Quando eu era pequena tinha vergonha de andar com meu pai.
Ele tinha um carro velho que vivia dando problemas. Normalmente, tinha de ser empurrado ou socorrido por reboques; mecânicos; curiosos e afins.
Fato é que era um Dodge Charger, preto, dos idos de 71 ou 73 não estou bem certa e meu pai passava boa parte do dia concertando o danado do carro.
Até que um dia ele comprou um Opala, de segunda mão, cinza metálico, duas portas e funcionava. Aliás eu me lembro do Opala muito bem. Meu pai desmontava o Dodge e levava a gente para ir ao mercado ou algum outro lugar no Opala e sempre que eu olhava para trás o Dodge estava com aqueles faróis tristes de quem foi preterido. As vezes eu me sentia culpada por preferir o carro que funcionava ao velho Dodge. Mas, era só dar uma chance ao carango e ele nos deixava na mão.
Um dia meu pai teve de vendê-los para pagar dívidas: o Opala foi para um rapaz e o Dodjão foi para o ferro velho. Fico pensando como será que está aquele estofamento e aquela marcha acoplada ao volante; tantas horas que meu pai dedicou àquele motor. Tempos bons aqueles em que meu pai definia o meu destino e sentir culpa por um carro enguiçado era o maior dos meus problemas.
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| Miniatura de Dodge Charger |