu próprio mundo
vivenciando seus instantes
e definindo suas peculiares prioridades.

Mas algo coçou-lhe por dentro
e forçou-lhe para fora

e eram meia noite quando ela se aventurou
na chuva para fora da casca.

Pois lá dentro tinha um fator com o
qual ela não poderia conviver ou enfrentar
de imediato
e isso a obrigou a sair.

Não só pelo escapismo convencional
mas, por que
por viver tanto ali dentro
ela percebeu na coçada
que era hora de sair para olhar
de fora para dentro.

E assim, a casca começou a ruir.

sábado, 14 de novembro de 2009

Paixão ou paixonite

Dia desses um amigo veio me contar sobre estar apaixonado por uma pessoa da universidade onde ele estuda.

Ele me contou sobre as expectativas, planos, desejos e intenções. Falou-me da beleza dos olhos do ser adorado e da saudade imensa que sentia nos fins de semana quando não podia desfrutar daquela presença.

Passado uns dias ele se declarou para ela e não houve reciprocidade. Ela já estava envolvida em outro relacionamento. As reações foram as seguintes: ele ficou meio magoado por ela estar namorando e não querer ficar com ele. Assim, ele ficou ali insistindo, se fazendo presente e minando dentro das possibilidades os laços afetivos da relação de namoro dela.

Então com o passar dos dias ela foi ficando triste e ele foi persistindo em seus propósitos, dentro dos planos dele se ela ficasse sem o namorado ela fatalmente ficaria com ele. Assim, ela foi ficando cada vez mais fechada e eles terminaram o namoro.

A expectativa dele é que ela viesse correndo para os braços dele para se consolar, mas não aconteceu. Ela estava triste demais com o rompimento e trancou-se em si mesma. Ele ficou indignado, chamou-a de covarde. Mas, ela não reagiu. Então ele foi procurar o cara que havia auxiliado em demasia nas possibilidades da desistência dela; o namorado. Ao se encontrarem, ela não foi assunto, eles se viram de repente apaixonados, um pelo outro.

No dia seguinte ela embarcou para Juiz de Fora para o feriado. Eles não estão mais juntos. Se apaixonaram por outras pessoas e estão vivendo suas vidas. Ela conseguiu transferência para a federal de Minas e não deve mais retornar.

Eu não entendo muito de sentimentos, mas conceituar o que se sente é muito fácil. Só sei que é difícil refletir sobre o que se sente realmente em condição de imparcialidade. Não consigo opinar. Talvez você consiga!

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

De dia falta água de noite falta luz

Quem não se lembra das marchinhas de carnaval? Nesses últimos dias eu posso cantar e contar sobre algumas comecemos pela "Tomara que chova", de Paquito e Romeu Gentil:

"Tomara que chova
três dias sem parar.

A minha grande mágoa
É lá em casa não ter água
Eu preciso me lavar".

Nesse seguimento em homenagem ao Apagão vale a pena relembrar a "Vagalume", de Vitor Simon e Fernando Martins:

"Rio de Janeiro
Cidade que me seduz
De dia falta água
E de noite falta luz

Abro o chuveiro
Não cai um pingo
Desde segunda
Até domingo...

Eu vou pro mato
Ai, pro mato eu vou
Vou buscar um vagalume
Pra dar luz ao meu chatô".

Pois é estou sem água desde sexta feira de noite e agora depois do apagão de ontem a falta de água ficará por mais aproximadamente 72h.

Então é melhor levar no bom humor: Rio cidade que seduz de dia falta água e de noite falta luz. Eita deficiência urbana.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Falta água no meu rio

Tenho apenas duas mãos e toda a louça suja do mundo
Mas estou cheia de cansaço
Minhas forças escorrem e o corpo insiste
apesar desse calor.
Quando a água chegar,o céu continuará azul azulado
Eu mesmo estarei morto, morto meu desejo, morto
uma pia cheia que me acorda
Os proprietários não disseram que faltaria água
e que era necessário estocá-la; meu alimento.
Sinto-me ressequida ao ver torrificar as mangueiras
Umidade da mente vos peço que choveis!
Quando a seca passar eu continuarei sozinho
desafiando a pia e o banheiro e
o tanque e a biologia de ralo
que foram encontrados no amanhecer
Esse amanhecer sem água que me é açoite.

(Em brincadeira com o Sentimento do Mundo de Carlos Drummond de Andrade)

sábado, 7 de novembro de 2009

Por causa de: "A dança do amor"

Olhe bem na lata do lixo

onde brincam contentes as moscas apaixonadas

elas rodopiam por sobre um relacionamento putrefato, palavras amargas de um dia o que foi um sentimento doce.

Brincam alegres ornando com seus corpos verdinhos, cantando o zumzum zum dos falidos, vencidos e amargurados.

O amor lixo, na lata de lixo sendo reaproveitado pelas moscas. Que por se reconhecerem seres simples e de vida efêmera aproveitam o momento como se fosse a única oportunidade de serem felizes.

Posso ouvi-las zumbindo zombando das minhas frustrações do passado. Sento-me no degrau da porta do salão onde apenas dois insetos estão realmente enamorados.

A dança do amor - Elemento Alternativo

Palavras de Mario Quintana

Estou sem palavras na ausência do meu amigo e companheiro de vida. Fraterna presença que está sempre por perto. Mas, não hoje. Hoje, ele não está. Hoje, ele se foi e eu aqui preparo também minha bagagem. Então que Mario Quintana diga aquilo que a minha voz cala.

"Meu bonde passa pelo mercado

O que há de bom mesmo não está à venda,
O que há de bom não custa nada.
Este momento é a flor da eternidade!
Minha alegria aguda até o grito...
Não essa alegria alvar das novelas baratas,
Pois minha alegria inclui também minha tristeza
[- a nossa
Tristeza...
Meu companheiro de viagem, sabes?
Todos os bondes vão para o Infinito!" (p.71)

(QUINTANA, Mario. Preparativos de Viagem - São Paulo: Globo. 2008)

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Professor Jorge

Quando se é pequeno muita coisa acontece sem que prestemos a devida atenção ou sem que possamos conceituar o que acontece.

Era uma quinta feira do início do ano letivo e eu conheci o Professor Jorge, professor de educação artística e minha vida nunca mais foi a mesma.

O professor Jorge foi a figura masculina que eu mais admirei entre os meus 10 e 14 anos; foi para mim um pai. Foi graças a ele que eu senti vontade novamente de desenhar, ele possibilitou que eu me respeitasse dentro das minhas limitações. Quando ele via que eu estava para desistir ele me sorria, um sorriso de dentes tão brancos, me dizia palavras de coragem e me mostrava diversas maneiras de inventar minhas próprias e peculiares possibilidades.

Com ele eu entendi sobre as cores; desenhos; sombras e luzes; linhas e gráficos; aprendi a identificar as nuances do degradê. Com ele eu entendi que podíamos misturar as tintas e que com isso criávamos novos tons. Com ele eu entendi que as coisas não são estáticas, mas que se transformam e que nós nos transformamos o tempo todo.

Durante esse tempo de aprendizado com o Professor Jorge eu conheci Monet, Picasso e Van Gogh e chorei com Portinari sem entender o por que chorava e sorri ao som de Bach e cantarolei ao som de Bethoven e me emocionei com filmes e até com borboletas que voavam. Foi depois da educação artística que eu percebi que o mundo não eram as paredes frias que me circundavam, mas toda uma tela a ser colorida com as cores da minha paisagem interior e que eu era uma peça que estava sendo esculpida com os detalhes do tempo e da vivência.

Hoje, estão fazendo, aproximadamente, duas semanas que ele faleceu e estou triste, estou uma aquarela de tinta aguada.

Adeus Professor Jorge. Esse céu azul de hoje foi pintado para você. Você que sempre amou o azul, você que sempre amou o céu.

Janaína - Gosto desse nome

Eu estava na quarta série quando entraram no colégio duas irmãs: Jaqueline e Janaína.

Não me lembro bem da primeira, lembro-me mais de Janaína. A Janaína, sempre sorria. Por tudo, ela sempre sorria. Se errava a resposta ela sorria e se acertava sorria também. Se chamavam a atenção dela ela sorria e se a ignoravam ela sorria também. Nessa época eu já era muito introvertida e tinha medo de tudo. Estava acuada pela escola e tinha muito receio até de sorrir. Mas, a Janaína ria sempre.

Uma vez eu cheguei perto dela e perguntei a ela como ela conseguia ser tão alegre apesar da escola e a Janaína gargalhou e não parou de rir por um longo tempo. Como eu andava com uma baixa auto estima julguei que ela estava zombando de mim e fui me sentar longe dela ainda ouvindo por um bom tempo toda aquela gargalhada que atrapalhava a aula e irritava a professora.

Quando ela conseguiu parar de rir ela se levantou e foi até a carteira onde eu estava sentada. Colocou a mão embaixo do rosto, segurando o queixo e com a outra mão se apoiou. Olhou nos meus olhos e sorriu. Não tinha como resistir era um sorriso sincero.

Então ela me disse: "até o ano passado eu não tinha nem o que comer e hoje estou estudando em um colégio particular, tenho até uniforme, sou feliz!"

Isso nunca mais saiu da minha cabeça.

Os dias se passaram e tempos depois eu percebi que a Jaqueline não ia mais a aula e a Janaína sorria menos e menos, até que ficou séria. Um dia ela estava chorando baixinho em um canto, fui até ela e sorri. Queria causar nela o mesmo que ela me causou no dia em que foi até a minha carteira. Mas, ela só me olhou com aqueles olhos enormes.

Eu fiquei estarrecida não havia sorriso, apenas um olhar cheio de lágrimas. Ela limpou o rosto com a palma da mão, fungou o nariz e me disse com a voz fanhosa: "minha mãe está muito doente, sou triste!"

No dia seguinte a Janaína não voltou para o colégio e nem a Jaqueline e eu nunca mais soube dela e nem me esquecerei jamais daqueles olhos, daquele sorriso e principalmente do dia em que eu vi uma menina tornar-se triste.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Tenho que encarar uma responsabilidade

Tenho medo e receio. Não sei o que faço, mas ainda assim: "ao vencedor as batatas"

Ai ai ai Salve Don Quixote, salve Drummond, o que seria o meu dia sem poesia?

Eu não tenho desenhos

Eu não tenho desenhos

Não tenho nem um rabisco,
sem traços,
sem laços,
sem fitas e sem nós.

Eu não tenho desenhos,
nada para ornar,
nada que represente
ou que possa significar

Eu não tenho desenhos,
figuras
ou paisagens.

Tenho um quadro branco
e nenhum desenho.

Um contact, figura ou decalque.

Uma tatuagem de imagem.

Falta-me um desenho

e um lápis me chama baixinho.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Uma Ode aos Ressentidos

Uma Ode aos Ressentidos

Aos Frustrados
Mal resolvidos
Inconformados
Superados

Esquecidos

Uma Ode aos Falecidos
Ex's e ex's"perus-amigos"

Uma Ode a tudo que passou e se foi
assim mesmo:

Uma Ode aos Fingidos

Mas, principalmente Uma Ode aos Ressentidos.

Sem os ressentidos a graça iria ser menor.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Maria Euclides

Maria Euclides, nasceu no interior,
foi a única menina da cidade
cujo pai havia sido
julgado e condenado pelo crime de bigamia

e talvez por isso tenha crescido e
não se tornado uma adepta da monogamia.

O fato é que sua namorada, Judite,
reclamava frequentemente
das atitudes euclidiativas de maria.

Maria as vezes era mais Euclides que Maria
e as vezes nem um e nem outro. As vezes ela era
só ela, nada mais.

Ela com seu jeito particular
sempre deu um jeito de se apropriar
do que havia sido considerado como
mais desprezível nos
comportamentos sociais.

Maria Euclides é a pessoa mais honesta que eu conheço.

Ela com certeza não se adequa nos padrões.
Uma vez ela disse que não ignorava os padrões
mas que não dava-lhes o mesmo valor que dava
aos carrapatos, pois carrapatos tinham razão de ser
e padrões eram outra espécie de parasitas, muito mais nocivos.
Dessa forma, não dava para ignorá-los. Mas,
era necessário evitá-los ou combatê-los.

Podemos dizer que ela reunia aquilo que me falta:
autenticidade.

Dia desses caminhamos lado a lado
ela na outra calçada saltitante e eu
descendo a ladeira.
Ela bebia uma água de coco pelo canudinho e me sorriu

paisagens coloridas.

Assim, eu sempre lembrarei de Maria Euclides
a mulher que não coube nesse conceito e se fez
muito além da minha restrita constrita concepção medíocre.

Ela que antes de ser mulher decidiu ser humana.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

O céu da tarde de hoje


Talvez chova hoje, talvez não. Mas, as nimbus dão um espetáculo a parte.

Esta é a imagem do céu que eu via da casa de meus pais.
Podia chegar na janela, no quintal ou no terraço e olhar para as montanhas, ver de longe os vizinhos, contemplar a igrejinha lá no alto e viver sem grandes planos.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Paredes laranjas

As paredes estão laranjas e minha mãe já dormiu aqui.

As paredes não são xangai, mas garantem o brilho da grande cidade. Cidade entapetada de vermelho e coberta de amigos.

As paredes não são lugar de festa, o lugar de festa é onde cercam essas paredes.

As paredes são Daredevil, são demônios ousados. Talvez por eu não ser santa. Talvez por ter sido uma escolha tão democrática.

Quando me sinto sozinha olho para as paredes e as paredes estão laranjas e eu sei que a mamãe até já dormiu aqui...

Essas paredes meninas, menininhas tão lindas e laranjinhas como frutas frescas no pomar. Hei de colhê-las por toda essa eternidade do contrato ou até o senhorio requisitar ou exigir.

Queridas paredes laranjas dos meus sonhos.

"Mui amigas"

Uma menina cai.

As amigas dançam.

Uma menina caída e as amigas dançantes.

Uma menina desmaiando e as amigas dançando.

Uma menina acudida por estranhos e

as amigas se acabando de dançar.


Escolher as companhias é evitar esse tipo de coisa.

Pessoas que podem tranquilamente dançar em cima do nosso corpo enfermo. Pessoas "Mui amigas".

sábado, 24 de outubro de 2009

Quando as paredes falam

Não andava muito social e
sua vida se resumia em ir para o escritório e voltar
para o conjugado na Vieira Souto.

Todos os dias ônibus e caminhada na calçada até chegar ao edifício,
antigo prédio,
de encanamento de ferro
e paredes ocas.

Ele sempre se sentiu
esquisito e quando passava da portaria
ouvia as paredes falarem.

Toda noite as paredes falavam.
Contavam histórias em um idioma
que ele não entendia.

Mas, elas falavam a noite toda.
Estalavam, rangiam, tilinctavam
perambulantes aos tímpanos.

Paredes tagarelas, pensava ele consigo.
Mas, ele não se sentia social.
Não frequentava as festas do pessoal do trabalho
e nem se dava mais ao trabalho de atender ao telefone
ao passo de que as ligações foram
ficando mais escassas.
Não retribuía os recados nas páginas
de relacionamento
e nem abria a caixa de correios para pegar as contas.
Apenas acordava, banhava-se e ia trabalhar

De tarde voltava e entrava no conjugado.

Deitava-se por volta das 18h e ouvia as pessoas chegarem.
Então as paredes falavam.

Assim um dia ele foi encontrado enforcado no banheiro
e no espelho um recado pendurado:

Por favor, calem as paredes.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

A incompletude do amor

A incompletude do amor...

Que vida eu teria se encontrasse minha cara metade?
Ou se eu encontrasse a carreira dos meus sonhos ou os amigos perfeitos?

Como seria chata a vida!!! Eu gosto das diferenças que se aponta nas relações e dessa inconformidade com meu futuro, assim como amo meus amigos e se disser que são chatos eu digo que são adoráveis.

Vida longa aos viadutos incompletos, pois são por causa deles que repensamos nossos caminhos.

Vida longa as estradas fechadas e ruas sem saída, nenhum caminho em verdade é interrompido são apenas novos atalhos para lugares desconhecidos.

Viver a vida e se sentir vivo é nascer a cada instante, eternamente e por isso mesmo ser incompleto, pois a vida se fosse completa, seria morte.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Conversa de travesseiro

Não se trata de decisões que são ou deixam de ser para a nossa idade. Existem determinadas coisas que só passamos a compreender com o tempo. Eu, no geral, só tento demarcar a minha idade. Acredito que pensar e escrever também sirvam para compreender tudo isso.

Pensar e escrever seria uma demarcação de quem sou em voz alta, para que eu pudesse ouvir um pouco de mim por mim mesma. Por outro lado pensar e refletir me leva a questionar o que busco. Ainda não sei ao certo se estou compreendendo o sentido que caminham as coisas na minha existência. Mas, me recuso a me conformar com as coisas.

Sou assim: sou de luta. Aprendi a entender o meu lugar. Por que o meu campo é a filosofia e pensar é uma das poucas coisas que me faz feliz e agir é uma das poucas formas que tenho de me expressar. Talvez seja isso que me resuma.

Não irei pedir para alguém me notar ou me reconhecer na minha individual peculiaridade. Nem esperar por heroicos cavalheiros atravessando oceanos. Dessa forma, não posso pedir nada e consequentemente não quero dar nada. Logo, o jeito é continuar, prosseguir e pensar uma forma ou um jeito de ser feliz sem necessitar afirmar coisas do cotidiano como um beijo ou um abraço. Sabe deixar de fazer do carinho essa função fática da humanidade e tornar ato de voluntária intenção de tocar o outro de se fazer presente.

Pois, considero que nascemos incompletos e talvez a nossa existência só seja completa por essa busca que travamos para encontrarmos o outro. Um outro. Um alguém para quem possamos dedicar algo de nós.

Assim, eu preciso realmente do travesseiro, meu companheiro, nele eu sempre vou poder deitar minhas angustias e sonhar meus sonhos sem ter que dizer nada que meu suspirar não encerre.

Boa noite!

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Eu não gosto de beijar

Esses dias eu refleti que não gosto de beijar. Em verdade, eu já desconfiava. Mas, estava tentando mentir para mim mesma de que gostava de beijar, por que todo mundo gosta.

Não se trata de qualquer beijo. Não gosto de beijar na boca. Em geral acho maneiro no início, sei lá por alguns minutos. Depois não. Depois perde a graça e muitas vezes já fiz para não parecer desagradável, mesmo que a sensação me desagradasse.

O fato de isso ter virado um post, é para justificar aos exs e para as possibilidades que eu não gosto de beijar. Acontece, não sou perfeita.

Se eu beijo é simplesmente por que estou com vontade, por que está me dando satisfação, quando beijo é por que quero sentir o outro e quero que o outro me sinta. Dessa forma, se beijo é por que estou realmente ali naquele segundo. Ou seja, se eu beijo estou toda ali naquele carinho.

Fora isso eu estarei sendo hipócrita com as pessoas além de comigo mesma. Não vou beijar para agradar ninguém e até hoje fui respeitada sendo desse jeito.

Pode ser que isso mude, que um dia eu diga que goste de beijar, pode ser que algo realmente me surpreenda. Mas, até esse dia chegar "Eu não gosto de beijar".

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Florzinha de algodão

Uma pequenina flor de algodão, foi carregada pelo vento e, assim, dissipando-se no ar ela foi se movendo. Até que uma brisa contrária a jogou em meio a uma enorme plantação de roseiras.

As rosas ali plantadas, com todas as suas cores e perfumes ficaram desgostosas de ver por ali a flor de algodão.

Entretanto, a florzinha estava cansada da viagem, meio que desfalecida pelo esforço e tentando recobrar suas forças, que apenas olhou para todo aquele colorido e sorriu.

Com isso, as rosas acharam que a pequenina viajante zombava delas. A florzinha, novamente, ergueu-se sobre o caule enfermo e fitou as rosas demoradamente, porém ainda muito debilitada voltou a deitar.

Tomadas de fúria as rosas cambalearam para frente e para trás de forma que os espinhos furassem aquela atrevida que ousava pousar por ali. Só que a florzinha de algodão não tinha mais resistência e ficou ali apenas olhando e descansando. As rosas foram agressivas, violentas e cruéis. Com esbarrões e empurradelas espinharam em todas as direções. Furaram o ar e o perfume, assustaram os pássaros, deixaram cair as pétalas e afugentaram até as borboletas. De tal forma que depois de algum tempo elas murcharam pelo excessivo exercício.

Já a florzinha de algodão, porém, tinha recobrado as energias. Os espinhos das rosas eram tão grandes, a agressividade era tão desmedida e os golpes tão desnorteados que não conseguiram acertar a tênue florzinha, que era toda de algodão, leve e pequenina.
Dessa forma, ela se esticou por sobre a própria haste verdinha e se lançou ao vento, seguiu viagem. Nova brisa a levou para outras paisagens.

Contudo, as rosas continuaram ali para sempre lamentosas de seu destino plantado.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

duas semanas de silêncio

Quase duas semanas sem escrever.
Alguma coisa aconteceu.

Mas, as palavras não cantavam.
Como a memória não se encanta
só sei que alguma coisa aconteceu.

Vou então pormenorizar o que me lembro.

Uma flauta tocou música e uma guitarra quis ser baixo.

Uma andorinha fez primavera e uma pétala se desprendeu da flor de origem.
Um gato se assustou com a mariposa e uma lagartixa encontrou o par.

Um bêbado se atirou nos braços do sono e uma suicida decidiu não se matar.

Um jornal foi lido na banca e uma barca resolveu navegar, uma senhora que se balançava na cadeira resolver escrever um poema e enquanto a sessão do cinema não acabava um pipoqueiro sorria contente para uma estrela que cintilava no céu que teimava em ser o céu nosso de todos os dias e ainda assim era o teto mais lindo de todos os tempos.

Foi só isso que aconteceu das coisas que me lembro.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Do saguão até a varanda

Ela entrou no saguão. Todas aquelas pessoas desconhecidas. Ela se sentiu esmagada pelos olhares e muitas vezes se sentiu esmagada pela indiferença. Mas, ela tinha que cruzar o saguão.

Esse enorme espaço que a separava da varanda, de onde poderia fitar o céu e sonhar com a vida.

Ela caminhou por sobre tapetes que cobriam o mármore fino, evitou olhar para os lados, mas seus olhos teimavam em querer constatar a multidão. Ela pisou por entre as mesas, caminhou por entre as gentes, andou por entre os objetos, como se só a varanda do céu estrelado valesse a pena.

Seguiu com o rosto reto, o corpo ereto e as passadas firme/vacilantes e assim ela com alguma dificuldade terminou de cruzar o saguão. Não soube dizer quantas pessoas deixou para trás e nem quantas passaram por ela, não percebeu da arquitetura e nem da música que tocava ao fundo. Mas, ela consegui. Chegou na sacada da varanda; de lá se jogou.

domingo, 13 de setembro de 2009

Segundo que passa

Não tem desenhos que esbocem e nem palavras que traduzam o segundo que passa aleatóriamente na existência.

Não tem cela que segure e nem magia que complete o segundo que passa e vai da gente.

Não há esperança que fale e nem céu que cubra o segundo que passa e vai da gente.

Pois esse segundo que se foi, esse segundo independente, esse segundo que não olha para trás, por que já ficou para trás. Esse segundo no interior de nós, viveu e se consumiu em si mesmo.

Com sorte lembraremos dele mais tarde. Com sorte ele terá sido bem vivido e muito bem aproveitado. Esse segundo que passa cantarolante nas nossas existências.

Dia a dia

Uma caminhada
espera na calçada
cobrança de horário
atraso e pontualidade.

Viagem longa e solitária.
Solitário andar.
Descer, desvendar
sorrir
socializar.

Subir.
Tentar, falhar
tentar novamente.
Insistir.
Esperança
na
ajuda externa
e na força de dentro
que surge.

Suor, sangue e lágrimas.
Persiste-se.
Suor, o corpo dança e balança.
Sangue, vergonha e força no infortúnio.
Lágrimas, o medo de fracassar.
Lágrimas, o medo.
Lágrimas, agradecimento.

Insistir, persistir, resistir.
Esforçar-se, treinar, estudar.
Lutar, tentar para valer.

Sempre, sempre em frente.
Mas, o andar nem tão solitário.
Não mais tão solitário por entre as gentes.

sábado, 12 de setembro de 2009

Corpo cansado

O meu corpo estava cansado.
Era como se tivesse carregado pedras o dia inteiro. Mas, o dia tinha se mostrado simples e singelo. Mas, ainda assim as pernas não obedeciam.
Meu corpo pedia descanso e clamava por uma pausa.
Mas, em todo organismo vivo existe uma vontade, aquele algo que impulsiona o sapo a pular solitário no lago e ao pardal a voar para uma outra árvore.
Esse algo impulsivo que muitas vezes vai contra as nossas habilidades ou possibilidades físicas é o que me mantém viva.

Essa necessidade de ir independente da minha condição, essa necessidade de viver apesar de toda a efemeridade.

O meu corpo estava cansado, mas minha essência exigia por movimento e por isso continuo indo.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Momentos e efemeridades II

Dois conhecidos se encontram e começam um diálogo:

- Olá!
- Oi, como que você está? (pausa de tempo) Que bom te encontrar, está bem humorado!
- Bem humorado!?
- Aham!!! Não está bem humorado?! Com aquela acidez natural do seu humor sarcástico!!! (risos)
- Preciso ouvir isso mesmo?
- Ops!! Eu gosto do seu humor. Pelo menos do que eu me lembre do seu humor. (pausa de tempo) Então, vai fazer o que hoje?
- Ainda nada! Talvez fumar um mais tarde. (pausa de tempo)
- Uau! E o q mais? (tempo de silêncio)...Ué! Vamos sair? Mais direto do que isso só seta Sioux, né! (completa)
- Vai fumar um comigo?
- Isso é um convite? (expressão de surpresa)
- Não, isso é apenas uma pergunta.
- Não, não vou fumar um contigo. Mas, se quiser estar comigo eu gostaria de estar com você.
- (sorriso amarelo)
- O que foi?
- Vou para casa dormir um bocadinho! Ver se melhora essa dor de cabeça. Para daí eu começar a beber!
- Ah tah! Bons sonhos.
- Beijos! A gente se vê!

Carta resposta

Larissa,

confesso com o coração cheio de alegria que sua carta trouxe luz aos meus olhos. Estou emocionada.
É a primeira vez que recebo um presente pelos correios e ainda mais algo tão valoroso e colorido de afetuosidade.
Fiquei imensamente surpresa com sua iniciativa de escrever-me; com o carinho de suas palavras e com a atenção dada a cada detalhe que fizeram com que ao abrir o envelope um sorriso se estampasse em meu rosto.
Como você sabe, algumas recordações de Turiúba são triste e carregadas de melancolia. A caminhada sob o sol em direção a necrópole onde foi abrigar o destino de um amigo querido. Amigo o qual eu nem consegui me despedir a tempo.
Essa Turiúba que é a mesma da chuva forte de noite, do rio barrento. Turiúba que convida a gente por caminhos que escorrem lágrimas e que cruzam capivaras.
Ao ler sua carta eu recordei de detalhes. Nosso rápido encontro, das fotos na fazenda, do sorriso do Anderson e do silêncio do Rodolfo.
Graças a sua carta eu pude ouvir na memória o som das maritacas que no final da tarde cantavam na praça, em frente a igreja.
Muito obrigada por resgatar em mim todas as imagens que nenhum postal pode registrar. Imagens de um momento vivido que não voltará mais e que fará para sempre parte da minha história.
Essa Turiúba tão distante, mas de amigos tão próximos.

Novamente, muito obrigada! Beijos, Andrea Mirati

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Quando as mulheres caminham

Duas mulheres caminhavam, lado a lado.
Não eram amigas de infância e tampouco detinham enormes afinidades. Em verdade, tinham pouco a ver uma com a outra, mas o momento fazia com que estivessem próximas.

Essas mulheres pouco disseram uma sobre a outra e pouco sobre si mesmas, apenas apreciaram a companhia mútua sem grandes interpelações. Dividiram sorrisos, foram poucos. Dividiram o ombro, sem perguntas ou conselhos. Dividiram horas sem gastar a presença uma da outra.

Dividiram a existência sem desgastar ou aprofundar nada. Ficaram ali na necessidade da presença uma da outra, na necessidade de estar próximo de um outro ser vivo e elas se bastaram assim.

Duas mulheres caminhavam, lado a lado, sem rompantes ou superficialidades apenas caminhavam unidas pela presença uma da outra.

Não, elas não eram irmãs e nem tinham um histórico de amizade. Pouco sabiam do mundo e menos ainda de si mesmas. Mas, mesmo assim caminhavam. Pois, muitas vezes basta ter ao lado uma pessoa para que nada mais precise ser dito ou explicado.

Momentos e efemeridades

Dia desses duas conhecidas se encontram por acaso e começaram um diálogo:
- E aí, tem visto o pessoal?
- Não, faz um tempo que não vejo o pessoal.

(fica aquele silêncio de falta de assunto ou de incômodo causado pela troca das sentenças)

- Eles disseram que apesar de terem ido embora que iriam voltar para me visitar. Mas, eles nunca vieram.
- Não tenho visto eles, mesmo!
- Pensei que viriam, fiquei esperando! (aquele silêncio que quer dizer algo)... achei que iriam vir, que se importavam!
- Não tenho visto eles, mas imagino que deva ser conflito de horários e agenda cheia.
- Você sempre aparece, mas não é para me ver e sim por que passa por aqui.
- As vezes conseguimos estabelecer vínculos e as vezes esses vínculos conseguem ser mantidos. Mas, na maior parte das vezes serão apenas momentos experenciados.
- Não gosto de me apegar! Sinto falta do pessoal. Não sei onde estão e eles nunca vieram me visitar.

(fim de conversa)

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Eu hoje recebi uma carta

Hoje eu cheguei no apartamento e tinha uma carta endereçada para mim.

Ela tinha como remetente uma amiga da cidade de Turiúba.

Eu tentei em dez rascunhos escrever uma resposta que pudesse demonstrar para ela o tamanho da minha emoção

mas não consegui.

Ainda não consegui.

De repente aquele envelope se abriu e meus olhos se encheram de luz e minha mente se encheu de lembranças.

Muitas memórias tristes, algumas felizes e mais a certeza de ter feito grandes amigos

Eu hoje recebi uma carta e eu nunca tinha recebido até então um presente tão bonito pelos correios.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Erros na tentativa de acertos

A gente erra tentando acertar.

Muitas coisas ficaram presas em minha garganta:

insultos não pronunciados;
desculpas não ditas;
declarações não feitas;
amores não anunciados.

Muitas coisas ficaram presas no impasse do ser:

mãos que não foram dadas;
abraços que foram travados;
sorrisos reprimidos e outros exagerados;
amores não arriscados.

Muitas coisas deixaram e outras sucumbiram por não ter sido. Mas, o pior é quando a gente erra tentando acertar. Dizem que o pior é não tentar, mas as vezes parece que tentar causa mais danos do que o simples ócio.

Daí, eu me arrependo de algumas coisas que:

foram ditas; intervenções desnecessárias; agressões vazias; discussões despropositadas e todas as outras ações que no final das contas só geraram antipatia.

Não vim ao mundo para ser simpática ou antipática e, logo, não tenho que vender tal ou tal imagem. Devo apenas viver a minha vida e se eu incomodar a alguém eu lamento, mas vou continuar vivendo, dormindo e sorrindo apesar disso.

O que as fotos não captam

Esses dias olhava algumas fotos nas quais eu sorria e tentei me lembrar como eu me sentia realmente naquele segundo, naquele momento e descobri que em mais da metade das fotos eu só sorri para sair bem e que na maioria dos momentos eu estava feliz, mas que as fotos eram exageradas.

Fotos exageradas como se eu quisesse comprovar para o mundo que sou feliz, como quisesse demarcar essa felicidade aos outros e quem sabe dessa forma me convencer da tal alegria.

Dessa forma, ao atrever-me a olhar novamente para as fotos, posteriormente a reflexão, eu não mais me reconheci naqueles sorrisos. Então apaguei as fotos e sei que os momentos bons ficarão na lembrança e que alguns serão esquecidos, mas sei agora que não preciso de uma imagem para demarcar o quanto eu estou feliz pois tenho no ouvido o som do sorriso de pessoas amigas e do vento de lugares inacreditáveis.

Se eu fecho os olhos agora eu sei o que pensei quando desci o Insano em Fortaleza, o que ouvi da minha consciência quando fui inquirida no interior de sampa e como foi caminhar em um País estrangeiro, completamente sozinha.

As fotos não captaram isso, coisas únicas da minha pouca memória.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Responder recados

Não existe coisa mais entediante do que responder recados.

Trata-se realmente de uma troca de monólogos, pouco articulados e de comunicação duvidosa. Fora os que simplesmente existem para cumprir uma função fática da existência. Ou seja, fora os recados que criamos simplesmente para não sermos esquecidos e nos sentirmos vivos.

Dessa forma, tão entediante quanto escrever recados é responder recados. Tem vezes que me perco na porta da geladeira entre ímãs, contas, lembretes e recados. Me surge deveras complicado dizer em um bilhete coisas que provavelmente levaria a semana inteira para argumentar.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

O capote, Nicolau Gogól

O Capote, de Gogól é um daqueles contos que quando lidos fazem com que você precise de um tempo para acomodar as informações e impressões obtidas. Dessa forma, Turgueniêv teve que esperar para ser lido. De Gogól eu já tinha tido a oportunidade de ler Taras Bulba e o Nariz. Ainda pretendo adquirir Almas Mortas.

Akaki, de O Capote, me lembra muito o Senhor K. de O Processo de Franz Kafka, pois assim como K. o funcionário Akaki se submete a uma Excelência que ele nem sabe qual função tem, pertencente a um Ministério que ele nem sabe qual é e do que trata. Relembra também o Fabiano de Vidas Secas de Graciliano Ramos, pois Akaki perde a capacidade de uma comunicação eficaz em suas frases incompletas e relembra a esposa do Fabiano, pois ela queria ter uma cama como a do Tomás da Bolandeira e o personagem de O Capote queria apenas o capote.
Esse personagem relembra também a Macabéia da Hora da Estrela de Lispector, pois ambos viviam suas vidas de forma pacata, sem agredir ninguém, vivendo sem ofender e aguentando toda a sorte de infortúnios, fora a privação de coisas bem basilares para a satisfação de desejos simples. Macabéia faz uma dívida com a colega de trabalho para pagar a cartomante e Akaki deixa até de comer e passa a andar nas pontas dos pés para não gastar os sapatos e conseguir a soma necessária para pagar ao alfaiate.
Fora o fim de Akaki que relembra o tratamento recebido pelo personagem da Metamorfose de Kafka e da Morte de Ivan Ilitch de Tolstoi. Assim como relembra trechos das Memórias Póstumas de Bras Cubas do Machado de Assis.

Por tudo isso, O Capote é um conto da literatura russa que deve ser lido e relido e mesmo nas partes mais fantasiosas pode-se ainda encontrar o inédito da rotina, da sujeição e da mediocridade humana. Além de poder fazer diversas conexões com outras grandes produções da literatura mundial.

Quando os olhos não lêem a vida segue


Um email foi digitado, não sei de que forma, não vi quando foi digitado e a memória fraqueja sobre o nome do remetente. Portanto, um email foi digitado e o interesse é de que ele fosse lido. Para isso um título foi cuidadosamente elaborado.
Não qualquer título, mas um daqueles que quando o destinatário lê chega a sentir um formigar nas pernas e um soco no estômago, um soco bem na boca do estômago recebido após almoço em churrascaria.
Assim ele foi elaborado letra por letra. Pois os teclados são assim nos fazem soletrar as letras até formarmos as palavras e alguns até separam os números para não nos confundirmos. Dessa forma, cada letra foi posta com uma ordem específica com o intuito de formar palavras e essas palavras se encadearam e formaram frases. Sendo que as frases compunham não uma poesia e nenhuma música erudita, tampouco notícias internacionais ou banalidades do humor diário. Tratava-se de um diálogo, apesar dos emails parecerem monólogos intercalados esse, contudo, era diferente. Pois era composto de um diálogo; a conversa entre dois amantes.
Não se tratava de mensagens de amor restringia-se a apresentar objetivamente com direito a travessões a conversa entre dois amantes.
...
Até agora ele não foi lido e quando os olhos não lêem a vida segue.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

A morte estala

Enquanto eu descia a rua da casa de minha mãe duas crianças cutucavam com um galho e um pedaço de ripa de madeira um filhote de pombo.
O bicho demonstrava nítido cansaço e escondia-se debaixo de um carro, encurralado pelos dois lados e cercado por trás por uma calçada ele ia de um lado a outro, sem poder voar.

Passei por eles e chamei a atenção das crianças, reclamei da judiaria, mas eles me ignoraram.

Assim, segui para o ponto de ônibus lá pude ver quando um dos garotos arremessou o pequeno pombo na rua, o sinal aberto fez com que ele se apavorasse ainda mais. Ele não sabia ou não podia voar e esquivou-se como pode dos veículos em velocidade. Um carro parou, outro e outro. Mas, o ônibus nem deve ter percebido que passou por cima dele. Eu virei o rosto e pude ouvir o ruído do corpo sendo esmagado.

A morte estala. Os garotos não estavam lá para verem do que foram responsáveis. Mas, ainda assim a morte estalou aos meus ouvidos e o corpo do pombo no asfalto mostrou para mim toda a minha incapacidade e inércia diante de atos e fatos tão lamentáveis.

Não sou defensora de pombos, acho eles sujinhos, mas abomino qualquer tipo de violência. A morte estala nos ouvidos e percebo que somos tão efêmeros como pombos jovens nas mãos de uma criança.

domingo, 23 de agosto de 2009

Exposição no CCBB - Virada Russa

A exposição Virada Russa foca sua atenção na produção artística criada na Rússia desde o começo do século XX até a década de 1930, importante não apenas para a cultura russa, mas para toda a arte internacional daquele período.

O conjunto de obras selecionadas inclui a produção de importantes artistas do período, como Kandinsky, Maliévitch, Chagall, Rodchenko, Tátlin, Goncharova, entre outros. Ao todo, são 123 obras, todas pertencentes ao acervo do Museu Estatal de São Petersburgo. A mostra tem curadoria de Yevgenia Petrova, Joseph Kiblitsky, Rodolfo de Athaydee Ania Rodríguez Alonso.

De 23 de junho a 23 de agosto (Até hoje)
De terça a domingo, das 10h às 21h
1º andar do CCBB

Entrada Franca!

sábado, 22 de agosto de 2009

Por Carla e Caio


Esse risco está aqui pois no cimentado em frente ao palco eles flutuaram bailando um forró para lá de arretado.

DeathNote

Fazia algum tempo que eu não lia mangá.

Mas, me foi posto nas mãos o DeathNote, que em matéria de prender a atenção ganha 10 com louvor. Um bom exemplar para quem curte o gênero, com boa qualidade de texto e de traços e uma trama muito interessante sobre o mundo dos humanos e o mundo dos Shinigamis.

Os deuses da morte inclusive com seu cadernos dão um tom engraçado a história que tem seu enredo baseado nas guerras mentais de dedução travadas entre Kira e L.

Mas, se me perguntar se o Kira que imagino é como o da revista eu responderei que não. O Kira que imagino é simplesmente como o desenho abaixo.



Sobre DeathNote, agora só resta esperar uns dois meses pelo próximo volume.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Riscos e rabiscos

Paisagem interior

Ela vivia sempre na defensiva.
Antes de qualquer coisa, mantinha um pé atrás para evitar surpresas.
Havia se acostumado a não gostar das surpresas e nem em confiar demais.

As pessoas para ela representavam um perigo constante e ela não sabia como agir sem ter o controle da situação. Portanto, cercava-se sempre de pessoas que pudesse controlar e ou coagir dependendo da situação.

Com o passar do tempo e da distância que ela aprendeu a manter das pessoas ela desenvolveu técnicas e métodos de defesa e afastamento em um nivel de aprimoramento e crueldade dignos dos filmes mais intensos de drama.

Assim, as frases feitas ou olhares de desdém sempre formaram uma dupla infalível para que ela mantivesse a sua auto-segurança.

Porém apesar de todos os seus esforços para manter-se na segurança do isolamento. Ele não se incomodou. Veio e ouviu toda a sorte de teses da banalidade e sorriu. Teve um sorriso inocente no rosto enquanto desconstruia um por um dos argumentos dela. Olhou para ela como quem olha para uma criança acuada e estendeu sobre os ombros dela suas mãos. Naquele instante ele igualmente sentiu o peso do fardo daquela pessoa comedida, que vivia apenas para se defender.

Com o decorrer daquele momento o diálogo tornou-se um espelho e ela pode se ver no reflexo. Ela reconheceu, desconheceu e se conheceu nas partes mais escondidas dela mesma. Ficou de frente com a própria fragilidade e pode perceber um outro paradigma de sua força.

Depois ele deixou ela ali sentada, chocada pelo silêncio quando ele partiu.
Diante da paisagem hostil ele conseguiu encontrar uma paisagem interior; ela, uma pessoa.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Aos que me julgam: "Sim, fui eu!"

Cansada de ser culpada pelo buraco na camada de ozonio, pela crise economica mundial e pela extinção dos dinossauros.
Decidi que antes de ser ofendida e culpada iria logo assumir a culpa, beber a cicuta e ter com os falecidos.
Esgotada desses tribunais que desconsidero, formado por magistrados da hipocrisia, e arautos da verdade. Prefiro dizer: "Sim, fui eu!" e fim de conversa.
Sou culpada por tudo, da reeleição do Bush até o derretimento da calota polar; do vexame do timão até o holocausto; sou culpada pelas guerras no Oriente e por não encontrarem o elo perdido; responsável pela gripe suína e pela caspa.
As pessoas não são um tribunal que eu reconheça como de valor.

Aos que me julgam sem me conhecer: "Me economiza! Pula a novela que eu quero assistir o filme. Portanto, 'Sim, fui eu!' está satisfeito? Sua vida ficou melhor, assim, me culpando pelas mazelas do mundo?!. Então vá em frente e goze. Pois, eu tenho uma vida inteira para viver; e é a minha vida".

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Mais uma história de bunda

I

Na banca de jornal da esquina tem cartão postal e nele está postado uma fileira de bundas pro alto.
Na mesma banca tem bundas nas revistas e nos jornais. Livretos de como cuidar do seu material "popozístico", dicas de malhação, dieta e até de posições para sentar sem que prejudique o sentido almofadado dos glúteos. Fora todas as outras teorias, teses e manuais teórico/práticos do uso do reto que podem ser facilmente encontrados dependurados pelas esquinas e vitrines do dia.

Logo, uma Ode as Bundas.

II

Se existe uma coisa que é comum a toda a humanidade essa coisa é a bunda. Dificilmente, encontrará a andar pelas ruas alguém sem bunda. Pode até ser um bunda murcha, um desbundado ou um alguém "desbundado" com algo. Partindo dessa premissa de algo comum a espécie humana eu começo, inclusive, a cogitar a possibilidade de que 75% da humanidade seja feita de bundas. Sendo assim, tem que começar a haver uma flexibilidade de entendimento em relação as bundas humanas e aos humanos bundas posto que senão não teremos com quem conversar na baladinha. Lugar comum para os tipos Bunda mole e caras de bunda.

III

Ser mulher no Brasil e não ter bunda é como ser loira sem cabelo, não tem razão de ser. As pessoas julgam a beleza brasileira pela quantidade de gordura acumulada no gluteos e palmas para as mulheres frutas nas feiras da estação.
Facilmente observada de frente a fêmea tem que continuar a caminhada para que o macho e as machistas confiram a capacidade anterior da parte traseira onde será cogitada 80% da beleza do exemplar do gênero feminino.
Como as travestis também são figuras de aparência feminina essa Bundificação extende-se a elas que quando prestadoras de serviços noturnos expõem os atributos siliconados ou bem torneados por malhação no campo de visão de motoristas e transeuntes.
Dessa forma, as bundas estão aí no mercado ou caminhando gentilmente virando a esquina, subindo as escadas ou na fila do banco.
Mas, eu que tenho bunda e não sou bunda me indigno.

IV

Ouvi esses dias de uma amiga que tem um corpo bem torneado por musculação e Yoga dizer que estava cansada de ser uma bunda para os homens e depois completou no mesmo diálogo com a seguinte sentença: "Apesar de que a calçinha com enchimento traseiro está uma pechincha e quem sabe essa seja a unica forma de arrumar um par".
Essa é a filosofia bundística moderna, fazendo lavagem nos nossos pensamentos e contribuindo para uma grande produção reto-esfincteriana onde "cocôrdamos" com tudo que nos é estipulado, sem questionarmo-nos.

Em busca da framboesa perdida

Tempo passando
necessidade de sabor
não o sabor de pitanga colhida
não o sabor de goiaba roubada

Mas, o doce sabor de framboesa perdida

Assim, as horas consumiam
o silêncio da iguaria desejada

Em vão percorriam-se desertos
e flutuava-se interrogações
nas ventanias

Porém a hora se fazia eminente
e fez-se florir em cachos
nas calçadas

Sob a atenção reta
do Santo Chico
a framboesa das horas
se derreteu em sorrisos
adocicando os lábios
e a noite enluarada.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Entre um passo e outro

A tarde ainda ia alta e a dança começava sob os pés.
Dois para lá e dois para cá, gira volta e marca o passo.
Assim foram algumas horas.
No início da noite ainda ouvia-se o marcar de: frente, um, dois, três e pausa.
A noite ia lenta e começava a ficar sonolenta.

A marcação da dança confirmada por um som agradável fluía aos ouvidos em: lado lado, frente frente, marcou e gira, marca com a direita a frente, a dama, e assim seguia.

Fim de noite, pernas cansadas, ânimo renovado nos sorrisos e satisfações.
Amanhecer do dia seguinte: para frente, pausa, para trás, pausa. Depois uma hora de tranquilidade e atrás atrás, frente e atrás segura, marca e um, dois e três.

Entre um passo e outro nada além de um passo e outro. Na certeza de boa música, em um deslizar por chão diferente e na presença de pessoas distintas.

Antes do almoço um parabéns cantado era aniversário de alguém. Entre um passo e outro passa o tempo. Com ele se vão esses momentos que um dia farão parte das gavetas do meu esquecimento.

Ganush no Edredon

Vou ser honesta. A janela do quarto estava aberta, a beliche de cima vazia, mas nela tinha uma sacola plástica que balançava ao sabor do vento. Daí fiquei pensando e pensando e me lembrei de Ganush que no meu pesadelo estava deitada de bruços do meu lado na cama e olhando para mim com aquela boca aberta e sem dentes. Uma gosma verde escorrendo pelo queixo e caindo por sobre meu ombro descoberto, a baba grossa meio morna vindo daquela boca sombria e aquele olho direito de vidro fixado em mim.

Ou seja, não consegui dormir e resolvi ler um pouco e vim para a net escrever um trabalho que tenho que entregar.

Lá fora tem uma coruja com insônia fazendo barulhos nefastos aos meus ouvidos sensíveis.

Fico pensando: "será que esses monstros e demônios existem mesmo?!...". Depois de uns minutos prefiro ficar com meu ceticismo, que mesmo assim não afasta a Ganush do meu edredon.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Filme trash

Era sábado, abafado, atípico para o inverno e eu decidi ir ao cinema.

Como cinéfila que sou requisitei a presença do meu melhor amigo de infância de todos os tempos. Enquanto comentava com ele dos idos da semana e questionava sobre o que ele andava lendo passamos em frente ao cinema pois a idéia era assistir ao filme nacional "Os contadores de história" ou "Tempos de paz", mas uma obra do tão famoso Sam Raimi nos chamou a atenção. Lá fomos nós dois assistir ao trash no cinema. Para surpreender o filme era realmente trash.

Nos foi poupado cenas do tipo "albergue" e clichês do consagrado terror japonês com atores americanos. Sobrou sangue na moda "Kill Bill" e o som lembrou o "Teaching Mrs. Tingle (br: Tentação Fatal)" assim como a forma de condução do suspense.

A atenção fica para a construção do personagem da protagonista que é a típica loira dos filmes de terror, mas nem tão estúpida e muito menos tão boazinha. A tentativa de humanizar o personagem, atribuindo-lhe falhas de caráter teria enriquecido a história se a atuação não tivesse sido unicamente convincente na parte em que a personagem come sorvete.

O que vale mesmo no filme, é que tinha fila no cinema e isso pode vir a gerar uma renovada no gênero que anda muito entediante ultimamente.

P.S.: eu tive pesadelos.

domingo, 16 de agosto de 2009

Janela Fechada

Ela estava em casa
Era um dia tranquilo
temperatura amena.

Mas, ela não abriu a janela
Não quis ver o dia lá fora.
Continuou deitada.

Olhou o relógio
e viu os ponteiros
passarem com
certo desdém.

Virou de volta o rosto
para o travesseiro.
Afundou a face
no macio almofadado
e suspirou por entre os cabelos.
Não quis levantar.

A casa estava escura
O cheiro de algo podre
vinha da geladeira.

Ela estava ali,
imóvel, respirando
por entre a fronha e
uma fresta do lençol estampado.

Decidiu não abrir a janela.

Fechou os olhos.
O tempo passou no
putrefato cheiro
e nas vidraças
assim como, nos lençóis.

Vida. Podridão. Janela Fechada.
Era um dia tranquilo,
temperatura amena.

sábado, 25 de julho de 2009

Ando pelo mundo II

Anda pelo mundo
Para Helio

És livre, natural:
Cataratas
da retina.

Em vão tento
operar
você de mim.

Ando pelo mundo I

Fotografia em movimento
Para Helio

Enquanto te vejo digitar
Fotografia distante
Passado passeante;
Agora

Relógios
Calendários frívolos.

Teus dedos digitam
O tempo
Teus dedos na retina
Fotografia do momento.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Cada segundo

Cada segundo é único.

Eu ainda não consigo imaginar que exista a possibilidade de voltar
ou avançar
no tempo.

Exatamente por existir em cada segundo essa semente de eternidade.
Logo, assisto esse momento.
Participo.
Instante: angustiante sensação de unicidade efêmera em sua constituição.

Nesse sentido, sem, o agora é um instante infinito.
Vira os ponteiros e batem asas as borboletas.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Estava indo criticar uma pessoa

Estava indo criticar uma pessoa.

No básico da superficialidade humana eu estava pensando a respeito de alguém e julgando baseado na minha própria existência, como se o meu existir fosse o arauto de alguma verdade.

Continuando: estava indo criticar uma pessoa.

Ou seja, estava no cúmulo da minha mediocridade, quando não tenho idéia e nem um fato interessante ou relevante para explanar e a vida do outro parece merecer mais atenção que a minha.

Dessa forma, estava indo criticar uma pessoa. Tinha identificado algo que não me aprazia, determinado comportamento, levantado dados sobre determinada atitude, estabelecido um diálogo comparativo com a própria essência humana e começava a estabelecer uma opinião.

Estava indo criticar uma pessoa. De repente me pareceu tão absurdo e tão necessário que eu decidi, realmente, criticar uma pessoa; eu.

domingo, 12 de julho de 2009

Eu sou uma pessoa

Para muitas coisas eu não tenho talento, paciência com imprudentes é uma dela. Alias eu tenho a teoria de que não sou uma pessoa muito paciente.

Logo, recentemente tenho enfrentado alguns caos dignos de adolescência. Um, uma amiga diz que está comigo e está com um carinha da internet, daí eu fico acordada em casa esperando ela chegar, ela me chega passando mal. Dessa forma, passo essa noite sem dormir e na noite seguinte, ela diz que irá ficar em minha casa e eu passo a noite em claro esperando ela chegar, por que ela conheceu um carinha na night e ela me chega de manhã.

Se eu disser que fiquei zangada ou triste, talvez não desvele a minha reação ao inusitado. Eu fiquei decepcionada.

Não esperava por isso, existem coisas que não se fazem e uma delas é não reconhecer o outro como pessoa e respeitá-lo como pessoa.

sábado, 11 de julho de 2009

Cecília e eu

Diante de uma compulsão consumista super estimada e repentina eu adquiri Cecília em uma livraria, não é a minha primeira Meireles, mas com certeza a mais deliciosamente degustada.

Mas, ontem Cecí ficou comigo no banco de um hospital enquanto eu aguardava uma amiga que estava precisando de ajuda médica e enquanto eu ouvia as palavras vãs da recém formada eu lembrava da poesia e de como as palavras podem ser utilizadas para o bem e para a cura e como podem ser usadas para não dizerem nada.

Ai ai ai só Cecilia e eu naquele banco de hospital aguardando a hora de ir.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Paradigma da fenomenologia dialética (ahmmm!!!)

Na vitrine da livraria um título de obra sugere ao meu complexo de inferioridade introjetada o meu mínimo âmbito quo no mundo.

Ou seja, tinha um título de um livro que já excluía só com a capa: "Paradigma da fenomenologia dialética". Não sei do que se trata, mas me cansei só na capa, imagina vencer a folha de rosto, a ficha catalográfica que inclusive deve estar em latim.

A educação deveria ser para todos, um título pode simplesmente ostentar beleza e profundidade e terminar por ser apenas uma fator de segregação. Me desculpem os autores mas eu não compro nem por decreto algo sobre a fenodialética paradigmal de títulos. Apenas títulos.

Chega de adjetivos "glamurosos". Na vida tão efêmera devíamos é tornar as coisas mais simples.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Diário de um Engarrafamento em particular

Querido diário,

só você me entende e sabe quem sou. Só você não põe dúvidas sobre a minha existência e nem me ignora nas horas mais complexas. Por isso tudo que você representa para mim, venho lhe contar o que tenho pensado.

Amanheci na madrugada sendo xingado, em verdade a névoa matutina já anunciava que a segunda feira iria me fazer mais gordo do que de costume. Eu não gosto de existir por motivos de acidentes ou por danos vitais, eu gosto de existir por causa dessa esdruxulidade cotidiana humana que me criou.

Sim, eu sou o Trânsito, sou uma criatura, criado pelos humanos. Os homens me criaram e não sabem o que fazer comigo. Eu sou o engarrafamento diário. Eu sou as horas perdidas em fumaças dos canos de descarga. Eu existo!!!
Comecei minha rotina ocorrendo no Barreto, no semáforo de 3 minutos que tem até comunidade no orkut, muito popular ele. Eu também estou no orkut e sou bem pop. Sou o Frankstein da humanidade, me criaram e não me querem. O semáforo, amigo meu de longa data e grande colaborador da minha existência por aquelas bandas, teve uma indisposição e não funcionou bem. Logo, eu durei o dia inteiro, causando atrasos de até 4h para as pessoas.

Fui acusado, judiado, criticado, xingado. Mas, fiquei no primeiro lugar de interesse em notícias de rádio. Todos perguntavam ou falavam de mim por sms, estava na notícia da página de notícias e os helicópteros voavam para saber da extensão do meu poder. Na TV as repórteres de cabelos curtos faziam caras e bocas para contar sobre mim, uma velhinha me culpou por ter perdido a novela. O único que passou incólume ao meu poder foi um cão, que caminhou por entre os carros e se foi, sem me dar a mínima.

Sendo assim, depois de manter tantas pessoas paradas por tanto tempo por mim, eu descobri uma coisa eu sou deus. Eu sou o Engarrafamento particular da sociedade, estarei parando as pistas, vias, rodovias, avenidas, ruas e kilômetros depois quebrarei as esquinas até que meu criador me ame mais. Pois, o homem me ama, passam mais tempo comigo e falando de mim do que assistindo TV ou fomentando guerra e isso me faz mais popular que o falecido Rei do pop.

Ah!!! Querido Diário, como é bom poder desabafar contigo todos esses meus pensamentos engarrafados. Mas já são 6h22 e eu tenho que ir trabalhar, na madrugada se não houver nenhuma obra urgente, nós conversaremos mais.

Com todo amor, Engarrafamento Particular

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Em nome da Mulher Invisível


Ontem eu assisti ao filme nacional "A Mulher Invisível" e posso dizer que foi uma experiência maravilhosa. Trata-se de um excelente filme. Aborda de uma forma tranquila as relações modernas e a idealização das pessoas e dos relacionamentos. Uma pérola do cinema nacional, que não precisou copiar moldes americanos ou franceses para ser autentico. Uma produção com pimenta brasileira, com características que vão destacando a obra nacional e inserindo o jeito brasileiro de fazer filme. Nem precisa dizer que Selton Mello é um ator completo e que a sua interpretação é magnífica proporcionando: risadas, lágrimas de emoção e muita reflexão. Afinal, engana-se quem acredita que se trata de apenas mais uma comédia brasileira, o filme fala de um assunto sério com o humor típico dos habitantes da linha de baixo do Equador.

Sinopse: Pedro (Selton Mello) acreditava no casamento, mas foi abandonado pela esposa. Após três meses de depressão e isolamento, ele ouve batidas na sua porta. É a mulher mais linda do mundo pedindo uma xícara de açúcar: Amanda (Luana Piovani), sua vizinha. Pedro se apaixona por aquela mulher perfeita, carinhosa, sensível, inteligente, uma amante ardente que gosta de futebol e não é ciumenta. Seu único defeito era não existir. (fonte: www.interfilmes.com)

domingo, 28 de junho de 2009

Arado parado para nada serve

Inteligência sem propósito, sem objetivo em prol das relações humanas ou da diminuição da desigualdade social é como arado parado em terra fértil. Um arado em terra fértil não serve para nada se não tiver as mãos que o guiem, que tracem o caminho do semear.

Sozinho, um arado parado para nada serve.

O mundo não precisa mudar.
O mundo existe independente de nós.
Nós precisamos mudar.
Nós não existimos sem o mundo.

sábado, 27 de junho de 2009

Mão Inglesa

No Brasil temos a mão inglesa. Trata-se da mão invertida no trânsito. Pois, dessa forma o trânsito caminha como se fosse na Inglaterra e não como se fosse no Brasil.

Ao invés de ficar do lado direito da rua, o carro vai para o lado esquerdo da rua.

Quando isso ocorre parece que estamos na contra-mão. Mas, não estamos. Isso acontece por causa do costume. Mesmo quando a placa autoriza e a lei regulamenta algo que não nos é cotidiano, inicialmente parece que estamos cometendo algum ilícito e arriscando as nossas existências e as de outrem, também.

Engraçado que quando eu olho para a sociedade e reflito sobre as relações e a existência eu penso se de repente não estou na mão inglesa dessa cotidianeidade.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Papo de 7ª Vara

Recentemente fui convidada a comparecer na 7ª Vara trabalhista para audiência de antiga pendência com última empresa trabalhada.

Enquanto o horário marcado ficava nítidamente atrasado eu aguardei na sala de espera.

As salas de espera parecem retratos fragmentados das opiniões pessoais. Se for uma sala de espera de um consultório médico ou clínica hospitalar o assunto dominante será doença. Se for uma sala de espera de uma capela o assunto será morte. Se for de uma maternidade será gravidez e assim, as salas determinam por suas paredes os assuntos da pauta. Logo, a sala de espera da 7ª Vara tinha de ter um assunto em específico e o tema era justiça.

Enquanto o relógio lentamente fazia o ponteiro girar: a lei de talião foi amplamente debatida e defendida como melhor opção por advogados e clientes presentes. Alguns representantes da classe dos advogados defendiam o bacharelado e criticavam a prova da OAB. Um auxiliar reclamava dos salários baixos, um estagiário dizia que a profissão gerava possibilidades financeiras baixas. Nisso uma senhora loira, bem vestida e de aproximadamente 45 anos criticava a justiça por que o filho dela não tinha passado para uma universidade pública enquanto os filhos dos negros que estudavam em colégio público passavam. (Deprimente)

Mais ao lado uma advogada instruía o cliente como se portar diante do Meritíssimo e no outro lado do corredor a Parte Ré e Autora de uma outra ação gargalhavam juntas falando entre sorrisos dos bons momentos vividos na época em que trabalhavam juntos. O auto falante gritava números e nomes e a hora passando sem pressa, enquanto eu prestava a atenção no papo de 7ª Vara.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Campanha na Mauritânia

Eu acompanho o blog mochileiroselvagem.com e recentemente vi a foto abaixo



Só posso dizer que chorei, chorei emocionada e com vergonha não pude olhar novamente ao rapaz que passa.

Essa foto é de uma campanha eleitoral na Mauritânia, feita por um amigo, mas meus olhos sentem dor diante do que é visto na foto. Essa esperança humana, essa esperança puramente humana, que não sabe por que vive, mas vive e sobrevive.

O rapaz passa e olha para o fotógrafo, e ve alem do fotógrafo, ele enxerga a mim, que estou aqui do outro lado da fotografia ele me vê e me encara e me indaga calado, eu na minha ignorância e apatia o vejo e ele passa, sabe que não vale a pena parar.

Meus olhos fecham, tenho vergonha, por mim e pelo mundo, não só pelo que acontece aqui mas pelo que está acontecendo em toda a parte.

Essa campanha na Mauritânia me elegeu o ser mais estúpido do planeta, sinto vergonha, sinto muita vergonha.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Um e-mail tão ridículo quanto uma carta de amor

Oi amor,

hoje já não se escrevem cartas. Vive-se na abreviação das salas de bate papo. Mas, isso não diminui e nem dismistifica a ridicularidade desse email que te escrevo.
Docinho, estou com saudades de você. Sim, meu bem, nesse instante em que te escrevo são os seus olhos que eu vejo e o teu sorriso que me sorri.
Oh vida! Paixão, alegria, são tão únicos e mágicos esses momentos que desfruto contigo. Mesmo que separados por um oceano e tantas fronteiras.
Transbordam em lagos fundos os olhos meus ao pensar da distância que nos consome.
Ah! Amado, como eu queria estar aí ao seu lado, falando-te todas essas palavras esdruxulas, mas tão cheias de afeto.
Talvez eu seja ridícula, mais ridícula do que as palavras ou do que as cartas de amor que não foram enviadas e até pior do que aquelas que foram sentidas, mas que nem foram escritas.
Sendo assim, esse email que busca um argumento de valor nas palavras do Pessoa é apenas uma forma de uma pessoa, que não é poeta e nem lusitano, dizer para você que sente a sua ausência agora e que te adora no sempre que se renova no virar de cada ponteiro do relógio.
Esse tempo tão efêmero e tão ridicularmente angustiante que é a espera da espera por notícias suas.

Beijos coração, saudades de você.

Poesia de Fernando Pessoa

Piegas esse email, né!!!!

Vitoriosos são os que dão o primeiro passo em direção aos sonhos


O horizonte sempre parece mais próximo para aquele que caminha.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Esse post está dançando

Eram 20h30, eu estava entediada comigo mesma e recusando-me a qualquer atividade que não fosse ficar debaixo das cobertas. Mas, eis que o telefone toca e é um querido amigo de perto, mal entendo o que ele fala, mas aceito ir.

Minutos depois estamos nós chegando na academia de dança, passamos uma hora dançando. Reencontrei o professor de forró que me ensinou todos os passos de forró que eu sei, hoje. Alguém que eu admiro e vi, também a esposa dele que está linda grávida de 6 meses. Por consguinte vi pessoas conhecidas e conheci novas.

Ou seja, se eu estivesse em casa não teria dançado, aprendido a conduzir o "elevador" e nem me divertido. No forró a condução é uma atividade exclusivamente masculina e o "elevador" é um passo em que o cavalheiro ergue a dama ao alto equilibrando-a por um dos joelhos e sustentando-a no ar por alguns breves segundos. Logo, fui dama e cavalheiro no intervalo de uma hora. Por uma hora, não existiu problemas, trânsito e a Terra não rodava lá fora, nenhuma buzina ou ligações indesejadas de hospital e financeiras, nada no ouvido além da marcação do baião, xote e pé de serra e assim as horas se arrastaram nos 60 minutos da eternidade de não ter peso nos ombros.

Então o ponteiro menor decretou fim de aula e cada um se foi. Voltei pulando na calçada e rindo por estar aliviada, provisóriamente, desse peso que a responsabilidade joga sobre nós com o passar dos dias.

Sim, esse post está dançando e eu também. Lição do dia:

As estrelas continuarão a brilhar lá fora mesmo que haja trevas dentro do abrigo. Portanto, para se ter como teto o infinito de constelações pode-se começar abrindo a janela.

Obrigada Thomazelli (Tomtom)!

quarta-feira, 3 de junho de 2009

A coerencia nos ditos populares

Aos 10 anos de idade eu tive um professor de educação artística chamado Jorge. Creio que ele nem saiba a importância que teve na minha vida. Um dia em um trabalho escolar ele contou sobre os ditados ou ditos populares.
Falou que muito do que se falava era advindo de uma sabedoria popular. Que era importante sabermos e, principalmete, refletirmos sobre eles fazendo uma relação com a nossa vida. Ah se ele soubesse o quanto tinha razão. Vou levantar alguns mais conhecidos e traçar um paralelo com minha existência.
Se correr o bicho pega e se ficar o bicho come - as vezes não há escapatória
Entre a cruz e a caldeirinha - as vezes não há escapatória mesmo
Em terra de cego quem tem olho é rei - melhor se fingir de cego ou se descobrirem vão te cegar
Esse vai ser um post longo que vou continuar por partes.

O uso correto da mentira

Na infância eu fui cobrada por pregar pequenas peças e por inventar histórias.
Como não sabia como obter atenção inventava várias mentiras, ao passo de que tão fantasiosas eram facilmente descobertas.
Com o passar do tempo e com a vida social algumas omissões de fatos e opiniões se tornaram necessárias para uma convivencia amistosa.
Mesmo assim não tardaram cobranças, onde minha sinceridade era posta a prova e onde sempre havia um "arauto da verdade" a me cuspir sentenças. Assim, quando a verdade, meu ponto de vista, era publicizado gerava um mal estar e eu angariava sérias inimizades. Quando omitido gerava indignação e, consequentemente, sérias inimizades. Então, desde a infância eu venho tendo problemas com o uso correto da mentira.
Existe um dito popular que traduz bem a questão posterior: "Se correr o bicho pega e se ficar o bicho come". Ou seja, de qualquer jeito alguém sempre se dá mal. Portanto eis a questão:
Mentir e se ferrar ou não mentir e se ferrar?

domingo, 31 de maio de 2009

Sobre mensagens offline

Acontece aquela espera angustiosa, de um sinal luminoso ou sonoro.

Aceita-se o vermelho do ocupado e até o laranja do ausente. Mas, busca-se em verdade o verde do disponível e assim segue a espera.

Então a quem se espera não aparece, o tempo se vai. A lan house vai fechar, está no limite da hora, amanhã acorda cedo, a irmã que usar o computer, o síndico avisou que vai faltar luz e tudo conspira para que o Sair seja clicado.

De coração partido, caído, descolado no chão lacrimoso da saudade pungente e da expectativa frustrada o caminho do dedilhar de teclados avança para uma página que se sabe de antemão não representar alguma imediata interatividade. A página para mensagens offline.

Não existe nada mais triste do que falar para quem não está. Para quem no imediato das horas não lê e consequentemente não responde. Fica-se um vácuo. Uma lacuna existencial naquela comunicação que devia acontecer interligadora, mas que agora parece um bilhete pregado na geladeira.

Terminada a mensagem offline, ainda é possível ver a janela de com quem se buscava falar aberta e minimizada na parte de baixo. Mesmo depois de escrita a mensagem a janela de diálogo fica aberta. Revela a continuidade dessa esperança por colorido que pisca e alerta quando o longe deixará de ser para realizar a proximidade que possibilitam as telas e teclas.

Enquanto se clica para fechar, esse último piar de esperança, abre-se o monólogo feito pelo portador da ansiedade que por tanto tempo aguardou. Assim, a tela aberta expõe um texto que não tem nada de lógico, pois dependeria exatamente da outra parte, da contrapartida e da resposta. Assim, o cursor vai até o X branco de fundo vermelho no alto da tela que não demarca tesouros em mapas, mas o fechar de um tesouro.

Sendo assim, um monólogo que buscava ser diálogo termina em uma janela solitário falando sozinho, como se falasse com outra pessoa. Porém, essa pessoa não está e portanto não responderá.

sábado, 30 de maio de 2009

Perseguida por um Alô


Hoje não teve jeito aquele Alô de ontem veio me aterrorizar em diversas ligações profanas. Quando Bell inventou o telefone ele não sabia que iria se tornar algo tão popular e as vezes tão invasivo e questionador.

Ah!!! Bell, se tu soubesse que exitiriam trotes e ligações que anunciam falsos sequestros; que alguém iria ligar autorizando soltar uma bomba H, que alguém iria usar o telefone para ligar os fornos em Auschwitz. Será que ainda assim você iria inventá-lo? Talvez inventasse para que uma ligação avisasse da disponibilidade de um coração para transplante ou simplesmente para contar do fim da guerra. Acredito que inventaria independente da má utilização do mesmo para que a humanidade pudesse aproximar-se mais.

Sim, Bell eu entendo suas razões. É por isso que independente do que eu suponha ser o assunto eu sempre digo Alô! Essa esperança que você deixou discada em nós.

"O chefe da polícia pelo telefone mandou avisar que na praça 11 tem um vídeo poker para se jogar." Música popular brasileira

"E quando eu digo Alô! Falar de amor as vezes sofre e mexe com meu coração, me faz pensar que ainda me ama..." Música popular brasileira

"I just call to say: I love you, I just call to say how much I care." Música americana

"Ja no responde ni teléfono, pende de um hilo la esperanza mia." Música latina

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Quando o alô te persegue

Existem momentos em que não podemos dar atenção ou em que realmente não podemos falar ao telefone. Hoje, eu estava fugindo do telefone. Não de qualquer telefonema. Mas, de um em especial, de um que eu sabia que não poderia escapar.
Quando o telefone tocou na sala eu sabia, pressentia e supunha do que se tratava. Lá estava eu fugindo de uma nova tecnologia, correndo da modernidade por não saber o que dizer para quem me procurava e esperava do outro lado da linha. Evitei ficar olhando enquanto ele me perseguia por todos os cantos, tentanto me alcançar.


Segundos depois era possível ouvir em bom tom: alô!!!

domingo, 24 de maio de 2009

Vaquinha

Durante um frio inverno, um Monge e seu discípulo viajavam para uma aldeia muito distante.
Para chegar até o destino eles tiveram de optar por um caminho novo pelas montanhas.
A estrada era de pedra e gelo, uma subida muito íngrime e muito pouco se via com a densa neblina. Por causa do ar rarefeito eles quase não conversavam. Tinham de vencer rapidamente a montanha, pois tinham poucas provisões e o inverno estava ficando cada vez mais rigoroso.
Em uma curva porém eles se depararam com uma espécie de casa, era um conglomerado de madeira e lama que erguiam umas palhas trançadas, mas de dentro de lá saía uma fumaça e um cheiro muito bom de leite quente.
Com fome os dois andarilhos resolveram ver se pelo menos poderiam se abrigar da neve que começava a cair fina e insistente. Ao cruzarem o que devia ser a varanda eles viram uma vaquinha. Magrinha, de ossinhos envergados o frágil animal abrigava-se ali, escondendo-se do frio e do forte vento.
Eles bateram na porta e foram recebidos com muita alegria pelos moradores do local. Ficaram muito contentes em ver pessoas, pois raramente alguém passava por aquele caminho. Tinham também muita honra de receber um Monge em casa, pois a figura de um homem religioso para eles era muito importante.
Os quatro moradores da casa dividiram com eles a refeição e prepararam mais comida, tinham pouco, mas o que tinham não se incomodavam em dividir. Assim passaram a noite e no raiar do dia as nuvens mais escuras tinham se dissipado e a neve estava derretida pelos raios de sol.
Logo, o Monge e seu discípulo podiam continuar sua jornada. Sendo assim, despediram-se dos moradores e saíram de volta para o seu caminho. Da frente da casa o Monge avistou a vaquinha que pastava perto de um desfiladeiro. Caminhou até ela e viu a força e a beleza daquele rude animal, mas que demonstrava sérios traços de cansaço.
Ele segurou na corda que a amarrava e caminhou com ela, fez com que ela andasse, deram voltas e voltas no extenso terreno. De perto o discípulo se encantava com a facilidade que seu Mestre tinha para lidar com os animais.
O Monge então faz uma reverência a vaquinha que começa pastar no capim verdinho da ponta da montanha e então o Monge toma-se de força e empurra o bichinho lá de cima.
Assustado o Discípulo olha para o Monge que retorna para a trilha na montanha. Inconformado com o que houve o Discípulo para o Mestre e esse olha-lhe de uma forma tão serena, que o Discípulo desiste de perguntar.
Terminam a jornada, chegam na cidade de destino e depois de dois anos retornam pela mesma estrada, mas na curva eles não avistam mais aquele casebre e sim uma enorme residência. Com muros altos, um belo telhado, um jardim colorido e diversas árvores a Mansão evidenciava uma rica vida dos moradores. Sem entender nada o Discípulo olha para dentro do portão da atual mansão e vê os antigos moradores daquele casebre só que agora bem vestidos e aparentando riqueza.
Ele olha para o Monge e diz: fizestes esse milagre, mestre?
Ao que o Mestre responde: sem aquele infeliz animal para prover-lhes as necessidades, eles tiveram de trabalhar.

Moral da história: tem sempre alguém fazendo a gente de vaquinha